FURY FEST 2005, II

:: 25 de Julho de 2005

Depois de algum descanso no duro solo francês, que nem a total ausência de sombra conseguiu perturbar, começa o segundo dia de festival. As filas intermináveis para tomar banho opuseram a limpeza corporal (possível nestas situações) à presença em alguns concertos. Mas o que é um qualquer odor menos agradável ou umas manchas na pele de qualquer coisa indecifrável comparadas com actuações únicas de completo assalto sonoro? A opção pendeu pela higiene musical como é óbvio.

A segunda vaga de concertos iniciou-se no palco principal com os frenéticos Cephalic Carnage. Conhecidos por terem actuações violentas, para fazer jus à sua música, e igualmente cómicas, é um verdadeiro prazer ouvir e “ver” o grindcore misturado com sludge, jazz, death e até black metal deste quinteto do Colorado. Zac Zoe na guitarra e Jawsh Mullen no baixo têm constantemente uma performance psicótica e por vezes acrobática com os seus instrumentos, acompanhada, pois claro, por uma sequência de caretas quase Pythonianas. Le Mans serviu para os Cephalic Carnage apresentarem o seu último álbum Anomalies que foi preponderante na setlist apresentada. “Scientific Remote Viewing”, “Sleeprace”, “Counting The Days” e a irónica “Dying Will Be The Death Of Me” foram algumas das faixas retiradas desse álbum. O ponto alto chegou com “Black Metal Sabbath” onde cada elemento colocou uma máscara kabuki imitando as idiossincráticas pinturas à la black metal. Smilies na testa, cruzes invertidas no nariz e pulseiras de picos colocadas ao acaso eram alguns dos adornos que proporcionaram um sorriso geral no público e uma rendição total. Bastante interactividade com o público e uma actuação notável do ponto de vista técnico que iniciou da melhor forma o dia.

Seguiram-se os Aborted, noutro palco já, que possuem uma grande legião de fãs em França como se evidenciou pelos milhares de pessoas que assistiram ao concerto. Com um death metal moderno com algumas influências suecas e com e vários riffs que se colam à mente, a actuação dos belgas foi bastante positiva. O set de meia hora foi composto por músicas como “Dead Wreckoning”, “The Inertia”, “A Cold Logistic Slaughter” e terminou com “The Gangreenous Epitaph”.

Cerca de 15 minutos antes da hora prevista entraram em palco os Zao que encabeçam a vaga de metalcore/noise norte-americana que se tem propagado por todo o mundo. Apesar de se assumirem como metalcore cristão enganem-se aqueles lhes incutem inocência, serenidade ou lamechices. A sua música tem uma força avassaladora e devastadora que remonta a bandas como Slayer. Para além de algumas faixas do último álbum, Funeral Of God, não faltaram os grandes temas compostos pela banda nos seus dez anos de carreira como “A Tool To Scream” ou “Lies Of Serpents River Of Tears”. Daniel Weyandt é o rosto da intensidade com que os Zao encaram a música e as suas actuações ao vivo, prostrando-se continuamente de joelhos ou sufocando-se com o fio do microfone. O final, com “5 Year Winter”, trouxe um completo delírio, tanto em palco como fora dele, sentindo-se o chão estremecer com o mosh generalizado e os riffs destruidores.

À semelhança de outras bandas os Immolation apresentaram também o seu novo álbum Harnessing Ruin, representando mais uma dose de death/black metal com bastantes contra-tempos e riffs inquietantes. O set foi composto por quatro músicas do referido álbum, “Crown the Liar”, “Challenge The Storm”, “Our Savior Sleeps” e “Harnessing Ruin” interpretadas, como lhes é característico, de forma exímia para deleite dos fãs de metal técnico. O resto do set foi composto pelas conhecidas “Father, You’re Not a Father” e “Of Martyrs And Men”.

No palco Velvet, que recebeu a maioria das bandas de metalcore e hardcore, coube a vez dos Bleeding Through fazerem suar o público francês. Uma das bandas mais populares da actualidade dentro do seu género, os norte-americanos apresentaram no Fury Fest o seu metalcore com retoques góticos e bastantes breakdowns que possibilitaram as demonstrações de arte marciais aéreas típicas do seu público. Uma actuação positiva que permitiu que a banda experimentasse novos temas do seu futuro álbum, a sair para o próximo ano pela RoadRunner Records.

Bastantes distracções pelo meio, principalmente pela constantemente revisitada feira de merchandise, fez com que o tempo passasse rapidamente e o momento mais esperado do festival estivesse quase a chegar.

