Sobre Sons e Impulsos

A música e o sexo. É uma combinação interessante, por certo concordarão comigo. Com uma dimensão verdadeiramente ancestral, o nascimento da relação entre sexo e música é de difícil especificação temporal ou cultural.

Recuemos, por exemplo, até à época da Grécia Antiga, séc.VI a.C., onde o culto divino por um tal Dionísio (ou Baco se seguirmos a poética de Camões ou a visão romana) foi bastante popular. Como deus do vinho, esta adúltera personagem inspirava nos seus seguidores e adeptos uma libertação inebriada que resultava precisamente nos dois elementos que interessam a esta exposição: sexo e música. As festas dionisíacas eram conhecidas, e temidas a certa altura, pelo frenesim sexual e orgiástico que despertavam nos seus participantes. Este estado de êxtase resultava da embriaguês metafísica em que os seus participantes caíam, devido em muito aos ritmos violentos produzidos e que se opunham à cítara apolínea e comedida. As bacantes, seguidores de Dionísio, costumavam correr desnudas pelos bosques, dançando e cantando em homenagem ao seu mestre.

Estes elementos históricos e religiosos poderão ser o exemplo mais claro, concreto e extremo de como a música e o impulso sexual têm uma relação bastante próxima e de como ambos, quando conjugados, são capazes de mover violentamente o Homem e, obviamente, o seu corpo. Mas aproximemos o assunto à actualidade e analisemos outras perspectivas.

Antes de mais, e para que a partir daqui se dissipe qualquer dúvida sobre os elementos em estudo, que fique bem claro que falo simplesmente em sexo, isto é, no acto através do qual se retira um prazer eminentemente físico e que resulta do extravasar e consequente satisfação do impulso sexual que habita nos nossos corpos. Que fique bem claro que não estou a falar de amor, romance ou qualquer intermediário intelectual que procure adornar a existência humana. Excluo estas dimensões porque, sinceramente, não me apetece nada falar dos Bon Jovi, do Júlio Iglesias, nem do Michael Bolton (embora me pareça bastante irreal como é que alguém consegue fabricar uma erecção a ouvir este tipo).

Ora bem, consta que actualmente a música que se produz é, cada vez mais, despida de verdadeiros impulsos artísticos, tendo a máquina comercial da indústria musical transformado grande parte dessa produção em bonitos produtos com procura e lugar no mercado. Sorte a nossa, o sexo é um mercado sempre em alta. Assim sendo, é possível identificar alguns dos artistas que ainda conseguem fazer despertar a besta sexual humana ao penetrar no canal auditivo.

Um nome que deverá andar pelas vossas mentes desde a primeira frase deste texto é, certamente, o do grande Barry White. Precisamente, ninguém consegue aflorar o ímpeto sexual tão bem como o mítico Barry o faz. É um facto quase científico que um homem e uma mulher (ou qualquer outra combinação de géneros (?)) juntos num sofá, com as luzes diminuídas, um copo de vinho servido (influências dionisíacas novamente) e a música de Barry White como ambiente sonoro resulta, mais tarde ou mais cedo, em sexo. Este é um silogismo lógico do comportamento humano que poucos ousarão contestar. Não tendo ainda comprovado pessoalmente a eficácia desta evidência, eis o que eu questiono: será que, para além do carácter sugestivo da música do senhor Barry White, esta também tem uma capacidade compensatória? Isto é, será que a voz rouca e a melodia quente fazem com que se dispense uma boa conversa de sedução? Um corpo musculado ou ondulado? Uns olhos bonitos e um cabelo sedoso? Ou até, indo um pouco mais longe, uma pila funcional ou uma vagina húmida? Fica a questão.

Outra vaga bastante popular actualmente e de pertinente relevância, é a representada pelo Hip-Hop. Este género musical teve o mérito de transportar para o formato videoclip aquilo que só era possível ver em formato vhs e com restrição de idade. Com mais ou menos objectificação da mulher e mais ou menos prepotência masculina, a verdade é que a tensão e intenção sexuais abundam em várias vertentes do Hip-Hop, inclusive nas suas origens. Será, então, o Hip-Hop um género musical eficaz em despertar o impulso sexual?

Para além dos ritmos sugestivos que comandam este tipo de música (ritmos esses que têm o seu expoente máximo de sugestão na música africana, como na Kizomba), o Hip-Hop funciona também com base nas chamadas “dicas”. Exemplifico através do nosso conhecido Boss AC: “’Tavas no bar encostada a beber Pisang Ambon / Aproximei-me disse: “Baza dançar este som?” / O teu dred ‘tava no WC, ‘bora pó cantinho que ele lá não nos vê” – ou, mais tarde na mesma música – “Explorei o teu corpo como um patrão explora o empregado / Descobri pontos fracos em ti, por todo o lado / Quieto não pude ficar quando me tocaste daquela maneira / Tomaste o controlo, passaste a fronteira, tu foste a lenha da minha fogueira.”. Eis um exemplo claro de como através das “dicas” se poderá fazer com que os “dicks” consigam ter alguma acção, eventualmente. É patente o processo de sedução, quase poético, e que facilmente explica como a música aliada às palavras consegue ser um óptimo elemento condutor até ao acto sexual (confiemos no Boss AC).

Surge, assim, o momento de levantar outra questão que me perturba há já algum tempo nisto tudo: se é um dado adquirido que determinadas composições musicais, determinados ritmos e determinadas canções, são capazes de despertar e amplificar o desejo sexual nos humanos, porque raio é que nos filmes pornográficos existe permanentemente aquela guitarrita wah-wah irritante e as linhas de baixo “slapado” dos anos 80? Eu sei que não é necessário que os filmes tenham música para produzirem o efeito desejado, aliás, pessoalmente preferia que todos eles fossem mudos, pois não teria que pôr no “mute” sempre que estiver alguém no quarto ao lado, mas será que a selecção da música não poderia ter um maior cuidado? Uma maior preocupação sobre o efeito produzido no espectador?

Enfim, muito fica ainda por descortinar. Consta que o transe e o tecno são óptimos ambientes para o acasalamento, mas sinceramente creio que nesses casos não é tanto a música que desperta seja o que for, mas sim o que geralmente acompanha a audição desses géneros. Outro campo interessante é o dos ritmos e danças africanas que contribuem em grande escala para que a simbiose entre sexo e música cresça exponencialmente, deixando óptimas perspectivas para outras divagações futuras sobre este assunto.

Gonçalo Sítima

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~ por hiddentrack.net em 29, Outubro, 2005.

 
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