Sigur Rós ao vivo no Coliseu dos Recreios

:: 20 de Novembro de 2005

O que é que faz um grande concerto? Com os bilhetes para Coliseu dos Recreios esgotados há já algumas semanas para receber os islandeses Sigur Rós, o ambiente estava mais do que criado. Faltava, portanto, a banda. Chegou o dia e depois a noite.

Às 21 horas em ponto, as luzes da sala apagaram-se e entraram em palco as Amina, as quatro mulheres responsáveis por alguns dos arranjos em ( ) (2002) e Takk… (2005), os dois últimos álbuns dos Sigur Rós. Todas passearam por diferentes partes do palco: ora estavam duas lá atrás com violoncelo e violino e outras duas cá à frente entretidas com instrumentos como um computador e quatro copos de água, ora nos aparecia uma delas destacada das outras na parte da frente do palco com um serrote e um arco… provocando sons e sensações familiares, entre o clássico-experimental e o simplesmente delicioso.

Foi assim durante cerca de 40 minutos mas só mesmo no fim é que as Amina, depois de um pequeno agradecimento e do lamento em jeito de divulgação acerca da perda em Paris dos CD’s (relativos ao EP AminaminA, editado este ano) que traziam para vender, conseguiram conquistar o público, que não lhes negou uma ovação aquando da sua saída de palco. Estou certo de que o serrote também contribuiu muito para as palmas, pelo menos a julgar pela estupefacção estampada nas caras de algumas pessoas perto de mim.

E fez-se luz na sala. Desceu o pano branco que iria marcar o início do concerto dos Sigur Rós e os roadies começaram a preparar o palco para a actuação do quarteto islandês.

Durante os minutos de intervalo, tive tempo para pensar acerca da forma idiota como a maioria dos portugueses utiliza a tecnologia, a saber: tirar muitas fotografias e fazer muitos vídeos e tirar ainda mais fotografias ao palco, aos amigos, ao tecto, aos roadies, ao chão e aos pés com o seu telemóvel de última geração. Na altura não pensei nisto mas a coisa conseguiu piorar quando, durante o concerto dos Sigur Rós, foi possível ouvir telemóveis tocar. Ora, quem é que, no seu perfeito juízo, compra bilhete para um concerto e falha uma coisa tão importante como tirar o som ao telemóvel!? Sim, talvez esteja a exagerar… ou então não. Cerca de meio minuto de silêncio com um “pi pi, pi pi” pelo meio, mais risos e aplausos. Adoro o público português, definitivamente.

Enfim, ao que interessa. Apagam-se as luzes e o pano branco deixa ver vultos e instrumentos. Começa a ouvir-se Takk… pelo princípio, como deve ser… acabando no início de “Glósóli”, o primeiro single do álbum. Poderosa, muito poderosa. Durante o tempo todo da música, a banda tocou com o pano a separá-la do público. Depois da primeira rendição geral e da primeira grande ovação da noite, o pano subiu e a banda prosseguiu.

A primeira visita a álbuns anteriores aconteceu logo à segunda música, com “Ný Batterí”, tema de Ágætis Byrjun (1999). Tensa como poucos no mundo maravilhoso dos Sigur Rós, esta canção, com ligeiras (e naturais) alterações relativamente à versão de estúdio, provocou no público um entusiasmo nervoso. Regressaram as Amina e o palco encheu-se de música.

Seguiu-se outra canção de Takk…, “Sæglópur”, e o quarto tema de ( ), comummente conhecido como “Njósnavélin” – não posso evitar dizer que esta “canção do nada” é uma das minhas favoritas -, que trouxe entranhado na sua melodia um sublime sopro calmante que ajudou a superar o resto do concerto sem que um qualquer ataque cardíaco manchasse uma noite histórica.

Ao mesmo tempo, foi nesta altura que comecei a perder o fio à meada. Sei que “Gong” e a sua outra metade “Andvari” me chegaram aos ouvidos transportadas por violinos, guitarra, sintetizadores e bateria, todos executados na perfeição. Seguiu-se “Hoppípolla”, o novo single retirado de Takk…, que o piano introduziu brilhantemente em crescendo de instrumentalização, com bateria, baixo, guitarras, cordas e voz a juntarem-se para nos proporcionarem mais um grande momento.

Foi em “Olsen Olsen” que vi que Kjartan Sveinsson é realmente um músico multifacetado. Em álbum é sempre diferente e um conceito algo longínquo mas no momento, lá mais para o meio da canção, em que pegou na flauta e começou a tocar… enfim! Por um lado, tem uma melodia sedutora e fascinante e, por outro lado, é sinfónica e megalómana. Um binómio bem ao jeito de Ágætis Byrjun. Os Sigur Rós mantiveram Ágætis Byrjun a rodar mais um bocado com a grandiosa “Viðrar vel til Loftárása” (com uns segundos de silêncio dolorosamente violados) e nada mais se ouviu do saudoso álbum da banda islandesa.

Ainda não fiz referência à voz de Jónsi Birgisson. Talvez estivesse a guardá-la para um dos grandes momentos da noite: “Svo Hljótt” – so quietly. Foi impossível manter os olhos fixados no palco. Lentamente, fui baixando a cabeça e fechando os olhos. Tudo soou melhor e a voz aguda de Jónsi foi entrando e adormecendo os meus sentidos, preparando meticulosamente a apoteose de um refrão que se introduz directamente nas veias. Certo é que a canção só acabou no fim de “Heysátan”… e descansou. Perfeita.

Para a parte final do concerto, antes do encore, ficou ainda a exuberante “Hafssól”, escrita há mais de 10 anos e editada em Von (1997). A música tem evoluído em concerto nos últimos anos e é, hoje em dia, um tema longe do quase ambiental que a viu nascer. Conseguirão identificá-la pela forma como Georg Hólm toca baixo – com uma baqueta. O efeito é indescritível.

Por fim, “Popplagið”: o épico momento no tempo que pareceu demorar apenas uma fracção de segundo. Pode dizer-se que o encore não correu na perfeição. O pano branco tentou descer novamente. Por duas vezes, não conseguiu. Esqueça-se isto. Recorde-se o fantástico ambiente criado em torno de um dos temas mais fortes da banda islandesa. Emocionante, tristíssima e, ainda assim, a canção pop. Talvez seja mesmo. A guitarra dedilhada lentamente em notas graves e a voz volátil, prestes a fugir a qualquer momento, de Jónsi… e depois tudo muda. A bateria ganha um ênfase raramente vezes visto no som dos Sigur Rós e tudo vai crescendo. Cresce a voz triste, cresce o nervoso, o baixo (tocado com palheta) e…. tudo explode finalmente num soltar fantástico de emoções e suor e adrenalina.

Com metade da bateria deitada no chão e a banda fora de palco, todos sabiam que tinha acabado. Restava aplaudir e ovacionar sentidamente. Os Sigur Rós e as Amina voltaram e agradeceram. Repetiram o acto uns minutos depois, enquanto o aplauso generalizado unia o público do Coliseu dos Recreios. No pano de fundo, podia ler-se Takk…

Obrigado eu.

O alinhamento do concerto foi o seguinte:

“Intro”
“Glósóli”
“Ny Batterí”
“Sæglópur”
“Njósnavélin”
“Gong”
“Andvari”
“Hoppípola”
“Með Blóðnasir”
“Olsen Olsen”
“Viðrar vel til Loftárása”
“Svo Hljótt”
“Heysátan”
“Hafssól”
“Popplagið”

Filipe Marques

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~ por hiddentrack.net em 20, Novembro, 2005.

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