José González ao vivo na Aula Magna

•30, Abril, 2008 • Deixe um comentário

José González regressa a Portugal para dois concertos em nome próprio. Longe das multidões festivaleiras, da folia e do calor, o músico sueco pôde agora apresentar em condições ideais a sua música. A Aula Magna esteve quase cheia para ouvir os acordes intimistas e a força acústica das canções de González. Com In Our Nature em destaque, o concerto apenas pecou ter chegado, eventualmente, a um fim.

:: 29 de Abril de 2008

 

Um palco despido, sossegado e três cadeiras vazias. Após a ansiedade de quem espera na plateia, de quem aguarda que as luzes adormeçam, José González entra em palco, vestido de negro e com o olhar retraído. Senta-se e assume a posição: curvado sobre a guitarra acústica, como um punho fechado que segura um tesouro. Seria assim que o músico sueco iria permanecer durante o resto da noite, fazendo soar pela Aula Magna acordes fortes, melodias embalantes e, sobretudo, um talento musical impressionante.

“Deadweight On Velveteen” entra de mansinho, como se a própria guitarra estivesse a despertar de uma longa noite, a reconhecer o espaço que a envolve. Apesar de suave, alguns dos acordes soltos pelos dedos de José González quase que abalam a estrutura da sala. Poucas palavras mas muita música, foi esta a estratégia de González. “Hints”, “Fold” e “All You Deliver” mantiveram o tom reservado que se instalava com cada vez maior segurança. Os assentos afundavam-se e o conforto devorava a audiência. Era estranho desviar o olhar do palco, daquela figura distante e envolta numa luz suave, e reparar nas centenas de pessoas que partilhavam um mesmo momento de intimidade. Uma antítese perfeita.

A solidão de José González em palco terminou com a entrada de Yukimi Nagamo e de Christopher Berg, que trouxeram uma amena camada de ritmo consigo. Para além de duas congas e de um sintetizador, Berg improvisou o som grave de um bombo com seu pé descalço sobre uma caixa de guitarra. Ah, a simplicidade! Quando “Stay In The Shade” se faz soar, a harmonia dos três músicos era enternecedora e a riqueza dos sons que produziam fascinante. O ambiente foi libertando-se pouco a pouco com a batida açucarada de “In Our Nature”, tema homónimo do último disco de José González. “How Low”, “Nest” e “Down The Line” continuaram a viagem pelas novas canções, enquanto que “Lovestain” – cujo acompanhamento a palmas por centenas de pessoas tende a ser algo perturbador – e “Remain” fizeram as delícias dos que já se cruzaram com Veneer (2003).

A muito esperada “Heartbeats” provocou um silencioso tremor por toda a sala. Não creio que alguém pensasse que este tema dos The Knife pudesse alguma vez assumir este poder emotivo, esta franqueza que desarma o ouvinte e aquece o corpo. Em concerto, este será permanentemente um dos momentos de maior beleza de José González. Assim como “Crosses”, outro dos trunfos do disco de estreia do músico.

Ao anúncio de que faltariam somente três canções para terminar o concerto o público soltou um suspiro de desilusão. Ninguém queria que aquela sessão, aquela partilha alguma vez terminasse. “Broken Arrow”, que quase soa incompleta dada a sua curta duração, contrastou com “Cycling Trivialities”, que atinge os oito minutos sem comprometer a sua solidez como canção. Seria com a retransformada “Teardrop”, dos Massive Attack, a embater violentamente no sistema nervoso da plateia, que José González encerraria parte oficial do concerto. Palmas, assobios, gritos e ruído, muito ruído, trouxeram de volta o músico que admitiu debaixo de um sorriso envergonhado: “Vocês são muito mais ruidosos que eu”.

Para o encore ficaram reservados pequenos apontamentos díspares, como a fugaz “Abram”, a mexida “Time To Send Someone Away”, a luzidia “Down The Hillside” e duas versões resgatadas dos anos oitenta: “Hand On Your Heart”, de Kylie Minogue, e “Smalltown Boy” dos Bronski Beat. A segunda saída de palco de José González foi definitiva. Com o peito quente, a cabeça envolta em belas melodias e a alma aconchegada, o regresso a casa do público fazia-se com um sorriso inadvertido e sincero. Esperemos que o de José González também.

Na primeira parte estiveram os portugueses Sean Riley & The Slowriders. Num concerto dominado por blues e alguma folk, o trio encabeçado por Sean Riley não impressionou em palco. Contudo, temas como “Harry Rivers” tiveram uma forte energia, devido em muito ao trabalho versátil do ex-Bunnyranch Filipe Costa que se desdobrou entre as teclas, bateria e harmónica. Já Sean Riley, um frontman cujas palavras em inglês se assemelhavam a um amontoado de sons imperceptíveis, mas teve uma presença forte e segura, levando quase sempre a bom porto as suas canções. Num ambiente a preto e branco, com alguns toques de jazz e melancolia, o concerto encerra numa apoteose nada natural com os instrumentos a sofrerem a ira desadequada e desnecessária de uma banda que poderia ter feito melhor.

