FURY FEST 2005, III

:: 26 de Julho de 2005

O início do fim tinha algumas marcas do caos da noite anterior e se a organização procedeu mal no controlo e domínio do descontrolo nocturno, há que referir que rapidamente repararam os danos feitos. O dia, repleto de lendas, começou tarde e com cansaço acumulado.

Descida até ao palco principal para ver os colossais Mastodon – passe a redundância – naquela que seria uma actuação histórica. O concerto é iniciado com “Iron Tusk” e com “The March Of The Fire Ants” logo de seguida, sem tempo para respirar e tentar compreender que animalesco ser tinha acabado de despertar. “Flight Of The Behemoth”, “Mother Puncher” encerraram a presença de Remission e o restante tempo foi dedicado ao muito aclamado Leviathan. A possibilidade pairava no ar como um sonho que encontra trilhos de realidade e eis que, decorridos 20 minutos de actuação, entra em palco Scott Kelly para interpretar “Aqua Dementia”. Com o seu distanciamento natural, como tinha sido na noite anterior no concerto de Neurosis, Kelly agarra no microfone e canta a sua parte de forma exímia. A versão ao vivo daquele que é um dos pontos altos de Leviathan arrepiou por completo todos os que presenciaram e naquele momento fez-se história. A actuação dos Mastodon termina com “Blood And Thunder” e uma ovação sincera e prolongada. Apesar de alguns percalços técnicos, pequenas falhas que só os mais atentos conseguiriam descortinar, os Mastodon ofereceram o que todos esperavam: um grande concerto.

Ainda no palco principal, chega a vez dos suecos Soilwork apresentarem o seu death/thrash melódico que lhes é característico. Uma presença bastante dinâmica e interactiva que conjugou perfeitamente com um conjunto de músicas energéticas onde se inseriram “Stabbing The Drama”, “Nerve”, “Follow The Hollow” ou “Blinded Eye Halo”.

Seguiram-se imediatamente outros suecos, desta vez os In Flames, que tocaram para um pavilhão cheio, como se esperava. Com um som bastante potente em palco, uma das melhores produções do festival arrisco dizer, os In Flames deram mais uma actuação que moveu toda a audiência que abarcou os fãs dos mais variados géneros musicais. “Cloud Connected”, “System”, “Graveland” e a poderosa “Only For The Weak” foram algumas das músicas que encheram o pavilhão do palco principal. De destacar aquando de “Bullet Ride” em que o vocalista Anders chama um elemento do público ao palco para interpretar a música na sua vez, integralmente. Uma oportunidade única que, apesar do aparente nervosismo e falta de talento, deixou um festivaleiro francês bastante agradado, assim como a generalidade do público.

O “pais” do grindcore, os Napalm Death, também marcaram presença em França e deram um concerto típico do seu longo historial. Muita adrenalina e um som agressivo como animais com raiva, e cortante como facas. Apesar da idade avançada, os britânicos continuam incomparáveis e a fazer mover centenas de pessoas. Barney incluiu algumas mensagens políticas, nomeadamente de ataque aos instigadores de conflitos e ao panorama mundial actual, entre as músicas. Não faltaram, pois claro, clássicos como “Suffer the Children”, “Breathe to Breathe” ou um cover de Dead Kennedys, “Nazi Punk Fuck Off”.

Uma breve aparição no concerto dos Samael para poder ouvir “Baphomets Throne” e mais algumas faixas mais recentes e notar que, apesar de uma audiência bem composta, o metal industrial e ritmado não conseguiu captar muita adesão.

Muitas eram as t-shirts de Obituary, como de resto é obrigatório em qualquer concerto de metal. Perto das seis da tarde os lendários americanos sobem ao palco neste regresso à música depois de um longo interregno. O início foi marcado por um pequeno percalço, quando Frank Watkins partiu uma corda do seu baixo durante a introdução instrumental “Redneck Stomp”, faixa que abre o último álbum Frozen In Time. Depois da corda trocada, fica completo o quinteto e prossegue o concerto. Conhecidos por uma sonoridade pesada e algo abafada em álbum, esta foi reproduzida de forma exacta em palco, o que atribuiu especial prazer na interpretação de “Threatening Skies” ou “Chopped in Half”. Apesar de algo apáticos em palco, a música falava por si e o headbang for geral à medida que o concerto decorria. Sabe bem ter Trevor Perez e John Tardy de novo em palco.

