José González – In Our Nature
Apesar de ter surgido de forma tímida fora do seu país de origem, o sueco José González conseguiu afirmar-se internacionalmente. Reduzir o seu sucesso a um anúncio de televisão seria injusto e Veneer (2003), o seu álbum de estreia, foi uma obra repleta de beleza, sinceridade e aconchego. Depois de quase quatro anos a cantar as mesmas canções, In Our Nature aparece para saciar todos aqueles que se renderam aos acordes acústicos de González. E já não era sem tempo.
In Our Nature é uma exploração e aprofundamento do estilo lo-fi, intimista e discreto revelado em Veneer. Controlando com perícia as seis cordas da guitarra, José González compõe pequenas canções de pop-folk com um intenso sabor a bossa nova. São tão minimalistas que parecem estar a ser tocadas ao nosso lado. Impossibilitados de escapar aos pormenores, ouvimos um bater do pé, de umas palmas ou um dedilhar que faz ranger as cordas. Ouvimos um músico em confissão.
Com uma essência lírica mais pesada que o seu antecessor, In Our Nature centra-se nalguns aspectos mais sombrios da natureza humana. O álbum abre, aliás, com o tom grave de “How Low” que se faz sentir quer nas harmonias, quer nas palavras: “How low are you willing to go before you reach all your selfish goals?”. A letra de “Killing For Love” poderá não ser tão inventiva ou elaborada quanto se exigia, mas o talento de composição de José González não permite que esta comprometa a canção no seu todo.
“Down The Line”, o primeiro single do disco, entrega-nos a voz de González com mais vida, claramente alimentada pelos acordes mais abertos e soltos. “In Our Nature”, que flúi através do ondular brasileiro da bossa nova, e “Time To Send Someone Away”, igualmente mexida, são momentos cruciais. Curiosamente, a cover de “Teardrop”, um clássico grandioso dos Massive Attack, assume neste disco um papel menor. González consegue fazer emergir uma nova vida em temas de outros músicos, como o comprovam “Heartbeats”, “Love Will Tear Us Apart” ou “Hand On Your Heart”. Porém, “Teardrop” não se destaca verdadeiramente das faixas que a rodeiam, como “Heartbeats” fez em Veneer. E, talvez, este seja o maior elogio que se possa fazer a José González, enquanto artesão de canções.
O bocejo que faz arrancar “The Nest”, aquela que é porventura a canção mais suave em In Our Nature, não é suficiente para afastar a sombra circunspecta que se instala no desenrolar do disco, e “Fold” atesta-o. Em absoluta rendição, “Cycling Trivialities” termina o álbum de forma prolongada, numa sucessão de melodias cíclicas. Sem se dar conta, a guitarra confidente e imperfeita faz ressoar os seus últimos acordes, as suas últimas palavras, e silencia-se.
In Our Nature é um regresso esperado e seguro, como o de um amigo viajante. Depois de se dar a conhecer, é fácil voltar a abraçar a música de José González. Com In Our Nature, o cantautor refinou as suas canções de simplicidade folk para nos recordar que, mesmo numa época em que o electrónico e o digital compõem um paradigma em expansão descontrolada, ainda podemos confiar na honestidade de uma voz humana acompanhada por uma “mera” guitarra acústica.
8/10 | Gonçalo Sítima