Alinhamento:
“Deadweight On Velveteen”
“Hints”
“Fold”
“All You Deliver”
“Stay In The Shade”
“In Our Nature”
“How Low”
“The Nest”
“Remain”
“Down The Line”
“Heartbeats”
“Crosses”
“Broken Arrow”
“Cycling Trivialities”
“Teardrop”
encore:
“Abram”
“Time To Send Someone Away”
“Down The Hillside”
“Hand On Your Heart”
“Smalltown Boy”

 

texto: Gonçalo Sítima
fotos: Sílvia Dias

The Other Side – Endless Times

•29, Abril, 2008 • Deixe um comentário

theotherside-endlesstimesNo autocolante colado na capa os The Other Side ostentam as suas influências. Joy Division, Peter Murphy e Nick Cave and The Bad Seeds. Todos grandes nomes que tiveram um papel determinante na evolução da música alternativa. Mas mais do que revelar as influências da banda, mais do que dar pistas aos ouvintes relativamente ao tipo de sonoridade da banda, este autocolante é usado como um carimbo de qualidade.

Na verdade, das influências enumeradas, a única que se traduz inquestionavelmente na sonoridade dos The Other Side é a de Peter Murphy. De resto, tirando a semelhança com Ian Curtis na forma de cantar, os anos 80 só aparecem em Endless Times de uma forma estereotipada, caindo-se vezes sem conta em alguns clichés. As referências à noite, às lágrimas, às estrelas e ao frio são quase constantes, evidenciando o esforço feito para criar ambientes poéticos, dignos de um clássico neo-romântico mas que, por serem forçados, parecem sempre artificiais.

Algumas das músicas de Endless Times não trazem nada de novo. Poderiam ter sido feitas por qualquer uma das novas bandas de música alternativa. “Static Skies”, “Wonder”, “Reflections”, “Locomotive” e “So Close So Different” revelam em que estilo musical os The Other Side se encaixam, mas não dizem nada sobre a sua personalidade, sobre as suas especificidades.

Felizmente as outras músicas indiciam um futuro promissor para os The Other Side. “Loneliness” tem o seu grande trunfo nas teclas, que a tornam memorável. “The Reason Why”, após uma primeira parte monótona e melodramática, explode intensamente, num rasgo épico de energia (os falsetes eram dispensáveis!). “Until the Time to Change” e “Behind All My Dreams” conseguem ser atmosféricas e seriam candidatas fortíssimas a uma banda-sonora de um filme independente. Mas o ponto forte de Endless Times é sem dúvida “This Night”, a mais bem construída, a mais épica, a que conjuga de forma mais interessante e equilibrada os elementos electrónicos e os intrumentos.

Endless Times é um bom álbum de apresentação de uma banda que, longe de estar a tirar partido de todo o seu potencial, ainda procura um caminho. E esse caminho terá de passar necessariamente por se diferenciarem das outras bandas, para deixarem de ser uma das bandas que veio à tona aproveitando a onda de bandas influenciadas pelos anos 80, sob pena de quando a moda passar voltarem às profundezas dos oceanos. A aposta na produção das músicas é um dos pontos críticos, procurando uma sonoridade mais polida, mais diversificada, dando a cada música o que ela precisa, em vez de a obrigar a adaptar-se ao esquema guitarra, baixo, bateria e teclas. As músicas precisam de respirar, de evoluir naturalmente, de marcar a sua posição. E para isso os The Other Side têm de estar dispostos a arriscar mais.

7/10 | João Oliveira

Tori Amos – To Venus And Back

•22, Abril, 2008 • Deixe um comentário

toriamos-tovenusandbackApós From the Choirgirl Hotel, um álbum emotivo, aguerrido e virado para a acção, Tori Amos foi criando um conjunto de canções, sem ter em mente a construção de um álbum. Assim, aos poucos e poucos, de forma inconsciente, To Venus and Back foi ganhando forma, até que a sua existência se tornou óbvia e incontornável. Tori abandonou então a ideia de editar uma compilação de b-sides e decidiu lançar um álbum de originais, acompanhado de um álbum ao vivo, com músicas marcantes no seu percurso musical. Há por isso em To Venus and Back uma ponte entre o passado e o presente, mas também o encerrar de um ciclo.

O primeiro CD é uma extensão do experimentalismo electrónico que Tori iniciou em From the Choirgirl Hotel. “Bliss” começa com uma mensagem estranha: ”Father, I killed my monkey / I let it out to / Taste the sweet of spring”. O piano, puro e inocente, mistura-se com batidas electrónicas sujas e com ressonâncias que dão à música um tom intenso, que apenas se aligeira no refrão. “Lust” joga também com a dicotomia pureza/sujidade no som, mas de uma forma mais soturna em envolvente, assumindo Tori uma voz etérea que se desdobra em ecos.

