Ani DiFranco – Reprieve
Angela Marie DiFranco, mais conhecida por Ani DiFranco, é uma cantora folk originária de Buffalo (Nova Iorque) que se destacou na década de 90 com o seu trabalho de cantautora. Lança o seu primeiro trabalho homónimo em 1990, aos 19 anos. A sua sonoridade acústica surpreendente trata de arranjar um lugar que se vai tornar claramente sólido ao longo dos anos: Ani veio para ficar e é exímia no que se predispõe a fazer.
Ani, como a cantora gosta de ser chamada, conta já com uma carreira de 17 anos, tendo lançado até agora o número equivalente de álbuns. Reprieve é assim o 18º. Uma carreira muito pouco monótona, diga-se. Seja pela sua intensa actividade enquanto cantautora ou também pela mais que comprovada evolução enquanto artista revolucionária. Posto isto, há que fazer a distinta referência de que Ani preza muito o movimento feminista em todas as suas abordagens e isso é mais que visível ao longo da sua carreira. Fundou a sua própria editora, a Righteous Babe, que também está a encarregue do trabalho de outros cantores como Andrew Bird.
Quase todos os seus trabalhos acabam por tocar em questões delicadas e, por vezes, de forma acutilante. Há a manifesta preocupação de que se abordem questões sociais, políticas e afins. Ani tenta que através das suas músicas e letras se possa reflectir sobre a sociedade dita fundamentalista em todos os parâmetros discriminatórios.
DiFranco e o seu trabalho podem mesmo ser adjectivados como uma calma revolução em crescimento. Em Reprieve, a calma revolução evolui para estado de ebulição.
Ainda que, ao primeiro contacto, este trabalho aparente não ser mais magnífico e apelativo do que Dilate (1996) e Carnegie Hall (2006), a verdade deste trabalho não é de fácil acesso. É, sim, quase como um convite para ser descoberto devagar e para ser compreendido, sobretudo. Reprieve reserva-nos sentimentos de desilusão, de não pertença e de raiva sempre acompanhados por uma crítica à sociedade patriarcal elaborada e mordaz que nos vai hipnotizando. Talvez não seja por acaso que a primeira faixa do álbum tenha o nome de “Hypnotized”. “Millenium Theater” é também uma das faixas que não poderá passar ao lado. Há momentos que nos reportam para aqueles ambientes de jazz e que rapidamente se esfumam dando lugar à melódica voz que nos conta uma história.
Para se compreender a verdade deste álbum tem de se o situar nas circunstâncias em que foi criado e por isso fortemente influenciado: o furacão Katrina. DiFranco, expressa a sua frustração através de faixas como “Subconscious” e na letra em passagens como: ”I know where I’m going but ain’t where I’ve been.” Apontar as melhores faixas não seria muito justo. As que se destacam mais, além das já referidas são: “Decree”, “A Spade” e a homónima do álbum, “Reprieve”.
É um álbum precioso de simbolismo e de introspecção. DiFranco é uma das melhores a aliar de forma crescente, inteligente e invariavelmente pura a sua música a temas corrosivos. E contudo, ainda consegue um equilíbrio.
Poder-se-ia escrever páginas a fio a dissecar-se este álbum mas, para além de se correr o risco de se ficar sempre aquém do que este trabalho merece, cabe também a cada um descobrir a verdade que o completa.
É um dos melhores, a par de Not A Pretty Girl, e o título Reprieve é muito mais que perfeito.
9/10 | Maria Rocha

Deixe uma Resposta