Deftones – B-sides & Rarities

Comecemos pelo senso comum: a verdade é que as compilações valem pelo que valem e nunca conseguem ser alvo de uma apreciação muito significativa, principalmente quando comparadas com outros lançamentos de uma banda. Tirando as colectâneas de vários artistas reunidos por um qualquer motivo mirabolante e “fresco”, as compilações de uma banda específica caem normalmente em duas categorias: os best of, que visam satisfazer aqueles que gostam da banda pelo que ouvem na rádio, mas não o suficiente para comprarem os álbuns; e as raridades e b-sides, que visam satisfazer aqueles que gostam verdadeiramente da banda e não se sentem satisfeitos com o alinhamento regular dos álbuns até então editados.

Resultado, uma compilação nunca é algo marcante numa banda (aceitam-se excepções claro), pois não tem força suficiente para tal, isto é, não marca um progresso ou uma nova atitude musical, não tem um conceito esquematizado ou um trabalho cuidado de estúdio e composição. Normalmente, são meros aglomerados de músicas feitas por acaso, por gozo ou por engano, algures durante a gravação de um álbum ou por convite de um amigo. Por vezes, quer-se simplesmente vender mais, fazer mais uns trocos e aproveitar para manter o nome da banda na ribalta para que a rádio não desista de tocar o último single.

Tendo isto em mente, eis que olho para B-sides & Rarities lançado recentemente pelos norte-americanos Deftones. O nome indica-nos claramente que esta é uma compilação que se insere na segunda categoria atrás mencionada e que terá, provavelmente, uma função de filtragem dos compradores (vá-se lá imaginar semelhante técnica). Mas os Deftones aproveitaram ainda este lançamento para comemorar os 10 anos de carreira que já têm atrás de si. Assim sendo, B-sides & Rarities vem revestido de várias fotografias que acompanham o percurso da banda e que ajudam a contextualizar esta comemoração e a sua relação com os fãs. Para além disto, um DVD com todos o videoclips feitos até ao momento e alguns momentos de actuações ao vivo. Digno de qualquer verdadeiro apreciador, sem dúvida. Este é, mais do que qualquer outra coisa, um item de colecção.

Quanto à música propriamente dita, sabe-se que, apesar de serem uma das bandas originárias do movimento “nu-metal”, os Deftones destacam-se pela sua versatilidade e inconformidade. Portanto, não é com grande estupefacção que se encontram neste lançamento versões de músicas dos Depeche Mode, Cocteau Twins, Duran Duran ou The Cure.

No entanto, a presença do rock romântico de Lynyrd Skynyrd, com “Simple Man”, foi algo surpreendente. Aqui está uma música lenta, cheia daquele “feeling rockeiro” com, como é óbvio, um solo de guitarra à maneira e um final em fade-out. Quase que me arriscaria a dizer que é cómica a escolha de Chino Moreno e seus comparsas, mas não nego que no contexto festivo deste álbum, sinta algum prazer em ouvir os Skynyrd reinventados (mas não muito).

Os momentos mais energéticos e pesados, se tal se pode ainda atribuir aos Deftones, surgem em “Savory”, na alucinante “Wax and Wane” dos Cocteau Twins, “Sinatra” dos históricos Helmet e na velha conhecida dos seguidores da banda “Crenshaw Punch / I’ll Throw Rocks At You”, que faz renascer a meio da compilação o ambiente do estreante Adrenaline (1995). E por falar no Adrenaline, fiquem a saber que “Please, Please, Please, Let Me Get What I Want” dos Smiths esteve quase para ser incluída nesse álbum, mas o produtor Terry Date recusou-se a fazê-lo por achá-la demasiado “mellow”. A banda teve que a gravar separadamente e isoladamente, tendo circulado durante anos por vários bootlegs e pela Internet, e só agora, dez anos depois, pôde ser oficialmente editada.

Um especial destaque para a versão de “No Ordinary Love”, de Sade, que resulta francamente bem através do quinteto norte-americano. Um pop simples, mas nada descartável ou superficial, onde a voz de Chino (perita em sussurrar) e as guitarras distantes (também elas sussurradas) criam um ambiente confortável e quente. Uma faixa para um repeat ocasional.

A inclusão de três faixas bem conhecidas do reportório do Deftones em versão acústica tem um certo mérito, pois oferece-nos uma nova abordagem sobre as mesmas e retira, assim, algum do efeito de desgaste provocada pela alta rotação em que passaram nas rádios e televisões. “Digital Bath” e “Change (In The House Of Flies)” são exemplo disso mesmo. Destaco, porém, a versão de “Be Quiet And Drive (Far Away)” que, ao contrastar com a música original presente em Around The Fur (1997), faz com que seja uma experiência bastante agradável.

A natureza das músicas desta compilação faz com que este seja um lançamento bastante eclético e sui generis. Passível de desagradar alguns fãs mais recentes ou pouco abertos aos diversos espectros musicais que circundam a música dos Deftones, B-sides & Rarities traz-nos empoeiradas interpretações e composições que sabem bem ouvir. Correrá sempre o risco de desagradar ainda aos que conhecem e gostam das versões originais, mas sinceramente, não me parece que os Deftones tenham feito um mau trabalho, nem desvirtuado nenhum dos seus heróis.

7/10 | Gonçalo Sítima

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~ por hiddentrack.net em 19, Outubro, 2005.

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