O encadeamento alternativo

É um fenómeno relativamente generalizado. Foi na música que tomei contacto com ele mas a música é mesmo só um dos campos onde isso acontece. Nas artes, é gritante. No resto, é perfeitamente constatável mas não choca.

A música alternativa é vasta e o conceito surge em jeito de antagonismo ao de música mainstream. Ou seja, música que é alternativa a outra música. Assim, de um lado temos Madonna, Robbie Williams, Black Eyed Peas e Crazy Frog, entre muitos outros. E do outro temos senhores como Carlos Bica, Mark Eitzel e John Zorn. Bem, também estes são apenas uma pequena amostra retirada de um universo ainda maior do que o da música para as massas (para que não haja dúvidas, só me lembrei dos Depeche Mode depois de escrita a expressão).

E o que é que isto interessa, afinal? O fenómeno, meus caros, é interessante porque há uma espécie de escadaria da música. O princípio básico é o seguinte: quanto mais profundamente se mergulha na música alternativa, maior é a sensibilidade musical. Isto não é inteiramente verdade, é certo. Até porque me parece haver um vício associado à escalada da música alternativa: o de conhecer sempre mais, o de penetrar no desconhecido (salvo seja) e triunfar sobre a escuridão ao som de uma gargalhada demoníaca e vitoriosa.

Mas vamos por partes. Sensibilidade musical. Bem, o termo não é dos mais felizes mas, ainda assim, percebe-se que a subjectividade adjacente a qualquer arte traz alguma polémica a dogmas dignos de publicação em Diário da República.

Por vezes, interrogo-me se algumas das pessoas que conheço merecem realmente viver. Por exemplo, várias colegas minhas tiveram a desfaçatez de me dizer que não conheciam Blur. Quer se goste ou não, Blur é uma daquelas bandas que todos conhecem ou, pelo menos, já ouviram falar. Quer dizer, não duvido que conheçam umas duas ou três músicas deles. Mas, aparentemente, nunca ouviram falar. Eu reajo bastante mal a este tipo de comunicações a sangue-frio mas cá vou sobrevivendo. E elas também, infelizmente. No entanto, elas também são mais ou menos alternativas, de certa forma. Ou há alguém neste país que conheça Delta Goodrem?

Mas isto acontece um pouco em todos os níveis da tal escadaria. Já nem vou ter em conta os diferentes géneros musicais, obviamente. Senão, estaria aqui a falar de como é interessante conhecer-se relativamente bem Koma, The Mars Volta, Porcupine Tree, Jeff Buckley e Pink Floyd e nunca se ter ouvido falar de Elliott Smith, por exemplo. Mas não é disto que falo. É do momento a seguir. É daquela pergunta constante, “E já ouviste isto?”, e do conselho subsequente, “Tens de ouvir, pá!”, com justificações que apelam à compreensão de um fenómeno de grandeza superior à de uma qualquer entidade divina. Pois bem, quando chegarem ao ponto de dizerem aos vossos amigos algo como “Jackie-O Motherfucker é pop!”… meus caros, lamento mas estão condenados a um resto de vida cheio de incompreensão e de revolta.

Ainda ninguém me disse isto. Mas já estive mais longe de o ouvir. E de o dizer.

Filipe Marques

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~ por hiddentrack.net em 18, Novembro, 2005.

Uma resposta to “O encadeamento alternativo”

  1. […] justifico-me com o relativismo, com a bagagem de cada um. Como é óbvio, aliás. Há uns anos escrevi sobre este vício da descoberta, da novidade, que nos destrói e/ou nos torna nuns snobs. Enquanto a facção […]

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