“Josephine” inspira-se em Napoleão e na sua mulher, recriando um triste reconhecer de uma derrota, da derrocada de um sonho. São os pequenos detalhes que tornam esta simples música num momento especial, como o separar o som do piano do da bateria, fazendo com que cada um surja apenas de um lado, com a voz no meio a funcionar como elemento de união. E também a maneira como Tori brinca com a palavra “impossible”, reminiscente do espírito desafiador de Napoleão e da forma como questionava o impossível.

O grande momento deste álbum é a épica, desconcertante e indescritivelmente emocionante “Dãtura”, nome de uma planta alucinogénia que, quando usada em excesso, pode matar. Trata-se por isso de uma música sobre o perigo de ultrapassar os limites. Mas ao mesmo tempo há um ambiente bíblico, com referência à divisão de Canaã, a terra prometida. No fundo é uma forma de pisa o risco, como se o Homem usurpasse o poder de Deus e se atravesse a pôr e dispor sobre uma terra por ele considerada sagrada. A primeira parte da música é muito simples, muito centrada no piano e na bateria, sons que servem de pano de fundo à leitura que Tori faz de uma lista de plantas que tem no seu jardim. E aos 3 minutos e 39 segundos a música pára e metamorfoseia-se. Uma batida abafada assume o controlo, rodeada de arranjos electrónicos misteriosos e de uma voz que repete ”Dividing Canaan” muitas vezes, incontáveis vezes, como se não conseguisse acreditar que o Homem fosse capaz de tal ousadia. Aos poucos e poucos vai surgindo a bateria e outros discretos arranjos electrónicos. E assim se passam 5 minutos de absoluta perfeição.

O segundo álbum, que apresenta algumas músicas de Tori Amos ao vivo, tem 3 motivos principais de interesse: “Cooling”, “Sugar” e “Purple People”, faixas que apenas foram editadas como b-sides. A beleza de “Cooling” reside no piano e no poder dos silêncios, para além de ter um dos mais emocionantes refrões escritos por Tori. “Sugar” é arrebatadora, capaz de emocionar a mais fria das pessoas. A voz de Tori ganha uma dimensão metafísica, oscilando entre um registo grave e intensos agudos, com improvisos geniais pelo meio. “Purple People” é menos interessante, mas tem também os seus encantos.

To Venus and Back é um dos álbuns mais herméticos de Tori Amos, repleto de letras indecifráveis, de cenários em constante transformação. Não consegue ser tão apaixonante com “From the Choirgirl Hotel”, mas é igualmente genial. E com este álbum Tori Amos termina a sua incursão pela música electrónica, optando no futuro por um regresso às origens.

9/10 | João Oliveira

No Kids – Come Into My House

•14, Abril, 2008 • Deixe um comentário

Depois da febre de bandas que surgiram do Canadá há pouco anos atrás, ainda há novos grupos bastante interessantes a surgirem desse imenso país. Os No Kids não são propriamente uns novatos nas lides musicais, apesar de Come Into My House ser o seu disco de estreia. Isto porque os três membros que compõe o grupo, os multi-instrumentistas Julia Chirka, Justin Kellam e Nick Krgovich, já antes tinham feito parte dos P.ano.

Para a Primavera que está aí chegar, Come Into My House é o disco perfeito. Doces melodias pop, com orquestrações repescadas dos musicais de Hollywood da idade dourada, vocalizações descendentes das do Brian Wilson dos Beach Boys, batidas electrónicas com a veia r’n’b de uns Hot Chip e a sombra do violonista Arthur Russel a pairar na lustrosa paleta de sons a que a banda se dedica.

São doze canções que sabem a algodão doce num final de tarde de Primavera, com toda a inocência que tal pode ter. Melodias indie-pop que não revolucionam, mas que nem têm esse propósito, querem sim aconchegar-nos o lar, levar-nos por passeios sem razão aparente de existirem. Há incorporações de electrónicas singelas mas também das estruturas das canções da Motown.

Come Into My House é essencialmente bonito, onde sopros, cordas, batidas electrónicas, sintetizadores e vozes cândidas se juntam para criarem atmosferas cinematográficas, cheias de cores, que entram pela casa dentro e logo se instalam confortavelmente. A música não vive só de revoluções.

8/10 | João Moço

P é de Portishead

•13, Abril, 2008 • Deixe um comentário

Bristol, Inglaterra, 1991. Geoff Barrow trabalhava como operador de gravação para músicos como Massive Attack e Tricky. Beth Gibbons cantava em pubs. Adrian Utley tocava com Big John Patton e The Jazz Messengers. Quis o destino que se encontrassem. E ainda bem.

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Dummy e a vida depois dele

Os Portishead nasceram assim, como muitas outras bandas. Encontros fortuitos, coincidências. Devem o nome à cidade natal de Geoff Barrow e começaram por criar uma curta-metragem e não um álbum. Foi To Kill A Dead Man, uma homenagem aos filmes de espionagem dos anos 60, mais propriamente a sua banda-sonora, que levou a Go! Beat Records (da Universal Music Group) a querer assinar com a banda. No mesmo ano, criaram uma das obras-primas da música contemporânea, símbolo dos anos 90 – Dummy.

