Uma analogia forçada

Nos últimos tempos, tenho perdido algum tempo a pensar nos media. Seja por causa das aulas ou de tudo o resto, a minha mente tem sido invadida por teorias existentes e inexistentes, umas assumidamente claras, outras dignas dos melhores livros sobre conspiração… um pouco de tudo. Mas já lá vamos.

Outra coisa que me tem tirado algum tempo livre é a canção pop dos Sigur Rós. Foi com “Popplagið” que os islandeses fecharam os concertos de Porto e Lisboa há uns dias atrás. Curiosamente, nunca tinha perdido muito tempo com esta canção. Ou melhor, como surge numa posição interessante do álbum – é a última faixa de ( ) (2002) – foi talvez a principal vítima de um desinteresse provocado por eventuais faltas de disposição para ouvir Sigur Rós. Há também a hipótese de ser vítima do computador. Ou seja, é possível que o facto de ouvir música enquanto escrevo, navego na Internet, vejo o e-mail e tudo o resto prejudique a minha atenção. Não é novidade mas é, ainda assim, relativamente grave.

Desde que conheço o álbum que gosto muito da “Nkósnavélin”. É uma das que mais gosto dos Sigur Rós. E é estupidamente boa. Já agora, é a quarta canção de ( ). Será que cheguei à quarta canção e pus no modo repeat? Sim. Terá isso prejudicado a minha audição do resto do álbum? A resposta é óbvia: sim.

Então porquê tanta surpresa minha? É que, mesmo depois da fase repeat e de ter ouvido o álbum de uma ponta à outra uma meia dúzia de vezes, continuei a não tomar muita atenção. Não se pode dizer que não gostasse, até porque, no momento em que a banda começou a tocar a música no concerto, me virei para um colega e disse algo como “esta é muito porreira” e depois fiquei ali durante mais de dez minutos a assistir a um dos finais de concertos mais emocionantes da História. E vim para casa a pensar na música. E tenho andado a semana toda a pensar na música. E, basicamente, tenho andado a semana toda a ouvi-la.

O facto de ser a oitava não a ajudou. Num álbum cuja canção mais pequena dura 6 minutos e 33 segundos, ser a mais longa e ser antecedida pela segunda mais longa não me deixa uma tarefa fácil. Sobretudo – aqui está a lógica – em frente ao computador. Músicas grandes e minimalistas não são os melhores exemplos de música pop. Ao fim da sétima canção, já se está mais concentrado na anti-notícia sobre o marido da Britney Spears do que nos detalhes belos e exóticos da música de um quarteto islandês cujo vocalista canta numa língua imaginária que, se bem me parece, só tem uma frase.

É por isto que gosto de parte do processo de escrever críticas musicais. Porque, ao contrário do que Miguel Esteves Cardoso advoga, tem de se ouvir o álbum para se poder escrever. E isso leva-nos a reparar em coisas que só a exclusividade nos dá.

E é aqui que retorno à minha obsessão com os media. No ano passado, lembro-me de ter feito um trabalho sobre a teoria experimental dos meios de comunicação de massas, que surgiu na década de 1940 como resposta a uma outra teoria: a hipodérmica. Assim muito por alto, esta teoria experimental entende o processo comunicativo como uma relação entre estímulo e resposta. Assim, em vez de se dizer que uma determinada acção afecta um indivíduo de uma determinada forma, passa a ter-se em conta a possibilidade de diferentes indivíduos reagirem a um mesmo estímulo de formas díspares. O que é que pesa? As características intrínsecas ao indivíduo receptor e as circunstâncias sociais.

E o que é que isto interessa? É que esta teoria se debruça sobre o fenómeno da recepção de mensagens por parte das audiências. Há diversos factores, a saber (ou não): credibilidade do comunicador, a ordem da argumentação, a integralidade das argumentações e a explicitação das conclusões.

É sobre a ordem da argumentação que tenho andado a pensar nos últimos dois dias. Este factor relativo às audiências diz que a posição em que o argumento surge é importante para que a mensagem seja persuasiva. Fala-se de efeito primacy (maior eficácia nos argumentos iniciais) e de efeito recensy (os argumentos finais são mais influentes; tenta criar nos receptores algo que facilite a memorização).

Repito a pergunta: o que é que isto interessa, afinal? É complicado ter duas coisas distintas a invadir os terrenos mais profundos da minha mente e ficar impassível. Assim, efeitos primacy e recensy invadiram o espaço da “Popplagið” e vice-versa. Quase fico surpreendido por conseguir discernir uma linha lógica de pensamento nesta conversa toda.

Não é novidade: grande parte dos concertos a que vamos começam e acabam muito bem, com as melhores, as preferidas, as mais emocionantes. Mas e os álbuns? Lembro-me de ter lido um dia que os Radiohead acabavam sempre os seus álbuns com uma música emocionante, espectacular, uma espécie de late highlight. Efeito recensy bem visível. Concordei.

Especificamente no caso de ( ), dos Sigur Rós, há algo que me prende às quatro músicas iniciais – a parte tristemente “doce” do álbum. Estou certo de que é involuntário mas é impossível não ficar agarrado àqueles conjuntos específicos de sons. E isso está bem perto de ter o efeito primacy a ter consequências. A segunda parte, no entanto, porque é mais negra, mais grave, acaba por retirar aquele encanto cheio de estrelinhas e tudo o resto muito brilhante, transforma a fada em bruxa e mantém a tristeza. E é “Álafoss” que introduz esta escuridão toda, que sofre um abalo em “E-Bow” mas que é perpetuada em “Dauðalagið” (que, já agora, em Português, significa canção da morte).

Mas o que é aquele ligeiro laivo de esperança? Aquela guitarra sozinha a começar, aquela quase doçura a fazer lembrar a primeira parte do álbum… o que é? Já disse várias vezes o nome que lhe deram. É a oitava, aquela – e isto é um jogo de palavras ridículo – que fecha os parêntesis.

Gosto da ideia de “Popplagið” fazer uso bem sucedido do efeito recensy. Talvez nem seja bem assim. Afinal, de entre os fãs dos Sigur Rós, estou certo de que haverá alguns que não gostam daquele final barulhento e caótico, o supra-sumo dos “crescendos islandeses”. Bem, não serão muitos, certamente. E também não devem ser muitos os que não ganham uma vontade incontrolável de voltar ao início – do álbum, da música – após um momento a sós com esta canção pop.

Filipe Marques

 

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~ por hiddentrack.net em 25, Novembro, 2005.

 
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