Cult Of Luna na Casa da Música

:: 17 de Setembro de 2005

Como resultado da capacidade lusa de “chatear”, através da Internet, as bandas que insistem em percorrer toda a Europa excluindo sempre o rectângulo Atlântico, os Cult of Luna deixaram o fresco verão da Escandinávia para uma actuação extraordinária na cidade invicta.
A Casa da Música acolheu os sete suecos numa pequena sala, de palco simples e vestido somente com o essencial: os instrumentos e os músicos. Era um ambiente intimista e próximo aquele que rodeava a numerosa banda e as cerca de duas centenas de pessoas que compareceram na sala 2.

O habitual negro das vestes de gala e dos “smokings” dos concertos de música clássica que abundam no cúbico edifício deu lugar ao das t-shirts masculinas e da maquilhagem feminina. Nada de exageros, claro. Apesar de se inserir no diluído género do metal, a música dos Cult Of Luna insere-se numa nova vaga sonora que escapa às formatações que o referido termo comporta. Ambientes calmos e atmosféricos ou sons limpos e polidos já não são elementos estranhos na música pesada actual. Aliás, poder-se-á considerar os Cult Of Luna como a banda de metal que mais usa uma campanela e um pandeiro. Que se contorçam em agonia os “Velhos do Restelo”.

Com Salvation editado em 2004 – com bastante sucesso diga-se de passagem – a actuação da banda cobriu em grande parte as músicas que o compõem. No foi de estranhar, portanto, que o início tenha sido com “Echoes”, em crescendo sedutor e esclarecedor do que iram ser as próximas duas horas.

“Leave Me Here” não fez prisioneiros e transbordou para o público com uma intensidade admirável. A esta a altura já os Cult Of Luna se tinham ambientado com o palco e com Portugal e se libertavam através da música e dos gestos – Klas Bydberg era o espelho disso mesmo. Não se pode dizer que a música do Cult Of Luna propicie efusivas manifestações físicas, trata-se mais de um ataque subtil aos sentidos: ora lento e colossal, ora sereno e arrepiante.

O álbum The Beyond também marcou presença e trouxe consigo os momentos mais pesados e caóticos, para satisfação daqueles que acompanham a banda com particular atenção. “Receiver” e “Further” foram absolutamente demolidoras, no seu estilo arrastado e cheio, cheio como uma carruagem do metro em hora de ponta. Complementados por uma acústica arquitectural invejável, os sete membros dos Cult Of Luna justificaram a sua numerosa existência. Do sample mais discreto ao acorde mais ruidoso, todas as músicas eram um deleite sonoro. Porém, de apontar o facto da segunda voz, a cargo de Magnus Lindberg, não se ouvir como seria desejável – principalmente quando estava a cargo desta as melodias mais suaves.

A atitude da banda para com o público passou por ser de alguma distância, alguma timidez até. Mas à medida que o concerto avançava as coisas pareciam alterar-se. Klas, com um inglês algo retorcido, lá cumprimentava e agradecia ao público português quando tinha espaço, quando respirava entre músicas. A sua voz, no entanto, pareceu estar algo fragilizada. Não se pode dizer que seja dono de uma grande capacidade vocal, em álbum serve perfeitamente, mas ao vivo pareceu demonstrar algumas limitações.

“Crossing Over” trespassou todas as barreiras em mansa propagação. Foi um dos momentos altos do concerto e que antecedeu uma novidade no reportório dos Cult Of Luna. Sem o nome desvendado, a nova faixa assumiu-se como um instrumental longo, como é hábito, e musicalmente distinto da maioria das músicas dos suecos. Uma composição mais rock, mais descontraída e leve, sem contudo destoar do que é característico dos Cult Of Luna. Ficou o aperitivo para o que os novos ventos do norte trarão dentro de alguns meses.

Para o final, ficou reservada “Waiting For You” e que, pela ausência de voz, antecipou a partida de Klas do palco. Uma música em forma de adeus que terminou com uma guitarra frenética e em apoteose, típica de final de concerto. Palmas e vénias de ambos os lados do palco.

Como é apanágio dos concertos em Portugal, e talvez um pouco por todo o lado, a saída da banda não representa necessariamente o final do concerto. As palmas e os chamamentos prosseguiram, na esperança que se possa ter mais alguns momentos para extravasar o que possa ainda restar no corpo e na mente. E claro, abrem-se as portas laterais e os sete músicos regressam ao palco.
Entretanto, a banda anuncia que aquele seria o primeiro encore alguma vez feito, o que não deixa de ser surpreendente. Mas nesta noite, o palco é só deles, o público também e aceitam-se pedidos. “The Watchtower” é a escolhida e o sorriso geral compõe-se. Tocada com violência, esta sim, é a despedida merecida. Partem-se cordas, trocam-se guitarras, abana-se a cabeça, o corpo e entrega-se todo o suor. Obrigado pela visita e até à próxima.

Gonçalo Sítima

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~ por hiddentrack.net em 17, Setembro, 2005.

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