Lançado em 1994, Dummy alcançou um sucesso estrondoso na Europa e nos EUA, tornando-os num dos grupos emblemáticos daquela década, mas não foi imediato. Beth Gibbons não dava entrevistas (e continua a não o fazer) e o restante grupo caracterizava-se por serem extremamente tímidos perante os media, recusando entrevistas, o que lhes dava muito pouca visibilidade para além do meio musical mais próximo. Inteligentemente, e em conjunto com a editora, conseguiram criar uma estratégia promocional que lhes deu o merecido reconhecimento.

De Dummy saíram três singles, verdadeiros hinos do colectivo ainda nos dias que correm – “Numb”, “Glory Box” e “Sourtimes” – e o Mercury Music Prize, em 1995, onde ultrapassaram bandas como Blur, Oasis, Suede e Pulp. Foi com este primeiro registo que fizeram também a primeira digressão. O segundo álbum saiu três intensos anos depois, mais pensado, mais maduro. Portishead (1997) não teve o mesmo impacto do seu antecessor, mas manteve a fasquia muito alta. “Cowboys”, “Over” e “All Mine”, que ainda hoje fazem estremecer plateias, comprovam-no. Seguiu-se depois uma nova digressão, com passagem por Portugal, no Festival Sudoeste (a dar os seus primeiros passos) em 1998. Este é ainda o concerto da vida de muitos dos presentes. Pelo meio, deram um inesquecível concerto com a Orquestra New York Phillarmonic, em Roseland Ballroom, do qual foi lançado um álbum e uma VHS, no ano seguinte – Roseland NYC Live (1998). O DVD deste espectáculo saiu apenas em 2002, com diversos extras, inclusive a curta-metragem que lhes lançou a carreira.

Uma década de hiato

O fim da digressão representou o início de um hiato, que se demonstrou longo. Os quatro anos de carreira tinham sido muito intensos, com um sucesso inesperado logo no primeiro álbum. Ao regressarem, separaram-se. Beth Gibbons regressou ao seu refúgio no campo, em Devon. O casamento de Geoff Barrow terminou, assim como o de Adrian Utley. Resolveram então parar para se dedicarem a si mesmos e aos seus projectos pessoais.

Assim sendo, Geoff mudou-se para a Austrália onde iniciou uma pequena editora – a Invada Records –, produziu o álbum de estreia da americana Stephanie McKay e travou conhecimento com muitas pessoas que fazem música sem objectivos comerciais. Manteve também contacto com Adrian, que se ocupou na produção de bandas sonoras e em dando concertos com amigos. Os dois elementos masculinos dos Portishead chegaram mesmo a trabalhar juntos durante este período e em 2001 reuniram-se em Sidney durante sete semanas a trabalhar num estúdio, de onde dizem ter saído boas músicas, não sendo, no entanto, aquelas que queriam. Regressados à terra natal criaram uma editora rock e Adrian passou um ano a trabalhar intensamente com Beth, com um possível novo álbum em vista, que foi anunciado em 2005, num concerto de beneficência em que participaram, em Bristol, de apoio às vítimas do tsunami. De Beth Gibbons, que não dá entrevistas porque não quer que lhe perguntem sobre as letras das músicas, não se sabe nada a nível pessoal, mas a sua presença foi sendo marcada ao longo da década que durou o hiato da banda. Manteve-se musicalmente activa, tal como os restantes membros da banda: em 2002 lançou com Rustin Man, Out Of Season e em 2004 participou em Cinema de Rodrigo Leão, com quem deu um concerto o ano passado (2007) em Lisboa.

Third e o regresso acarinhado

Quando em Agosto de 2006 surgiram duas novas faixas na página da banda no MySpace, criou-se um reboliço: estavam de volta. Os Portishead só fazem música quando a sentem e nós esperámos dez rigorosos anos para que isso acontecesse. O fim do colectivo foi temido, mas não aconteceu. Depois de uma longa temporada em estúdio surge a noticia do novo álbum – Third será lançado no próximo dia 28 de Abril, mas a tournée começou antes dele. E foi com o primeiro single – “Machine Gun” – já bem presente nas nossas mentes que Portugal se preparou para acolher o primeiro concerto do saudoso colectivo. Third estreou-se em palco no Porto, e depois em Lisboa (dias 26 e 27 de Março, respectivamente). Dois coliseus esgotados e um público ansioso. O mesmo se repete um pouco por toda a Europa.

Os Portishead não inventaram o trip-hop. Nomes como Massive Attack, Tricky, Lamb, Moloko e Morcheeba, partilhavam essa origem, mas os Portishead foram mais além: popularizaram-no e trouxeram-lhe valor acrescentado, criando uma sonoridade soturna, atmosférica, marcada pelas letras fortes da intelectual Gibbons.

Foram dez longos anos, mas valeu a pena esperar. Sejam bem-vindos de volta.

