Festival Naked no Santiago Alquimista
Um Santiago Alquimista a meio gás recebeu mais ou menos calorosamente cinco bandas do catálogo da editora/distribuidora Naked – Nicole Eitner, Norton, Mazgani, Sizo e Linda Martini. A afluência reduzida a uma sexta-feira (santa) resultou num ambiente relativamente íntimo e proporcionou cinco concertos descomprometidos e interessantes.
:: 6 de Abril de 2007
O atraso característico deste tipo de eventos ditou que a primeira actuação começasse bem depois da hora anunciada. E como mandam as regras da etiqueta, as senhoras primeiro. Coube a Nicole Eitner a abertura do festival. Desconhecida provavelmente da grande maioria dos presentes, Nicole apresentou-se primeiro ao piano e depois numa postura de femme fatale descontraída, acompanhada no contrabaixo por Zeca Neves e no violino por Viviena Toupikova. A música é claramente influenciada não só pelo jazz, mas por muito do que se fez na sumarenta década de 80, tendo havido espaço até para uma versão deveras interessante de “You spin me round (like a record)” dos Dead Or Alive.
Do registo melodioso e harmonioso da intérprete ficam para relembrar temas como “Poem to the sea” e “Energy vampires”, esta última seguramente o melhor tema apresentado por Nicole Eitner em toda a actuação, com ligeiros laivos de folk e a despertar inevitavelmente os sorrisos dos presentes. Um início bastante positivo e surpreendente, que exigia que a trajectória da noite fosse decididamente ascendente.
Seguiram-se os Norton, que traziam consigo o seu mais recente trabalho – Kersche. A introdução do concerto da banda foi extremamente apelativa, com todos os membros em redor do que vulgarmente é considerado “maquinaria”. Débito electrónico que nos deixou simplesmente a observar, enquanto o corpo era inevitavelmente sacudido pelo som. Posta esta introdução surpreendente de lado, a verdade é que os Norton não têm uma presença forte e/ou carismática em palco. São relativamente estáticos e a música, ainda que sólida e bem estruturada, soa por vezes a repetição. Foi por esta razão que muito pouco se destacou durante o concerto da banda de Castelo Branco. Salvaram-se com “Frames of yourself” e com o final que se aproximava do apoteótico de “Would you like to be there?”. Merecerão de certo uma segunda oportunidade.
Falando em carisma, esta é uma palavra que assenta gentilmente em Shahryar Mazgani. Não é à toa que a banda recebe o seu nome. Na verdade, os Mazgani valem muito pela postura do seu vocalista e guitarrista. “Thirst”, a introdução em jeito spoken word apocalíptica conquistou quem não os conhecia, não necessariamente para gostar deles, mas pelo menos para lhes conceder atenção durante os minutos que se seguiram. E valeu a pena. Os blues arrojados e a voz arrastada de Shahryar, a roçar intérpretes míticos como Tom Waits ou Nick Cave proporcionaram um concerto pleno de temas interessantes como “Unageing games”, “Bring your love” e “Let your lips”. Foi decerto com justiça que os Mazgani foram considerados uma das vinte melhores bandas revelação no ano de 2006 pela revista francesa Les Inrockuptibles. O concerto no Santiago Alquimista mostrou uma banda bem-humorada e com qualidade, requisitos que tornam um bom concerto num concerto melhor.
O palco foi entretanto deixado livre para os Sizo, do Porto, que davam o seu primeiro concerto em Lisboa. Os Sizo têm uma postura exagerada, e o vocalista João Guedes tem uma necessidade de contacto com o público algo estranha, por ser demasiado próxima. Foram diversas as incursões pelo meio dos presentes, que me fez lembrar particularmente Paulo Furtado (Wraygunn, The Legendary Tiger Man), mas sem o charme e carisma que é característico deste último. Musicalmente falando, os Sizo até são uma banda interessante, alternando rock alternativo com um misto de noise. “L’amour a trois”, provavelmente um dos temas mais interessantes que a banda apresentou, foi deixado para o fim, numa altura em que João Guedes estava já claramente exausto, o que prejudicou a execução da música. Foi o maior senão dos Sizo. Uma erupção incontrolável de energia, que se torna bastante engraçada de assistir, mas que ataca ferozmente a música do colectivo.
Os Linda Martini eram, sem margem para dúvidas, não só a banda mais conhecida, como a mais aguardada das cinco apresentadas durante toda a noite. A encerrar o festival, a banda apresentou-se para mais um concerto que serviu de promoção para Olhos de Mongol. Curiosamente, foi “Efémera” – um dos temas que não foi incluído no trabalho – que fez as honras e abriu o concerto do quinteto, que foi mais curto do que se poderia prever. A actuação dos Linda Martini não foi inesperada ou inovadora, apenas mais um concerto como os que a banda nos tem já habituado. De fora não ficaram a incontornável “Amor combate” (que já se tornou praticamente num hino) e desta feita a banda incluiu também “Lição de voo nº. 1”. Julgava-se que “A severa (ver de perto)”, num final catártico (ou catastrófico?) encerrasse a actuação da banda, mas num encore já aguardado, os Linda Martini tocaram “Este mar” encerrando assim o festival da Naked de um modo algo melancólico, passava já das três da manhã.
Em jeito de conclusão, o festival da Naked foi mais um modo de dar a conhecer do que apreciar o que já se conhecia. A diversidade musical imperou pela noite fora e louvam-se eventos deste tipo. Uma repetição?
Texto: Susana Jaulino
Fotos: Gonçalo Sítima

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