José González regressa a Portugal para dois concertos em nome próprio. Longe das multidões festivaleiras, da folia e do calor, o músico sueco pôde agora apresentar em condições ideais a sua música. A Aula Magna esteve quase cheia para ouvir os acordes intimistas e a força acústica das canções de González. Com In Our Nature em destaque, o concerto apenas pecou ter chegado, eventualmente, a um fim.
:: 29 de Abril de 2008
Um palco despido, sossegado e três cadeiras vazias. Após a ansiedade de quem espera na plateia, de quem aguarda que as luzes adormeçam, José González entra em palco, vestido de negro e com o olhar retraído. Senta-se e assume a posição: curvado sobre a guitarra acústica, como um punho fechado que segura um tesouro. Seria assim que o músico sueco iria permanecer durante o resto da noite, fazendo soar pela Aula Magna acordes fortes, melodias embalantes e, sobretudo, um talento musical impressionante.
“Deadweight On Velveteen” entra de mansinho, como se a própria guitarra estivesse a despertar de uma longa noite, a reconhecer o espaço que a envolve. Apesar de suave, alguns dos acordes soltos pelos dedos de José González quase que abalam a estrutura da sala. Poucas palavras mas muita música, foi esta a estratégia de González. “Hints”, “Fold” e “All You Deliver” mantiveram o tom reservado que se instalava com cada vez maior segurança. Os assentos afundavam-se e o conforto devorava a audiência. Era estranho desviar o olhar do palco, daquela figura distante e envolta numa luz suave, e reparar nas centenas de pessoas que partilhavam um mesmo momento de intimidade. Uma antítese perfeita.
A solidão de José González em palco terminou com a entrada de Yukimi Nagamo e de Christopher Berg, que trouxeram uma amena camada de ritmo consigo. Para além de duas congas e de um sintetizador, Berg improvisou o som grave de um bombo com seu pé descalço sobre uma caixa de guitarra. Ah, a simplicidade! Quando “Stay In The Shade” se faz soar, a harmonia dos três músicos era enternecedora e a riqueza dos sons que produziam fascinante. O ambiente foi libertando-se pouco a pouco com a batida açucarada de “In Our Nature”, tema homónimo do último disco de José González. “How Low”, “Nest” e “Down The Line” continuaram a viagem pelas novas canções, enquanto que “Lovestain” – cujo acompanhamento a palmas por centenas de pessoas tende a ser algo perturbador – e “Remain” fizeram as delícias dos que já se cruzaram com Veneer (2003).
A muito esperada “Heartbeats” provocou um silencioso tremor por toda a sala. Não creio que alguém pensasse que este tema dos The Knife pudesse alguma vez assumir este poder emotivo, esta franqueza que desarma o ouvinte e aquece o corpo. Em concerto, este será permanentemente um dos momentos de maior beleza de José González. Assim como “Crosses”, outro dos trunfos do disco de estreia do músico.
Ao anúncio de que faltariam somente três canções para terminar o concerto o público soltou um suspiro de desilusão. Ninguém queria que aquela sessão, aquela partilha alguma vez terminasse. “Broken Arrow”, que quase soa incompleta dada a sua curta duração, contrastou com “Cycling Trivialities”, que atinge os oito minutos sem comprometer a sua solidez como canção. Seria com a retransformada “Teardrop”, dos Massive Attack, a embater violentamente no sistema nervoso da plateia, que José González encerraria parte oficial do concerto. Palmas, assobios, gritos e ruído, muito ruído, trouxeram de volta o músico que admitiu debaixo de um sorriso envergonhado: “Vocês são muito mais ruidosos que eu”.
Para o encore ficaram reservados pequenos apontamentos díspares, como a fugaz “Abram”, a mexida “Time To Send Someone Away”, a luzidia “Down The Hillside” e duas versões resgatadas dos anos oitenta: “Hand On Your Heart”, de Kylie Minogue, e “Smalltown Boy” dos Bronski Beat. A segunda saída de palco de José González foi definitiva. Com o peito quente, a cabeça envolta em belas melodias e a alma aconchegada, o regresso a casa do público fazia-se com um sorriso inadvertido e sincero. Esperemos que o de José González também.
Na primeira parte estiveram os portugueses Sean Riley & The Slowriders. Num concerto dominado por blues e alguma folk, o trio encabeçado por Sean Riley não impressionou em palco. Contudo, temas como “Harry Rivers” tiveram uma forte energia, devido em muito ao trabalho versátil do ex-Bunnyranch Filipe Costa que se desdobrou entre as teclas, bateria e harmónica. Já Sean Riley, um frontman cujas palavras em inglês se assemelhavam a um amontoado de sons imperceptíveis, mas teve uma presença forte e segura, levando quase sempre a bom porto as suas canções. Num ambiente a preto e branco, com alguns toques de jazz e melancolia, o concerto encerra numa apoteose nada natural com os instrumentos a sofrerem a ira desadequada e desnecessária de uma banda que poderia ter feito melhor.
Alinhamento:
“Deadweight On Velveteen”
“Hints”
“Fold”
“All You Deliver”
“Stay In The Shade”
“In Our Nature”
“How Low”
“The Nest”
“Remain”
“Down The Line”
“Heartbeats”
“Crosses”
“Broken Arrow”
“Cycling Trivialities”
“Teardrop”
encore:
“Abram”
“Time To Send Someone Away”
“Down The Hillside”
“Hand On Your Heart”
“Smalltown Boy”
texto: Gonçalo Sítima
fotos: Sílvia Dias

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