Sílvia Dias

David Fonseca ao vivo no Coliseu dos Recreios

•13, Abril, 2008 • Deixe um comentário

O palco do Coliseu não é novo para David Fonseca, mas a noite de ontem soube a estreia. Pela primeira vez a solo, por ali se recordaram os sucessos passados e viveram-se intensamente os temas promissores de Dreams In Colour. Entre camas, bolas de espelhos e bolhas de sabão, bailarinos e mariachis, David Fonseca trouxe-nos aquilo a que ele chama “o seu mundo”.

:: 12 de Abril de 2008 

 

Os sonhos do músico que queria ser agente secreto

 
A noite começou cedo e à hora marcada. Com uma pontualidade rigorosa, Rita Redshoes, a nova menina dos olhos da crítica nacional, subiu ao palco para apresentar o seu estreante Golden Era, a um público menos conhecedor e entusiasmado do que se previa à partida. Menos não significa pouco, atenção, e ninguém ficou indiferente às já muito rodadas “Dream On Girl” e “Hey Tom”, alegremente interpretadas. Louva-se o esforço de Redshoes para interagir com um público imenso, nesta que é a sua primeira aventura em grandes palcos – como actriz principal –, mas as pausas entre temas iniciais pareceram alongar-se para além do desejável, quebrando um pouco o “calor” que a apresentação poderia ter proporcionado. O tempo tratará de limar as arestas. Na memória ficam os seus versos a entoar insistentemente e a promessa de um futuro promissor, a julgar pela recepção que tem tido.

Depois de um longo “intervalo”, apagam-se as luzes e quando o público esperava ver entrar David Fonseca, acendem-se os ecrãs para nos mostrar um vídeo, à boa maneira dos “webisódios” a que o músico já habituou os seus fãs. Em tom confessional, vemos David Fonseca naquilo que parecem ser os preparos para entrar em palco, leia-se a vestir-se, e estranhamos o poncho e chapéu mexicano que coloca por cima da sua habitual vestimenta. Quando todos se preparam para o ver entrar em palco em tais preparos, eis que surgem quatro verdadeiros mariachis! É a eles e à sua alegria esfusiante que fica entregue a abertura do concerto. O que vinha a seguir não deveria surpreender aqueles que já estão familiarizados com Dreams In Colour: David Fonseca e a banda do costume ocupam os seus lugares e dão-nos as boas vindas com “4th Chance”. Logo de seguida, surge “Our Hearts Will Beat As One”, eufórica como de costume, contagiou todo o público que começou a dançar logo desde início. Enquanto isso, iam caindo sorrateiramente lanternas do tecto, ficando suspensas sobre o público.

A explicação para estas pequenas “invasoras” surgiria no final do segundo tema, com David Fonseca a empunhar também uma lanterna. Era mais uma vez Tim Buckley em palco, através da sua “Song To The Siren” que abre caminho, arrepiado, para “Who Are U?”. Depois do single do segundo álbum veio o single do terceiro. “Superstars II” anda nos lábios de todos, em forma de assobio, e no Coliseu não foi excepção. Com o seu término o pano cai e vemos mais um “webisódio”. A fórmula viria a repetir-se, contribuindo para que o concerto se assemelhasse a uma produção teatral em que somos todos envolvidos, sem darmos conta.

A pausa é curta e “Silent Void” entra rapidamente em palco, com David Fonseca agarrado a um megafone que insistia em não funcionar convenientemente, rodando em cima de uma plataforma giratória. “Silent Void” é eléctrica, contagiante e a energia do músico multiplicou-se em cada um dos presentes no esgotado Coliseu dos Recreios, que responderam prontamente ao apelo vindo do palco. O momento seguinte foi de recobro. David Fonseca senta-se no cimo do piano e conversa um pouco, como já é seu hábito. Vai dedilhando a guitarra e dela arranca uma introdução a “Still Loving You” dos Scorpions, que serve de abertura à música “da senhora da limpeza”, “Kiss Me, Oh Kiss Me”. Este foi o ponto de partida para o momento intimista da noite, toda ela decorrente num patamar de euforia, quebrada pelas interrupções pontuais para os vídeos.

Foi uma trilogia. Depois de “Kiss Me, Oh Kiss Me”, aplaudimos uma vez mais a tal música que está na génese da carreira a solo do leiriense – “Someone That Cannot Love” –, com direito a coro em uníssono por parte do público, e houve mais uma vez espaço para ovações, desta feita à teclista Rita Pereira (Redshoes, na primeira parte do concerto), em “Hold Still”, com os protagonistas sentados de costas um para o outro. Não fosse a passagem por “Rocket Man (I Think It’s Going To Be A Long, Long Time)”, do britânico Elton John e o momento intimista ter-se-ia prolongado, com “Orange Tree” (nome provisório), que apesar de inédita, soa-nos muito familiar, logo seguida de “I See The World Through You” (introduzida pela “Space Oddity” de David Bowie).

