A crítica é um lugar estranho

Isto há coisas do diabo.

Crítica é, segundo a Infopédia, um substantivo feminino que pode significar: arte de julgar uma obra de carácter intelectual, artístico ou literário; apreciação de uma criação intelectual, artística ou literária; julgamento; análise; conjunto das pessoas que exercem a actividade de crítico; juízo moral ou intelectual; acto de censurar; julgamento desfavorável.

Se quiserem investigar mais um pouco, poderão chegar a uma conclusão arrepiante: um dos sinónimos sugeridos para a palavra “apreciação” é “opinião”. Por mais assustador que isto possa parecer, sim, é verdade… são sinónimos. Acontece o mesmo quando alguém diz algo como “este tipo é mesmo estúpido!”; apesar de não haver nada que o faça prever, a anterior frase é uma hipotética opinião provinda de alguém que começou por se dar ao trabalho de ouvir palavras, observar comportamentos ou olhar simplesmente para a cara daquele que mais tarde viria a considerar estúpido.

Estando a primeira fase do processo concluída, urge iniciar a segunda: a da reflexão. Depois de recebidos os estímulos sensoriais, é necessário que os dados sejam enviados para o cérebro, onde são organizados e compilados, dando origem a informação. Este órgão fulcral do corpo humano procede então a um cruzamento de estímulos, utilizando para isso recursos como a memória, por exemplo, e à formulação de ideias que só o são quando lhes aplicamos um código linguístico – daí que para um recém-nascido seja complicado ter ideias. Geralmente, utilizamos a língua como código linguístico principal.

Após ponderada reflexão, segue-se o terceiro passo: o da verbalização (escrita e/ou oral). Este passo é o mais consciente e, simultaneamente, o mais perigoso neste processo complexo da opinião. É comum admitir que não há ninguém que consiga dominar perfeitamente (neste caso, este não é “apenas” um advérbio de modo aleatório) uma língua. Por isso, considera-se que a língua só é considerada como tal quando é falada por uma comunidade. Já agora, se for só uma pessoa a inventar palavras, isso não é considerado uma língua. Mas continuemos. A verbalização escrita ou oral é a concretização de todo o processo e, ao mesmo tempo, a parte visível da opinião.

Portanto, ao contrário do que muitos possam pensar, o senhor que diz “este tipo é mesmo estúpido!” não está a afirmar científica ou dogmaticamente que o outro senhor é estúpido; na verdade, está a dar uma opinião baseada nos estímulos que recebeu e no tratamento que o seu cérebro deu aos dados recebidos.

Agora que já consegui agarrar a vossa atenção, proponho debruçar-me sobre as críticas musicais como um dos expoentes da opinião.

É muito interessante como se dá importância à crítica (no sentido do conjunto de críticos) ao mesmo tempo que se a trata com desdém. Porque a crítica é importante como barómetro e como referência para o público consumidor de música. Porque a crítica é uma cambada de pretensiosos que pensa que tem um emprego. Pois bem, este paradoxo é simples de descodificar: “elogiem o que eu gosto e serão louvados”; “refiram a existência de um só único ponto negativo acerca do 55º álbum da minha vida e não respondo por mim.”

Como opinião que é, a crítica musical (no sentido da apreciação) tem uma certa tendência para não receber um feedback unânime. Ainda que isso faça impressão a muitas pessoas (nas quais me incluo, já que me parece lógico que todos pensem como eu porque o que penso é… lógico), é um fenómeno normal.

Em geral, gosto das críticas do Pitchfork. Na maioria dos casos, discordo profundamente do que dizem acerca de determinado álbum. Numa parte relevante dos casos, nem discordo do que dizem mas depois vejo a nota final e sinto-me estranho. A espaços, lá aparece uma ou outra críticas com as quais concordo em quase todos os aspectos (incluindo a nota). No entanto, é na escrita que reside a minha admiração pelas críticas daquele site. Para além de serem muito bem fundamentadas e de fornecerem bastante informação referente ao contexto, têm uma tendência para o humor que me agrada bastante. Mas dou uma vista de olhos em críticas de mais uma meia dúzia de jornais, revistas e sites.

No que diz respeito aos textos que escrevo, dificilmente são críticas no sentido quase mágico que lhes querem atribuir. Se esquecer uma série de termos e coisas do género, não sou propriamente uma pessoa que perceba a diferença entre um andamento lento e uma rápida sucessão de notas de um mesmo acorde (em vez de as fazer soar todas simultaneamente) como se estivesse a tocar harpa. Para além disto, não conheço assim tanta música. Muito pelo contrário. Por fim, e para simplificar este rol de motivos bastante razoáveis, este é um dos meus passatempos favoritos, uma responsabilidade que acolho com prazer… mas (e isto é importante) não é como se me pagassem para eu escrever. Portanto, caso não concordem com uma, duas ou todas as críticas que escrevi, aqui têm o argumento perfeito.

É na sequência desta temática que surgem os críticos das críticas. Esta segunda classe de críticos tem como móbil fazer uma apreciação da apreciação de outra pessoa. Este género de crítico é bastante bem visto pelo outro género de crítico, que tem, assim, motivos para sorrir ao fim de um extenuante dia de ócio. Geralmente, este género de crítico tende mais a apreciar críticas com as quais não concorda. Mais do que isso, pode até apreciar críticas a álbuns (no caso da música, obviamente) que nem sequer ouviu, desde que saiba que não vai concordar com a crítica. Há muitas pessoas que se dedicam a esta actividade a tempo inteiro a troco de dinheiro nenhum; só interessa o amor à música e ao artista, que tem de ser defendido da enorme calúnia que a – atentem, meus caros, atentem… – opinião do crítico parece suportar.

Afinal, nisto estamos todos de acordo. O que interessa numa crítica é a música e o artista… o que explica o facto de se comentar determinada crítica só pelo prazer da escrita. E viva a literatura também.

Finalmente, porque não perdermos algum tempo a pensarmos sobre este género literário emergente? Disposto a mudar o mundo, como tantos outros, este novo estilo parece ter vindo para ficar e só um pouco de Jameson conseguirá alterar o rumo da História. Pelo menos, por umas horas.

Mas isto é só a minha opinião.

Filipe Marques

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~ por hiddentrack.net em 11, Novembro, 2005.

 
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