Por volta das 23:20 entram em palco os míticos e inovadores Neurosis perante uma plateia sedenta e expectante. Impossibilitados de trazerem consigo o seu material de percussão, como nos foi confidenciado momentos antes pela banda, o set antecipava-se pesado e composto por músicas mais directas. Conhecidos por incorporarem nos seus espectáculos uma componente visual complementar à sua música, controlado pelo membro “ausente” Josh Graham, este concerto não foi excepção e uma tela redonda foi colocada ao centro do palco onde as imagens eram projectadas. Flores a desabrochar, ambientes naturais, solos, árvores, mar, e corpos revestidos por várias tonalidades, foram algumas das imagens que acompanharam meticulosamente cada música, cada acorde e cada ribombar telúrico.
O concerto iniciou com “Times of Grace”, do álbum de 1999 com o mesmo nome, e desde logo avassalou toda a sala por completo. Uma performance quase inumana pela sua intensidade e empenho coloca os Neurosis num patamar acima de qualquer outra banda. Dezenas de fotógrafos apinharam-se em frente a Scott Kelly e dezenas de flashes foram disparados simultaneamente levando a que o guitarrista/vocalista tivesse um descontrolo furioso para com estes. Mensagem recebida, todos os flashes seriam desligados daí em diante.
Os sons tempestivos e o ritmo compassado da bateria que seguiram à primeira música apresentavam o álbum The Eye Of Every Storm através de “Left To Wander”. Um inicio calmo e sereno com a voz de Scott Kelly a apaziguar o ambiente à sua volta. Em crescendo suave a música culmina em ruídos desconexos, mas que se querem prolongados. Segue-se “The Doorway”, uma das faixas mais pesadas da longa carreira dos Neurosis e depois “A Season In The Sky”, comandada pela voz de Steve Von Till, devolve o sossego aos milhares de espectadores.
O concerto era como uma maré balançante e ressurge de novo com “Burn” e por fim, num encerramento que se pode considerar perfeito, “End Of The Harvest”, sem dúvida uma das composições mais possantes e belas. Marcada por várias tonalidades, por silêncios e subtis ambientes, por ritmos viscerais e uma presença vocal tripartida e catártica, o concerto termina em verdadeira apoteose sonora.
Um concerto memorável e de intensidade extrema como um ataque epiléptico, visível na mão ensanguentada de Scott Kelly enquanto ele próprio fez sangrar a sua guitarra, que marcou uma das raras actuações dos Neurosis. Queria-se mais incontrolavelmente. Uma hora composta por seis músicas parece muito pouco quando se é arrastado e elevado pelo delírio sónico de centenas de watts. Mas nada poderia ser melhor que isto, foi esse o sentimento geral.

Faltava ainda Megadeth, banda lendária do thrash heavy metal e que concentrou a velha guarda que marcou presença no festival no palco principal, assim como todos os amantes do género. Eu não sou um deles. Espreitei, entrei e ouvi a voz bastante má, nada rouca como esperado, com que Dave Mustaine cantava conhecidos temas como “Skin O’ My Teeth” ou “Kick The Chair”. Presença marcada e tempo de repouso, retiro até à tenda.

Curiosamente, quando se pensava acabado o dia, eis que o regresso dos milhares de pessoas após o concerto de Megadeth trouxe consigo um estranho e assustador desejo de destruição. Inicialmente não passou de uma natural brincadeira em que dezenas de pessoas fizeram um “comboio” e circundaram as várias tendas fazendo um barulho infernal. Mas a receita álcool, tédio e bastante estupidez resultou na destruição dos lavatórios, das casas de banho, chuveiros e pontos de água já de si escassos. As portas arrancadas dos WC serviram de jangadas transportadas por várias pessoas e com a destruição dos canos surgiu um repuxo indesejado que atingiu uma altura considerável. Alguns dos outros campistas, aqueles mais sãos, decidiram alterar a situação falando com os que estavam envolvidos, mas o resultado foram vários confrontos físicos espelhados pelas marcas de sangue presentes no dia seguinte. Segurança? Um guarda passou lá perto, falou ao rádio e nunca mais se viu ninguém.

Talvez tenha sido por ser o festival da fúria, talvez uma exaltação por contágio, um motim anarquista irresponsável ou talvez tenha sido simplesmente pela quantidade de gente parva que abunda um pouco por todo o lado. Um incidente lamentável que não conseguiu, no entanto, comprometer um excelente dia de concertos.

Gonçalo Sítima

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~ por hiddentrack.net em 25, Julho, 2005.

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