O que se seguiu ultrapassou todas as barreiras do espectável, chegando quase a ultrapassar os limites do kitsch. A surpresa é inevitável. O pano negro caiu, separando David Fonseca da restante banda e foi assim, solitário, que o músico iniciou “This Raging Light”. De repente, o pano subiu e para além de uma quantas bolas de espelhos, tínhamos seis bailarinos em fatiotas de Lycra, ao melhor (pior?) estilo dos anos 80, a dançar em cima do piano e de colunas. O Coliseu uniu-se em gargalhadas e o olhar atónito é partilhado por muitos. Depois de um momento destes é necessária uma pausa, e David Fonseca aproveita para mais dois dedos de conversa, onde descobrimos que afinal sempre quis ser agente secreto, num momento de humor característico do músico. Dos tempos nessa profissão sobrou-lhe o telefone, que estava em palco desde o início da noite, que fez entrar pela sala a nostálgica “Video Kill The Radio Star”, intervalada pela igualmente electrizante, e talvez o seu maior hit, “The 80’s”. As estruturas do Coliseu estremeceram certamente.

“Adeus, Não Afastes Os Teus Olhos Dos Meus” encerrou a primeira parte do concerto e foi seguida de um já esperado encore (ou alguém acreditava que o concerto iria terminar por ali mesmo?). O medley pop que se seguiu é que fugiu a quaisquer expectativas, mas momentos previsíveis era algo que já tínhamos desistido de esperar daquela noite.

Depois de um desabafo acerca das pessoas e das suas histórias por detrás das músicas, principalmente dos grandes hits pop, facilmente cantarolados, David Fonseca brindou-nos com pequenas amostras de “Wannabe” das Spice Girls, “Toxic” da Britney Spears, “Man Eater” da Nelly Furtado, “Can’t Get You Out Of My Head” da Kylie Minogue e o mais recente “Umbrella” da Rihanna, que foi, de resto, o tema mais acompanhado pelo público. Tudo isto interpretado num tom triste e melancólico, muito diferente dos originais.

“Angel Song” chegou logo depois, trazendo de volta os Silence 4, a adolescência e toda a complexidade emocional que a acompanha. De uma ponta a outra, do primeiro ao último verso, o tema cantou-se tanto na audiência como no palco. Porque a música tem dessas coisas. Liberta-se do criador, torna-se também propriedade de quem a ouve, de quem a recebe e integra em si, como verdadeiramente sua.

Ia já a noite longa e ainda as surpresas não tinham acabado. O segundo e último encore surgiu com David Fonseca deitado numa cama, aparentemente de pijama. Soltavam-se bolhas de sabão pelo Coliseu, enquanto ouvíamos “Dreams In Colours”. O músico despediu-se, “Lisboa, está na minha hora”, e adormeceu. Depois de toda uma viagem pelo imaginário desperto de David Fonseca, tinha-nos sido dada permissão para entrar também no universo dos seus sonhos. Termina então o concerto, com um David Fonseca vestido de soldadinho de chumbo, acompanhado pela banda igualmente mascarada, cantando-nos “Together In Electric Dreams” de Philip Oakey e, mais uma surpresa, “A Little Respect” dos Erasure, num cover completamente diferente daquele que já ouvimos de David Fonseca em sonhos passados.

Foi um passo ambicioso e dado com a destreza de quem carrega já a experiência de uma década. David Fonseca habituou-nos à surpresa e nesta noite ultrapassou tudo o que poderia ser previsto. Não se poderia esperar uma simples apresentação de “Dreams In Colour”, que de resto já tem vindo a ser feita, mas não nos era possível prever que estaríamos perante uma noite com tamanhos requintes de teatralidade. Há que arriscar e o saldo foi positivo.

 
Alinhamento:
4th Chance
Our Hearts Will Beat As One
Song To The Siren/ Who Are U?
Superstars II
Silent Void
Still Loving You/ Kiss Me, Oh Kiss Me
Someone That Cannot Love
Hold Still
Rocket Man (I Think It’s Going To Be A Long, Long Time)
Orange Tree (provisório)
Space Oddity/ I See The World Through You
This Raging Light
Video Kill The Radio Star/ The 80’s
Adeus, Não Afastes Os Teus Olhos Dos Meus
encore:
Wannabe/ Toxic/ Man Eater/ Can’t Get You Out Of My Head/ Umbrella
Angel Song
All Day And All Of The Night
encore:
Dreams In Colour
Together In Electric Dreams
A Little Respect

texto: Sílvia Dias
fotos: Gonçalo Sítima

The Hives ao vivo no Coliseu dos Recreios

•10, Abril, 2008 • Deixe um comentário

Fosse só pelo guarda-roupa e os The Hives já tinham a noite ganha mas, felizmente, os suecos são muito mais que isso e provaram-no ontem à noite, numa performance imparável, que contagiou desde o primeiro minuto o público que recheava metade do Coliseu dos Recreios.