Simultaneamente a Obituary, infelizmente, decorreu o concerto dos “estranhos” Sunn o))). Esta banda aposta em fazer transcender a influência da música no público. Munidos de uma parafernália de equipamento, vários amplificadores, sintetizadores e pedais de distorção, os ouvidos não são o único receptor assaltado pela música dos Sunn o)).
A actuação começou com uma introdução prolongada que se assemelhou a um riff com o máximo de graves a o mínimo de velocidade. Ao parar, depois de alguma impaciência dos menos preparados, o corpo continuava a estremecer incontrolavelmente como se estivesse numa ressaca sonora. Encapuçados com umas vestes que cruzavam monges com árabes, os Sunn o))) entraram em palco de forma solene. Alguma aparente confusão com vários técnicos de som a correrem de um lado para o outro, ligando, conferindo e ajustando pormenores. Inicia-se a primeira música mas os microfones não funcionaram, deixando a banda furiosa que se retirou do palco.
Pensando ser o fim da actuação, com Obituary a tocar alguns metros mais abaixo, a retirada desiludida foi a opção tomada. Porém, mais tarde, ainda foi possível apanhar o final do concerto e constatar uma ovação sincera dos presentes. Ficou a frustração, pois claro, após mais uma falha da organização que falhou em coordenar os concertos para não se sobreporem.

O final de Sunn o))) trouxe consigo os preparativos para outro dos concertos mais esperados do festival, o dos japoneses Envy. Bastante concorridos no pavilhão do merchandise, tendo esgotado quase todo o seu material, não foi de estranhar que o pavilhão do palco Velvet enchesse para os ver.
Com uma postura algo tímida perante o público; uma barreira cultural de aço fez com que a música fosse o principal veículo de comunicação. Talvez tenha sido essa a fórmula do incontestável e consensual sucesso que tiveram, deixando absolutamente rendidos todos os que assistiram. De facto impressionante. Os Envy apresentaram o seu noise arrastado e ruidoso intercalado com partes melódicas e contemplativas de guitarras limpas, teclado e palavras faladas. Tetsuya Fukagawa tem um desempenho vocal bastante intenso que é o espelho da emotividade da música dos Envy. Em certos momentos, sentiu-se uma simbiose perfeita entre a banda, a música e o público e cada acorde atraía outro; e toda a tensão nos nervos pedia mais força; e cada ruído pedia harmonia e vice-versa. O set foi composto maioritariamente por músicas dos dois últimos álbuns, All The Footprints You’ve Ever Left And The Fear Expecting Ahead de 2001 e A Dead Sinking Story de 2003, tendo sido interpretadas “Farewell To Words”, “Go Mad And Mark”, “Chain Wandering Deeply” e “Your Shoes And The World To Come”. Não foi de estranhar que após a despedida da banda o público quisesse mais, muito mais, sempre mais. Em uníssono ouvia-se “Envy” com uma pronuncia bem francesa. Após alguns minutos, o regresso. Uma faixa mais rápida foi a escolhida pelos japoneses, e o público aderiu como se de um último desejo antes da execução se tratasse. E depois, o fim. Inesquecível.

Creio que para muitos o que vou dizer poderá ser um verdadeiro crime, mas a verdade é que não vi Motörhead porque estive a dormir. Fica então a setlist não presenciada para os interessados: “Doctor Rock”, “Stay Clean”, “Like Me Like A Reptile”, “Killers”, “Metropolis”, “Over The Top”, “No Class”, “I Got Mine”, “In The Name Of Tragedy”, “Going To Brazil”, “Killed By Death”, “Ace Of Spades” e “Overkill”.

Por fim, os reis. A encerrar o festival, a rematar um dia de grandes nomes e de grandes bandas, os detentores da inquestionável soberania metaleira, os Slayer. O que dizer que seja novo? Eles são a base do metal e das suas várias, infindáveis variantes, e ao vivo com os vários clássicos, conhecidos e cantados por todos, são verdadeiramente grandes. Após a reunião de Dave Lombardo com os restantes membros, o quarteto ficou de novo perfeito e os concertos apetecíveis repetição após repetição. Com uma uma lista de músicas que poderia passar por um concerto de grandes êxitos, um “best of” ao vivo do que de melhor se fez no metal. Início com “Disciple”, pois claro, e depois todos os hinos: “War Ensemble”, “Black Magic”, “Dead Skin Mask”, “South Of Heaven”, “Raining Blood”, “Mandatory Suicide” e tantas outras, com a inclusão da velhota “Necrophiliac”. O final, o terminar da fúria, “Angel Of Death”. Obrigado, como sempre, e até ao próximo.

Chegava ao fim a edição de 2005 do Fury Fest; e que grande edição. Esquecendo as pequenas desorganizações e incidentes, este foi um festival de pleno sucesso. A música pulsou vivamente através de dezenas de bandas, milhares de pessoas e milhões de decibéis. Eclético q.b., para não criar disparidades incontroláveis, e com momentos únicos e irrepetíveis, um festival europeu em França que uniu gente de todo o mundo e alguns dos melhores artistas vivos. Au revoir Le Mans.

Gonçalo Sítima

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~ por hiddentrack.net em 26, Julho, 2005.

 
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