Martin L. Gore – Counterfeit2

Martin L. Gore será um nome desconhecido para a maioria das pessoas, mas talvez identificando-o como um dos membros dos Depeche Mode se faça luz em algumas cabeças. De facto, Gore é o compositor e letrista desta banda, sendo responsável pela quase totalidade dos seus êxitos.

Martin decidiu em 2003 repetir a experiência que tinha tido em 1989 com o EP Counterfeit e realizar assim o seu primeiro longa-duração. Sendo ele um letrista e compositor seria de esperar que os temas fossem todos da sua autoria, mas a verdade é que nenhum foi escrito por ele. Gore, que, segunda as suas próprias palavras, é um compositor pouco produtivo, preferiu guardar as suas composições para a banda e fazer um álbum de covers, tal como já tinha feito anteriormente…

Tendo em conta a qualidade dos covers que frequentemente chegam aos nossos ouvidos, qualquer álbum inteiramente constituído por eles levanta as maiores desconfianças! Confesso que foi este o meu caso, mas uma agradável surpresa aguardava-me. Atrevo-me mesmo a dizer que Counterfeit2 é o melhor álbum de covers alguma vez feito.

Os temas que compõe este disco cobrem quase todas as décadas da segunda metade do século XX, sendo o mais antigo de 1949 e havendo mesmo um de 2002. Em relação aos autores, a diversidade é também um elemento presente, incluindo nomes como John Lennon e Yoko Ono, David Bowie e Iggy Pop, Bob Dylan, Nick Cave e outros grandes nomes dos anos 90.

Não obstante a heterogeneidade temporal e de autores, Martin L. Gore consegue, com a ajuda dos produtores Andrew Phillpott e Paul Freegard, construir um álbum homogéneo em temática, sonoridade e qualidade. Todas as letras têm como elemento principal o amor, mais particularmente a desilusão amorosa e os sentimentos a ela associados. Neste âmbito a morte merece especial atenção, o que para quem conhece o trabalho de Gore não surpreende, uma vez que a morte parece desempenhar um papel muito importante na sua criação e na sua vida.

Mas ao contrário do que seria de esperar Counterfeit2 não é um álbum incómodo, perturbador ou violento… É antes aconchegante, acolhedor, confortável, emocionante e harmonioso, o tipo de álbum que é uma banda sonora perfeita para uma tarde chuvosa e deprimente de Inverno. E este é talvez o maior dom de Martin L. Gore, conseguindo fazer músicas cujo tema central é comum a alguns estilos de música mais “pesados”, mas construindo um ambiente harmonioso e calmo em que o mal-estar está associado ao sofrimento e não tanto à violência e revolta.

As melodias são simples, apostando-se na economia dos sons em vez de construir elaborada teias sonoras que afastariam o ouvinte do ponto fulcral deste álbum: as letras e o sentimento por elas emanado. Entre as músicas presentes destacam-se “I Cast a Lonesome Shadow” e “In My Other World”, as duas com melodias simples, enriquecidas pela produção que é inquestionavelmente perfeita, tornando-as em autênticas obras-primas, profundas, autênticas e desconcertantes! A enquadrar a qualidade sonora do álbum, a estética é perfeita, corroborando os sentimentos transmitidos pelas músicas e parecendo quase um catálogo artístico.

Por todos estes motivos e muitos mais Counterfeit2 é um álbum obrigatório para qualquer apreciador de boa música, especialmente se essa boa música se caracterizar por uma atmosfera deprimente e negra. Infelizmente, e em muito devido ao objectivo de Gore não ser vender mas antes experimentar, este álbum é desconhecido pela quase totalidade da população terrestre! Mas a esperança é a última a morrer e talvez algum milagre faça as gerações vindouras reconhecerem a qualidade deste álbum…

8/10 | João Oliveira

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~ por hiddentrack.net em 29, Julho, 2005.

 
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