Antídoto – Moonspell & José Luis Peixoto

INTRODUÇÃO

A música dos Moonspell aliou-se às emoções da literatura, através da escrita de José Luís Peixoto – uma prova de que as fronteiras que distinguem diferentes formas de arte são muito ténues e podem dissipar-se. Em 2003 foi lançada uma edição especial do álbum The Antidote, acompanhado pelo livro que lhe deu a sua história… Vários contos que reflectem o lado mais obscuro do ser humano, o medo que cresce e se apodera de cada um de nós, reduzindo-nos a cinzas. “Depois das nuvens, no último lugar do mundo, ficamos aonde não chegam as vozes. Os nossos olhares estendem-se aos cantos mais esquecidos das casas, ao fundo do mar, aos lugares que só os cegos vêem, às rochas cobertas por folhas na floresta, às ruas de todas as cidades. Os nossos olhares tocam os lugares iluminados e tocam os lugares negros. Ninguém e nada nos pode fugir. À noite, estendemos os braços para entregar uma bala, ou um frasco de veneno, ou uma lâmina, ou uma corda. À noite, tocamos em rostos. E sorrimos”. (Antídoto)

CAPÍTULO UM – Uma luz negra que incide sobre a música

Tudo gira em torno de sons, palavras e emoções. Uma união entre a magia da poesia e o sentimento da música. Pode dizer-se que a discografia dos Moonspell reúne uma carga gélida (que muitos associam a bandas do Norte da Europa), intensa e sombria que nos fala ao ouvido. Oscila algures entre um universo de pesadelo, sedução rítmica e misticismo. Com uma longa carreira, os Moonspell lançaram a demo Anno Satanae em 1993 e assumiram-se desde cedo como uma banda única. Uma banda que se destacava das restantes. Com a edição de Wolfheart em 1995 conquistaram uma vasta legião de fãs em solo nacional e não só – até porque grande parte do seu sucesso verifica-se em terras além-fronteiras – e habituaram-nos ao seu som pesado e bastante literário. Segundo Fernando Ribeiro, vocalista da banda, “o Heavy Metal sempre tentou ter uma profundidade nas letras que ia retirar ao imaginário da literatura dos outros. Eu lembro-me de ouvir bandas como os Iron Maiden que têm uma música muito famosa do Powerslave que é a “Rime Of The Ancient Mariner”, com base no Coleridge, ou os Celtic Frost, que são uma das minhas bandas favoritas, e musicaram o Tristesses De La Lune do Baudelaire. Se havia coisa que me impressionava, para além da música, era essa correlação com a literatura”.

A ligação entre estas duas formas de arte distintas, música e literatura, tornou-se bastante evidente no trabalho dos Moonspell. “A maquete já tinha uma citação de Nietzsche, o Under The Moonspell tinha citações do Marquês de Sade, que eram os autores “malditos”, por assim dizer, que gostámos de trabalhar. O que correu melhor foi o Irreligious, que é um álbum também muito literário; a “Mephisto” inspira-se no mito faustiano do Goethe e a “Herr Spiegelmann” tem por base um livro do Patrick Suskind (“O Perfume”) que eu tinha acabado de ler e fiquei tão impressionado que fiz uma letra sobre uma cena particular”.

O exemplo que se tornou mais famoso foi um excerto do Opiário de Álvaro de Campos que incluíram no tema “Opium”, retirado do Irreligious: « Por isso tomo ópio. É um remédio/ Sou um convalescente do Momento/ Moro no rés do chão do Pensamento/ E ver passar a vida faz-me tédio».

Para Fernando Ribeiro, o gosto pela literatura é natural e faz parte da música dos Moonspell, tal como os acordes. Vai sempre existir. Por isso, no sétimo álbum, intitulado The Antidote encontramos, mais uma vez, uma sonoridade que gradualmente vai cedendo lugar a uma atmosfera serena, impregnada por um lirismo negro, em que o aguardado antídoto vai assumindo a forma de um sedativo que nos adormece lentamente os sentidos.

“Para além do trabalho no Antidote com o José Luís Peixoto, também temos um poema do Oscar Wilde, que é um autor de que eu gosto muito, e já para o próximo disco estou a trabalhar em coisas como o Maquiavel”, avança Fernando Ribeiro. Paralelamente à música, decidiu publicar dois livros – “Como Escavar Um Abismo” em 2001 e “Feridas Essenciais” em 2004. “A literatura é algo de que eu gosto, que tem corrido bastante bem e que vou continuar a fazer, mas sem esperança de atingir esse mundo porque sei bem o meu lugar e sei bem o que faço. Até agora as reacções que tenho tido são boas porque, apesar de haver pontes de contacto, eu não edito coisas que já tenha escrito”. Quanto ao futuro como escritor confessa que as expectativas que tem são continuar a ler bons livros e continuar a escrever. “De vez em quando há um acontecimento do dia que eu transformo em poema. A escrita não tem só a ver com realidade. Eu também escrevo sobre uma vida que imaginava ter e não tenho”.