:: 9 de Abril de 2008

 

Pela primeira vez em Portugal numa sala fechada (facto repetido várias vezes pelo vocalista Pelle Amqvist), a banda sueca veio apresentar o mais recente The Black And White Album, do ano passado, e durante uma hora e meia provou porque não devem ser metidos no mesmo saco que maior parte das bandas que nos últimos anos decidiram recuperar o garage rock. É verdade que a fórmula dos The Hives pouco ou nada se altera de canção para canção, mas quando se vê um concerto deles tem-se a noção que não é realmente isso que está em conta. Os suecos são uma banda de palco, com uma noção muito apurada de espectáculo de entretenimento, servindo as suas canções para divertir o público ao máximo e foi exactamente isso que aconteceu.

Iluminados pelo seu próprio nome num sistema de luzes em muito semelhante ao que Elvis Presley utilizou na sua fase áurea, todo o espectáculo se concentra praticamente na postura que o frontman da banda adopta em cima do palco. Pelle Amqvist tem sangue de um adolescente de 15 anos a correr-lhe nas veias, não parando um segundo, interagindo, sempre que pode, com o público com o seu humor algo egocêntrico, conseguindo a determinada altura fazer com que o público diga que os The Hives são os seus únicos deuses.

Canções como “Try It Again”, “It Won’t Be Long” ou “Tick Tick Boom”, todas do último disco do grupo, fizeram as delícias dos muitos adolescentes presentes no recinto, que nunca se cansaram em demonstrar a sua adoração à banda, com recorrentes crowdsurfings nas primeiras filas. Mas foram sucessos como “Walk Idiot Walk” ou “Hate I Told You So” que provocaram um maior alvoroço, sendo que todas estas canções foram o perfeito exemplo de como a urgência do punk/pop da banda contamina o seu público.

A missão dos The Hives é entreter e animar os seus fãs, com canções eléctricas e dançáveis, mesmo que não tragam nada de novo ao panorama musical, mas no final de contas o que interessa é que a missão foi mais que cumprida.

João Moço

Why? – Alopecia

•7, Abril, 2008 • Deixe um comentário

Why? começou a ser conhecido por um projecto paralelo de Yoni Wolf, fundador da Anticon, editora de hip hop underground mutante, e também por ser membro dos, entretanto extintos, cLOUDDEAD. Ao segundo álbum o projecto amealhou mais três membros: Josiah Wolf, na bateria, Doug McDiarmid, multi-instrumentista, e Matt Meldon, na guitarrra.

Agora, chegado o terceiro álbum, as estruturas do hip hop continuam presentes, sendo a partir delas que estes quatro músicos vão limando linguagens sonoras como a folk, rock e indie pop.

Alopecia é um disco de histórias pesadas, extremamente intimas de quem as canta e conta e, à medida que o disco se vai desenrolando, essas mesmas histórias passam a tornar-se bastante pessoais ao próprio ouvinte.

A embrulhar estas histórias de caos e desilusão profunda ouve-se uma confusão sonora perfeita. Paradoxo? Certamente mas, tal como já nos tínhamos apercebido noutros registos, é quando a hibridez musical domina, quando vários registos sonoros se fundem em estruturas complexamente melodiosas e, ainda assim, conseguem criar canções pop, é assim que a música evolui de forma criativa.

“The Hollows” é, muito provavelmente, o momento alto de todo o disco. Guitarra e bombo a marcarem um ritmo em suspense, enquanto que a determinada altura entram pianos e teclados vintage, até que o piano corre durante poucos segundos a alta velocidade, pensando o ouvinte que vai atingir ali o clímax, quando este ainda está para vir. Por trás de tudo isto coros femininos coros femininos como se fossem as Ronettes do Phil Spector, embrenhadas em nevoeiro.

Um excelente disco pop também pode ser isto: um conjunto de canções com melodias sinuosas, onde violinos, guitarras, xilofones, pianos, bateria se junta para atraiçoarem o ouvinte e este maravilhar-se com uma forma de criar canções pop insana e formosa.

8/10 | João Moço

Benga – Diary Of An Afro Warrior

•5, Abril, 2008 • Deixe um comentário

Benga, 21 anos, natural de Londres. Há oito anos que começou a produzir uma música que mais tarde viriam a dar o nome de dubstep e que, de há dois anos para cá, tem merecido reconhecimento por parte da imprensa e público mainstream. Não, não é um erro, foi mesmo aos treze anos que Beni Adejumo começou a criar uma música onde a força primordial se focava nos sub-graves, juntando-se-lhe a herança do drum’n’bass e toda a cultura de música de dança britânica, que vai beber muito ao dub jamaicano.

Nesta altura fazia-se acompanhar de Skream (nome que, juntamente com Burial e Kode 9, levaram o dubstep ao mainstream em 2006) e Digital Mystikz (dupla conhecida do dubstep para os admiradores do género) e foi com artistas como estes que foi produzindo algumas edições pela sua própria editora, Benga Beats. Em 2006 chega a editar um primeiro álbum em nome próprio, Newstep, mas que na verdade era um apanhado de temas que o músico tinha editado até ai, chegando então só este ano o seu verdadeiro primeiro álbum, Diary of an Afro Warrior, pela Tempa, uma das editoras que mais tem contribuído para o desenvolvimento e propagação do dubstep.

