A Perfect Circle – Thirteenth Step
Após algumas modificações na formação inicial da banda, chegou ao mercado em 2003 o já muito aguardado segundo disco dos norte-americanos A Perfect Circle, intitulado Thirteenth Step.
Ouvir este álbum atentamente é reconhecer a genialidade dos membros que compõem este círculo. Este não é apenas um segundo álbum de uma banda com pouco mais de quatro anos, é um álbum feito por músicos experientes que encontraram um ponto de concordância e coesão entre si que se evidencia em cada música e no álbum como um todo coerente e sólido.
Billy Howerdel e Maynard James Keenan (Tool) são o cérebro e alma por de trás da música, são o centro e a circunferência. Apesar da saída de Paz Lenchantin e de Troy van Leeuwen (Queens Of The Stone Age), os A Perfect Circle conseguiram manter-se na direcção pretendida e obtiveram a ajuda de Danny Lohner (Nine Inch Nails) que terminou as linhas de guitarra deixadas Troy van Leeuwen em estúdio, de Jeordie White (conhecido como Twiggy Ramirez, ex-Marylin Manson) que integrou a banda como baixista e, mais tarde, de James Iha (ex-Smashing Pumpkins) que entrou para o lugar de segundo guitarista do grupo. De destacar ainda a exímia performance de Josh Freese, baterista que faz parte da formação inicial dos A Perfect Circle, que demonstra neste álbum o porquê de ser considerado um dos melhores bateristas dentro do género com participações em dezenas de projectos, incluindo o seu trabalho a solo.
Prossigamos, passo a passo.
Beleza e fragilidade caminham lado a lado. Uma voz rasga o silêncio e transporta-nos para o universo da dependência, da luta contra o hábito enraizado. Para escrever as letras de Thirteenth Step, Maynard James Keenan inspirou-se nas experiências de alguns amigos que lutaram contra a toxicodependência e que passaram pela fase de reabilitação. O processo criativo durou seis meses. O resultado: um ambiente dominado por emoções contraditórias que podem variar entre a dor profunda e a euforia delirante.
Maynard James Keenan apresenta um registo que pode ser doce e harmonioso, ou uma explosão de raiva. “The Package”, a faixa de abertura, é um despertar que se adivinha violento e se revela como tal. É possessiva, é suja e até psicótica nas suas “variações de humor”. O perfeito início para uma reabilitação ou para o sucumbir completo e irreversível. Diferentes ângulos acerca deste mesmo tema são-nos oferecidos e a metáfora está sempre presente. É disso que trata “Weak and Powerless”, o primeiro single extraído do álbum. “Devil has my ear today. I´ll never hear a word you say”. No ar fica um pouco da magia que caracteriza a banda. O mote é claro. Sentir primeiro. Pensar depois.
“Blue”, uma das músicas que mais se entranha pela sua melódica fluidez, aborda o ponto de vista de quem presencia o gradual desaparecer de alguém que lhes é próximo, mas que recusa aceitá-lo. “She’s turning blue. Such a perfect color for you. (…) I don’t want to know”. A negação de quem “ama”. Um álbum que se revela tão ambiental como ruidoso na sua presença.
O desempenho vocal de Maynard é aquilo que já se esperava: perfeito. Esta é a plataforma ideal para libertar a sua amplitude vocal, a sua infalível melodia orgânica e capacidade de criar as atmosferas penetrantes dentro do rock contemporâneo. De destacar ainda a participação de Jarboe (ex-Swans) em “Lullaby”, no peso e agressividade das guitarras em “Pet” e na reinterpretação da tema dos Failure “The Nurse Who Loved Me”.
Thirteenth Step termina com “Gravity”, aquela que arriscamos a eleger como a melhor música do álbum. Estes cinco minutos finais são um deambular límpido e sereno pela rendição e entrega. É reconhecer as feridas que não só sangram, mas também saram. “I choose to live” encerra o décimo segundo passo e inicia o décimo terceiro. Um movimento contínuo. Quer se encontre luz ou penumbra, este é catártico. No fim, fica a exploração conceptual do lado mais obscuro e imperfeito da mente humana, da sua fragilidade e contradições. “Time to feed the monster”.
8/10 | Carla Reis e Gonçalo Sítima

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