Marketing & B-sides

O exemplo dos Toranja

Lançar singles em CD não é habitual nas bandas portuguesas. Talvez por não terem mercado suficiente ou devido às despesas que envolve. Para uma coisa com tão poucas músicas, talvez não valha a pena. Pode não ser bem assim. Os b-sides são, por norma, músicas que não foram incluídas no álbum em cujas sessões de gravação estiveram envolvidas ou, eventualmente, algumas versões ao vivo. A sua inclusão nos CD single é quase uma oferta aos fãs e, ao mesmo tempo, uma boa estratégia de marketing. Os b-sides ganham, não raras vezes, estatuto especial na carreira de algumas bandas. Não em Portugal.

Os Toranja lançaram há dias o seu segundo álbum de originais e têm encontrado formas interessantes de promover o disco. Uma destas formas foi lançar o CD single de “Laços”, que é oferecido nos concertos acústicos que os Toranja têm realizado no âmbito da digressão de promoção a Segundo, o novo álbum da banda.

Quanto aos b-sides existentes no single, nenhum deles é recente. Alguns deles foram editados anteriormente em compilações mas ninguém as compra. “Fome” é, muito provavelmente, uma das melhores músicas dos Toranja. Foi a primeira, em 2001, a tornar-se conhecida do grande público, numa compilação da Optimus. Ao tomarmos contacto com “Fome”, compreendemos porque é que, dois anos depois, a banda lançou Esquissos (2003). Surge como crítica a uma apatia social, com uma letra interessante e cuidada, mas estranha. Demorámos pouco a perceber que são assim as letras de Tiago Bettencourt, o vocalista da banda. E pronto.

“Toma a tua bola de Football” é quase inocente. Mais uma vez, nota-se alguma crítica social, desta vez misturada com uma espécie de mensagem animadora. É “verde” como o Cesário, simples e linear e, por outro lado, um desempenho muito interessante e cheio de bom rock. E a letra tem uma lógica fácil. Não estivéssemos nós a falar de futebol. Esta canção também está presente na compilação do Mundial 2002.

Finalmente, “O Teu Mundo (ao vivo)” é um daqueles casos (não tão raros quanto se possa pensar) de músicas que estiveram disponíveis na Internet em mp3 de fraca qualidade, cheio de ruídos típicos de um concerto. Esta versão ao vivo fala de amor. De uma forma interessante, diga-se. Só a voz e a guitarra acústica de Tiago Bettencourt, alternando o tempo e a energia. Tiago toca com força e parte uma corda. “Parto sempre uma corda nesta música, pá! É muita chato.”, diz o vocalista depois de terminar a actuação. Mas “O Teu Mundo” é sobretudo uma canção cujo mote é simples: “Ainda me fazes pensar / Quase achar que te amo / Quase achar que o destino se enganou no caminho”. Está, finalmente, disponível numa versão com qualidade, no CD single de “Laços” .

Esperemos que esta seja uma demonstração de vontade tanto como é uma boa estratégia de marketing. Pode não ser um sucesso financeiro. É verdade, não é. Mas é um bom presente para quem consome tudo sobre as bandas que segue. Os exemplos não mentem: Radiohead, Depeche Mode, Coldplay, entre outros.

Para além disto, é um bom apelo à compra de música portuguesa. É muito bonito dizer que os downloads ilegais de música estão a destruir a indústria discográfica em Portugal. Talvez se possa pensar que, quando se lança um álbum cujo único apelo é a música em si, é complicado, nas circunstâncias actuais, fazer com que esse disco seja rentável. Neste tipo de situações, vale a pena apostar em coisas como a embalagem, o artwork (como o álbum Nus (2004) dos Mão Morta), CD ou DVD de bónus (O Concerto Acústico de Rui Veloso ou A way to bleed your lover dos Blind Zero) ou, como acontece com o último lançamento dos Toranja, músicas em telenovelas (a fórmula parece ter resultado com “A Carta”, apesar de ter atingido um nível exagerado e cansativo), concertos a €2.5 e b-sides oferecidos.

Bem, uma coisa é certa. Em Portugal, não há banda que sobreviva sem vender. Na luta contra este fenómeno, o marketing assume um papel fundamental nas estratégias das editoras e das bandas. Talvez até mais do que a “caça às bruxas” que algumas editoras tentam promover.

Filipe Marques

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~ por hiddentrack.net em 13, Maio, 2005.

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