Blind Zero – A Way To Bleed Your Lover
Desde 1995, os Blind Zero mudaram muito. Trigger (1995) era uma tentativa assumida de imitar os Pearl Jam. Miguel Guedes, o vocalista, era o expoente máximo desta faceta da banda, com a sua voz e pronúncia inglesa de qualidade duvidosa. A música da banda até soava muito bem mas não havia quase nada de novo. Enfim, nada que não aconteça com o resto da música internacional. Redcoast (1997), o segundo álbum da banda fez subir a parada e temas como “Tree” e “Trace” parecem ter agradado a bastantes pessoas. No seu terceiro álbum, os Blind Zero apresentam um conjunto de canções interessantes interpretadas de forma interessante. Foi-se a mera imitação.
Em 2003, surge o melhor álbum da banda portuense: A way to bleed your lover, um álbum sombrio e, a um nível mais prático, um passo de gigante na evolução dos Blind Zero. São poucas as faixas realmente barulhentas. Os arranjos, por outro lado, são brilhantes e sóbrios, dando outra profundidade às composições. As guitarras de Marco Nunes e de Vasco Espinheira estão mais calmas e cuidadas, a voz de Guedes perdeu todos os tiques do início de carreira e o sotaque melhorou substantivamente.
A way to bleed your lover é um daqueles álbuns que se ouve para dentro. É introspectivo e psicótico. O suicídio é tema recorrente e a calma aparente do disco revela-se bastante perturbadora à medida que vamos mergulhando mais fundo. “No Way, Jose!” e “About Now” fazem sentido nesta lógica distorcida de solução fácil e de construção terrivelmente complexa. Saxofone e guitarras quase chocam num encontro cacofónico entre sopro e cordas em “No Way, Jose!” para, lá mais para o fim, se mostrarem munidos de um rasgo estupidificante e estranhamente bonito em “Flower Lab”. Logo a seguir, entram de novo em confronto em “Heartbreak Motel”. A way to bleed your lover parece viver de um equilíbrio instável que teima em não desaparecer.
Os singles tiveram um papel importante na promoção do álbum que, pela sua qualidade, merecia mais destaque no panorama musical português. “You Owe Us Blood” é um dos temas mais fortes do álbum e, tal como “Toxic” (a melhor música do LP), “Return To Sender” ou até “Nothing Else Goes On”, emana uma energia cheia de tensão que vicia e nos torna apáticos, ressacados de determinados acordes que se ouvem. O segundo single foi “The Down Set is Tonight”, uma das faixas mais calmas de A way to bleed your lover. A canção conta com a participação de Jorge Palma que consegue fazer com Miguel Guedes um dueto bastante bem conseguido. Quanto ao último single, “Bizarma”, quase não se ouviu nas rádios. É, de facto, a mais discreta das três canções escolhidas mas, ainda assim, tem o selo de qualidade que A way to bleed your lover confere aos 14 temas presentes no álbum.
E este selo de qualidade é fruto de um trabalho brilhante dos Blind Zero que, por não serem mais do que portugueses, têm estado numa espécie de purgatório da consagração musical em Portugal, um país demasiado pequeno para a qualidade que a banda apresenta.
9/10 | Filipe Marques


Deixe uma Resposta