CAPÍTULO DOIS – Palavras impregnadas em melancolia

Há livros dos quais não escapamos ilesos. Afectam-nos. Impregnam-se em nós. Passam a fazer parte da nossa vida. Através da escrita, José Luís Peixoto convida-nos a mergulhar num outro universo, um mundo paralelo, onde o sentido da existência é questionado e somos forçados a coabitar, lado a lado, com a melancolia e a solidão. Pelas suas mãos enfrentamos o peso da nostalgia, da perda e do abandono.

Actualmente referido como um dos escritores mais promissores da sua geração, José Luís Peixoto foi distinguido com o Prémio Jovens Criadores do Instituto Português da Juventude em 1998 e 2000. O seu percurso fez-se da poesia para a ficção. Publicada em 2000, “Morreste-me” é uma narrativa sobre o luto que nos descreve a dor de alguém que perdeu o pai e se recusa a aceitar esse vazio. Um texto de fôlego inteiramente dedicado ao seu pai, numa catarse pela via escrita.

Quando publicou o seu primeiro romance, “Nenhum Olhar”, ganhou o Prémio José Saramago da Fundação Círculo de Leitores. Nesta obra, José Luís Peixoto fala de traição num cenário onde as personagens comunicam com o olhar. Porém, a falta dessa comunicação mostra os desencontros que se dão entre as personagens e também o “nenhum olhar” de Deus sobre as suas vidas. Foi a partir do êxito deste livro, traduzido em várias línguas e com edições sucessivas, que José Luís Peixoto decidiu viver apenas da escrita. Em entrevista ao semanário Expresso recorda o espanto que sentiu: “Eu era um autor totalmente desconhecido e em três meses o livro vendeu dois mil duzentos e vinte e três exemplares”.

Abriu-se aqui o caminho para outras áreas próximas da literatura, como o teatro (nas peças Rimbaud, as Palavras através do Fogo e Lisboa/Zagreb), o cinema e a imprensa.

“Uma Casa na Escuridão”, que foi simultaneamente publicado com um livro de poemas intitulado “A Casa, a Escuridão”, foi editado em Outubro de 2002 e conta uma intensa história de amor entre um escritor e a sua personagem fictícia, ambos partilhando um mesmo espaço que se vê subitamente ameaçado pela escuridão. Com a escuridão chega também a dor, o desespero, o fim. Pressente-se um desenlace apocalíptico e fatal.

A poética da escrita marca profundamente a obra de José Luís Peixoto, apagando-se nela a fronteira entre prosa e poesia, como se ambas fossem partes simétricas do seu discurso ficcional. E é através destes poderosos componentes que José Luís Peixoto constrói inquietantes metáforas acerca do percurso homem e da civilização, criando uma enorme expectativa em torno do seu trabalho.

CAPÍTULO TRÊS – The Antidote / O Antídoto

Uma encruzilhada com diversos caminhos, contos que se interligam mutuamente e dão vida à componente lírica. É nesta mistura de veneno e antídoto, de contrastes entre horror e beleza, que sob a nossa pele vemos surgir o medo. Uma necessidade de matar a sede de antídoto, tão familiar ao ser humano. As semelhanças entre o universo criado musicalmente pelos Moonspell e pela escrita de José Luís Peixoto estão presentes e tornam-se óbvias se olharmos atentamente, sem nos retermos apenas na superfície. Na realidade, estamos perante o mesmo campo de emoções, de temas e ambientes, a mesma referência ao Sul. Em 2003, através do Antidote o nosso olhar vira-se para esse Sul, para a vida que roubamos ao Sul, um mundo de afecto na ausência de afectos.

Este projecto foi-se materializando lentamente. José Luís Peixoto esteve numa residência de escritores em Nova Iorque onde terminou Uma Casa Na Escuridão e convidou os Moonspell para criarem um ambiente musical que acompanhasse o lançamento do livro. A ideia não se concretizou, mas os contactos entre o escritor e a banda tornaram-se mais frequentes e aguçaram a necessidade de fazer algo em comum. “Havia uma série de canções que já diziam qualquer coisas em relação à orientação do nosso próximo álbum, o José Luís ouviu, gostou muito, e começou logo a escrever”, relata Fernando Ribeiro. “Foi um processo muito em influência. Era engraçado ter um escritor a trabalhar com métodos quase musicais, a perceber coisas da nossa gíria, e nós a fazer uma composição usando termos mais poéticos”.

