Linda Martini ao vivo no bar Lounge

:: 18 de Novembro de 2005

Depois da quase metade de concerto do dia 13 de Outubro na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, os Linda Martini decidiram tentar novamente um concerto em Lisboa – o “primeiro”, segundo o baterista Hélio Morais. Confinados a cerca de sete ou oito metros quadrados, os cinco elementos da banda lá arranjaram espaço para colocarem amplificadores e instrumentos. Na sala deveriam estar umas 70 pessoas mas eu não sou bom nestes cálculos, por isso não tomem muita atenção ao número. De qualquer forma, a sala estava cheia, as guitarras tocavam nas pessoas da frente, a bateria estava encaixada junto à janela e havia pessoas a ver o concerto à chuva pelo lado de fora dessa mesma janela.

O concerto começou quase a horas – melhor do que isto seria quase impossível – e começou bem. Há qualquer coisa no ruído que o torna um óptimo ritual de iniciação a certo tipo de música. A música dos Linda Martini é apenas um exemplo. Eram três guitarras a experimentar barulhos que começaram a fundir-se com o início de “Este Mar”, tema inicial da promo homónima que a banda disponibiliza no seu site oficial e simultaneamente de Linda Martini EP, que tem lançamento previsto para Janeiro de 2006. Há qualquer coisa no crescendo inicial que prende imediatamente a atenção, seja pela comparação a um ou outro tema mais lento dos Isis, seja pela enorme descrição com que se entranha por debaixo da pele. “Este Mar” é calmo à superfície mas agitado à medida que mergulhamos mais profundamente. Lento e pesado, como deve ser.

O quinteto de Queluz estava decidido a mandar a casa abaixo e “Efémera” deu continuidade à inquietação sonora que já se fazia sentir. Sempre sem voz, sempre atestada de adrenalina e de uma qualquer perturbação mental. Manteve o peso e aumentou a velocidade para o dobro. Era altura de tirar o casaco e estar agradecido por não ter ficado à janela a abanar a cabeça ao som da chuva. De casaco na mão não se consegue bater palmas convenientemente. Resta então gritar “Yeah!” e “Uhuhuhuh” à maneira do pato Donaltim e desse grande monstro da televisão portuguesa, José Freixo, o seu manipulador. Mas a culpa não era minha. E também não queria passar por um daqueles tipos que assiste impávido e sereno a um concerto enquanto o tecto lhe cai asterixicamente na cabeça.

De volta ao móbil deste texto. À terceira, veio o fatídico tema; era aquele que determinava se a noite acabava ali ou se continuava até à última música. “A Severa” ficou a meio na Faculdade de Letras (acontecimento que levou a banda a prometer um concerto a começar no momento exacto onde aquele tinha sido interrompido por um quadro de electricidade de saúde duvidosa), exactamente antes da parte mais surpreendente da música: com bateria e… melódica. Ena. O resultado é sublime. Desde o início mais calmo – e com a voz como novidade na noite – até aos momentos mais cheios de raiva, “A Severa” apresenta-se como uma excelente mais-valia para o álbum de estreia da banda, com lançamento previsto para Abril do próximo ano.

Seguiu-se “Estuque”, a novidade que sobrou da noite do meio concerto por não se ter feito ouvir na escuridão pré-histórica de um quadro pouco preparado para tantos pedais. Agressiva e em jeito de antítese das vocalizações carpidas e sussurradas de André Henriques, é fruto da fórmula verificada na maioria dos temas que a banda apresenta… guitarras fortes e volatilidade rítmica em colisão directa com a voz e com os efeitos dos pedais. Pós-rock de ascendência punk devidamente autenticado.

Que o diga, se conseguir algum dia falar, o tema que se seguiu. É já sabido que será o single do EP. Sabia-se também que ia haver gravações de vídeo durante o concerto. “Amor Combate” não precisa de apresentação. Nunca a tinha ouvido ao vivo e não conseguirão sacar-me uma única palavra negativa acerca desta canção. Brilhante em todos os aspectos, levou o público ao previsível singalong na altura ideal – que é como quem diz, quando o microfone do vocalista ficou pendurado no tripé pelo fio durante uns segundos.

Agora já não me lembro bem mas terá sido por esta altura que um dos habituais seguidores do quinteto de Queluz – e vocalista dos If Lucy Fell – pediu a algumas pessoas para o lançarem para cima da pequena multidão (reforço o “umas 70 pessoas”) para que ele fizesse uma espécie de crowd surfing confuso. Ou talvez tenha sido já durante a “Dá-me a tua melhor faca”, cuja linha mestra dificilmente me sai da cabeça. “Dá-me a tua melhor faca para cortarmos isto em dois e amanhã esquecer” vai aparecendo, a espaços, entre as guitarras ruidosas. Visceral.

A fechar… “Lição de voo nº 1”, tema da promo e do EP que me estava a provocar imensa curiosidade. É o registo vocal lá mais para o fim. Aquela subida vertiginosa no fim é interessantíssima para avaliar capacidades reais. Ninguém esperava que ele encalhasse ao nível dos vocalistas dos Offspring ou dos Red Hot Chili Peppers. Admitia-se, no entanto, que fugisse de terrenos tão perigosos. Mas não. E esteve exímio. Quanto à música em si… bem, vai crescendo, crescendo, crescendo… primeiro guitarras, depois baixo e bateria… e depois tudo bem alto. Nesta altura, já há suor e barulho, muito barulho, a acompanhar.

Parece coincidência – talvez seja – que o concerto acabe da mesma forma que começou, ainda que no sentido inverso. Já se sabia que estava a terminar. No entanto, para quem não tivesse ouvido, a transformação lenta de “Lição de voo nº 1” em ruído de guitarras e baixo ao nível do chão foi a metáfora perfeita para que se ganhasse consciência de que aquele era, ao fim de apenas sete músicas, o final do concerto, de um concerto completo de uma das bandas mais interessantes do panorama nacional.

O alinhamento do concerto foi o seguinte:

“Este Mar”
“Efémera”
“A Severa”
“Estuque
“Amor Combate”
“Dá-me a tua melhor faca”
“Lição de voo nº 1”

Texto: Filipe Marques
Fotos: JP Almeida

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~ por hiddentrack.net em 18, Novembro, 2005.

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