Diary of an Afro Warrior mostra um Benga multifacetado, que conhece o dubstep como ninguém, mas que sabe diversificar o ambiente sonoro ao longo das catorze faixas que preenchem o registo. Antes do disco ter sido lançado saiu o single “Night” (que entrou no Top 100 dos mais vendidos no Reino Unido) e que se tornou num sucesso instantâneo, muito graças ao sintetizador aquático com uma melodia bastante catchy.

Como já foi referido, a diversidade é uma marca deste disco e, felizmente, a diversidade não trouxe consigo a desordem, provando uma vez mais como o dubstep consegue ser maleável, avançar no tempo, representado ao mesmo tempo fielmente a identidade pessoal do artista. Em “Zero M2” e “B4 the Dual” o dubstep alia-se a conjuntos de sopro jazz, a influência do dub jamaicano marca uma forte presença em “Crunked Up”, enquanto que o techno alienado casa na perfeição com os baixos pesados do dubstep em “E-trips”.

Diary of an Afro Warrior é um disco de ambientes soturnos, onde o som do baixo grave, quase cavernoso, obriga-nos sempre a inserirmo-nos numa cave bafienta, ao mesmo tempo que o cérebro e o coração andam à mil à hora completamente desordenados, tal como as linhas musicais díspares que Benga vai inserindo na sua música. O “novo” guerreiro do dubstep depois de Burial, Skream e Kode 9.

8/10 | João Moço

Kasabian – Empire

•5, Abril, 2008 • Deixe um comentário

O segundo álbum é um momento definitivo na vida de uma banda, permitindo destrinçar entre as bandas que vieram para ficar e as que cairão no esquecimento. Há por isso sempre uma atmosfera de nervosismo e de querer ir mais além, o que por muitas vezes leva ao fracasso. Tem de haver um grande equilíbrio no segundo álbum: por um lado, a banda não se pode afastar excessivamente do seu estilo original, sob pena de marginalizar as pessoas que já ouviam a sua música e que gostavam dela; mas por outro lado, não se pode também limitar a fazer mais do mesmo, a apresentar uma nova versão do primeiro álbum, sob pena de serem catalogados como uma banda monótona e criativamente limitada.

Perante um cenário tão periclitante e que muito facilmente pode resultar num flop, os Kasabian conseguiram o que parecia ser muito difícil, superando a qualidade de Kasabian. Empire é mais consistente, mais versátil, mais trabalhado, um álbum de uma banda genuinamente diferente e que não precisa de se pôr em bicos dos pés para se distinguir dos outros. O single de lançamento, “Empire”, é exactamente aquilo que deveria ser: uma música dinâmica, energética e dura, que se aproxima do ouvinte como um helicóptero prestes a pousar, que levanta em seu redor uma enorme poeira. Há uma profusão de sensações, uma sobrecarga sonora que nunca se torna confusa, graças a uma produção cuidada e muito equilibrada.

Mas Empire não se fica por aí e “Shoot the Runner”, crua e máscula, mantém a fasquia alta. A soberba com que se diz “I’m a King and she’s my Queen” é perfeitamente corroborada pelo som, deixando no ar uma grande carga instintiva, uma sede de viver. A mesma sede que se encontra em “Me Plus One”, um desejo desesperado de amar e ser amado, sempre com um cheirinho hippie no ar.

“Sun-Rise-Light-Flies” afasta-se do carnal e centra-se mais no metafísico. O sentimento de transcendência é inegável. Há no ar uma aura a misticismo, uma celebração da vida a que o coro e violinos só vêm acrescentar uma carga épica. Num plano oposto “By My Side” é sobretudo um convite à manifestação, um alerta para as manipulações que as pessoas muitas vezes são alvo, em nome de valores religiosos que não são mais do que um disfarce. E assim se diz: ”No retaliation said the poet to his kin / Separate the idols and commit your deadly sin / Love is put aside while you finish what you start / I collect the numbers, you protect my heart”.

Se as músicas referidas já são motivo de deleite e por si só chegariam para fazer um álbum fantástico, os Kasabian ainda oferecem “Stuntman” e “Doberman”, para que não restem nenhumas dúvidas sobre a excelência de Empire. “Stuntman” envereda por terrenos mais electrónicos, mas dando sempre grande destaque à bateria rude, e assim a música vai crescendo de intensidade até ao clímax no refrão. “Doberman” é o momento decisivo, o grito de revolta por excelência. “They never had no future / They never had no past” são as palavras de ordem de uma geração desencantada, sem valores, sem projectos. E porque o que interessa é a mensagem e a melodia, pouco mais se usa do que a guitarra e a bateria.

Empire é o álbum de confirmação de uma das melhores bandas no panorama actual. Os Kasabian não copiam ninguém, não são parecidos com ninguém. Simplesmente aproveitam bem as suas influências dos anos 70 e, fazendo uso das potencialidades tecnológicas, dão-lhes uma roupagem moderna, com arranjos electrónicos subtis mas muito eficazes.

9/10 | João Oliveira