Para gravar este álbum, os Moonspell regressaram aos estúdios Finnvox, em Helsínquia, e reuniram-se com Hiili Hiilesmaa (produtor de bandas como HIM ou Sentenced). Acompanhados por José Luís Peixoto, na Finlândia ouviram o disco completo pela primeira vez. Só nessa altura é que o livro ficou concluído, e juntamente com ele conclui-se uma etapa criativa. “O disco estava feito e o livro também. Passámos a explicar o projecto às nossas editoras, que adoraram a ideia”, sublinha Fernando Ribeiro. A partir daí foi posta à venda uma edição especial, que esgotou rapidamente, do livro e do disco em simultâneo. “Só o facto de aquele produto estar nas nossas mãos era fabuloso. Uma maneira completamente diferente de editar música e literatura. E estávamos dispostos a encher uma mochila com livros e CDs e ir vender de porta a porta, porque tínhamos muita confiança de que iria resultar. Sempre pensei que José Luís Peixoto e Moonspell são nomes que ficam bem. Têm muito a ver um com o outro. Portanto acho que foi um projecto que nos marcou muito e acabou por marcar a cena nacional, para quem se interessa. Em Portugal as pessoas competem mais do que se ajudam. E quando se ajudam parece que é uma coisa excepcional. Mas não é. Uma colaboração artística é tão antiga quanto a própria arte”.

O concerto de apresentação do álbum ficou marcado para o dia 8 de novembro de 2003 no Coliseu dos Recreios de Lisboa. O espectáculo reuniu cerca de três mil pessoas e estava dividido em duas partes. Na primeira, José Luís Peixoto leu alguns excertos do “Antídoto” enquanto a banda tocava algo mais minimal e atmosférico. Depois, os elementos da banda retiravam-se um a um. Abria-se o pano… estava dado o mote para o concerto de Moonspell.

Em entrevista à revista Raia, José Luís Peixoto fala desta experiência: “Foi muito importante para mim poder trabalhar com pessoas de outra área, no caso da música. Fiquei mais alerta para uma série de questões que existem na literatura e que precisava de ver com um olhar sensível, digamos que musical. A música está sempre presente na literatura. Todos os textos têm ritmo e, com um pouco de boa vontade, podem também ter melodia. O Heavy Metal que os Moonspell fazem, é muitas vezes posto de parte e considerado pouco erudito. Por outro lado, a escrita e os livros também fazem parte de um mundo associado a uma série de clichés, a algo pesado, que está afastado de um número vasto de pessoas”.

Para José Luís Peixoto, a ligação entre a literatura e diferentes formas de arte é fundamental e marca uma espécie de novo Renascimento. Fez também a dramaturgia de um bailado a partir deste livro, com o coreógrafo Rui Lopes Graça, que estreou no início de Setembro. As palavras saíram do papel e passaram a ter existência em movimento.

E quanto a explicações acerca do tema do livro sintetiza desta forma: “O que nos levou a entregarmo-nos a este projecto sob o nome genérico de Antídoto foi o facto de que um antídoto não existe sem o veneno. Neste trabalho, o veneno mais fácil de indicar é o medo, mas tentámos não o concretizar, para que as pessoas pudessem rever lá os seus próprios medos e entender o livro ou o disco a partir da sua própria perspectiva. O medo é muitas vezes associado a algo de negativo porque nos impede de fazer alguma coisa nova, mas também pode ser positivo na medida em que é ele que nos prepara, nos obriga a protegermo-nos antes de dar um passo. O medo, como qualquer emoção irracional, é sempre bastante complexo e pessoal. Tentámos construir um instrumento que permitisse, a quem a isso estivesse disposto, encontrar um espelho para os seus próprios medos e para as suas próprias respostas”.

Medos postos de parte, o resultado está à vista: Dez temas, dez textos. Vendidos juntos, o livro e o disco. Primeiro como objectos distintos, depois num mesmo suporte multimédia. Um projecto moderno e ambicioso. Uma prova de que a um certo nível, realidades como o amor, o medo e a morte tornam-se universais e poderosas.

“Como a solidão, este jardim abandonado anoitece. Guardo derrotas, como se guardasse segredos. Anoiteço sobre este jardim. Agora, entre as ruínas, sou igual a estas árvores que morreram no instante em que tudo deixou de fazer sentido. No momento em que partiste deixei de fazer sentido. O sangue, dentro de mim, é como esta terra seca. A noite não será suficiente para lhe devolver a vida. A noite será como veneno dentro dessa terra e dentro de mim porque o céu da noite terá a cor dos meus cabelos, o negro absoluto do meu vestido”. (Antídoto)

Carla Reis

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~ por hiddentrack.net em 13, Julho, 2005.

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