Sigur Rós – Takk…

Há mundos espalhados por aí. E há, a espaços, quem os consiga descrever tocando a perfeição. Na literatura, na pintura ou no cinema… os nomes são lugares-comuns de respeito e modelos ideais de uma civilização em constante escalada. E a música não é excepção.

Há, a espaços, pessoas como Jón Þor Birgisson, Kjartan Sveinsson, Orri Páll Dýrason e Georg Holm; alguém que ilumina.

Ao quarto álbum, os Sigur Rós levam-nos numa viagem sem retorno, levam-nos ao mais belo dos lugares… ao mais excepcional dos momentos. A voz frágil e andrógina de Jónsi Birgisson divaga num manto musical extremamente belo de piano, guitarra e cordas como um escritor se passeia por páginas em branco soltas. É este o tempo.

Takk… (2005) é difícil de apresentar. Talvez seja pós-rock com timbre de música clássica e laivos da mais interessante pop. Ou talvez seja simplesmente o momento mais bonito das vossas vidas.

Seja como for, impossível é ficar indiferente a cada um dos movimentos, a cada um dos acordes, a cada um dos passos desta viagem pelo mundo maravilhoso do quarteto islandês.

Não há muitas bandas ou artistas capazes de fazer disparar todos os sentidos e de os encerrar em simultâneo e de provocar emoções realmente fortes, ainda que apenas por meros segundos. Os Sigur Rós pegam em palavras – quando não as inventam, como em ( ) (2002) – e devolvem-nos parte da inocência quando nos dão algo em islandês. É nesta ignorância que nos deixamos trespassar por canções como “Glósóli”, tema escolhido para primeiro single, e “Sæglópur” em que a banda se revela barulhenta o suficiente para afastar ideias de uma existência formalmente celeste, vazia de mãos e de algo que mova realmente montanhas. “Glósóli” é tranquilidade e tempestade unidas por passos em marcha e separadas por apenas uma fracção de segundo.

“Hoppípolla” dá-nos piano e voz rodeados por uma aura de violinos e instrumentos de sopro que consegue levar a sua luz até “Með blóðnasir”, tema que surge em jeito de continuação natural. Os membros da banda explicaram que, quando compuseram e gravaram o álbum, criaram o espaço de cada tema no alinhamento, que não sofreu grandes alterações ao longo das gravações. Não há dúvidas que este tema é fruto disso mesmo.

Se a pequena valsa no final de “Sé Lest” não for suficiente para que se chegue à conclusão de que os Sigur Rós são muito mais do que um projecto quase instrumental de proporções desmedidas exageradamente elogiado, podemos ficar convencidos com “Mílanó”. Este tema – o mais longo do álbum, com cerca de dez minutos – é quase independente das restantes músicas, pelo menos a julgar pela sua longa introdução em crescendo de volume e por um final no sentido inverso. De resto, “Mílanó” não tem nada de extra-terrestre nem de aberração. É, sem dúvida, um dos temas mais bonitos de Takk…. E esta não é uma competição propriamente fácil. A canção vai adquirindo forma à medida que os minutos avançam: depois do piano com cordas em fundo, surgem baixo e bateria a darem um corpo que só atinge a maioridade quando a música explode completamente e se ouvem guitarras e a voz de Jónsi elevada a tons brilhantes com uma força estupenda.

É no crepúsculo de “Mílanó” que surge “Gong”, brilhante na forma como nos dá guitarra e bateria aparentemente divorciadas, num jogo irrepreensível de coincidência de compassos que dá um excelente efeito. Este sim é o extra-terrestre de Takk… pelo ritmo, pela guitarra, pela voz… todos diferentes de si próprios, todos parte de um organismo vivo e mutante. Como disse, extra-terrestre.

E é no momento em que a viagem entra na noite que entra “Andvari”, reflexo estupendo de “Gong”, obra de arte serenamente esculpida da natureza. Sem ferro nem fogo que possa estragar. Sublime.

Não é possível falar de Takk… sem referir “Svo hljótt”, obra-prima decididamente roubada aos deuses. Não é um simples momento no tempo e no espaço. É algo maior que o próprio som. Não pode ser só uma mistura ordenada de sons. Tem mesmo de ser algo mais. A calma aparente e a apoteose de um refrão que é completamente composto por adrenalina parecem suficientes para explicar tão espectacular acto… que se deixa encerrar por “Heysátan” num embalo leve.

Como cada uma das peças que o compõem, este álbum não poderia estar mais perto da perfeição. Quando não é algo indescritível, Takk… é uma epifania.

9/10 | Filipe Marques

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~ por hiddentrack.net em 2, Setembro, 2005.

 
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