Natal, trânsito, “árvores” e outros problemas do nosso tempo

Começou oficialmente a época mais perturbante do ano. Estamos em Dezembro e o Natal está a apenas uns dias de distância. Milhões de pequenas lâmpadas iluminam as cidades por esse mundo fora e aqui a praia lusitana tem direito, uma vez mais, à maior “árvore” de Natal da Europa. Todos compreenderão que aquilo não é de todo uma árvore real. E estou igualmente certo de que muito poucos olham para aquele amontoado de ferro e cabos e lâmpadas e luzes e focos de luz dignos de um qualquer bar de praia de Vila Nova de Milfontes e pensam “olha, uma árvore”. A romaria dá-me cabo dos nervos porque as noites de fim-de-semana se tornam (ainda mais) caóticas na Baixa de Lisboa. Destaco o facto das pessoas não abrandarem simplesmente o andamento para ver a pretensa árvore. A verdade é que há realmente pessoas que se dirigem lá exclusivamente para a olharem de perto. E páram! De resto, relativamente ao ano passado, as coisas até estão bastante melhores: este ano o Rossio não é prejudicial aos epilépticos.

Mas o verdadeiro drama que nos assola está nas grandes superfícies comerciais. Não falo daqueles que se preparam para gastar milhares de euros em compras, até porque estes são provavelmente os mesmos que se dirigem à Praça do Comércio para ver a “árvore” de Natal – portanto, se morrerem enterrados em dívidas talvez tenham de vender os automóveis. Assim, o trânsito será bastante mais fluido nas noites de Novembro e Dezembro de 2006. E a TVI fica com mais histórias revoltantemente comoventes e adequadas à quadra. Para além disso, os empresários que tenham instituições de crédito poderão chorar de alegria. Assim, ficamos todos contentes.

Mas afinal qual é o problema com as grandes superfícies comerciais? Bem, dada a fraca afluência que a grande maioria das grandes cadeias tem durante as primeiras três semanas de Dezembro – quando comparada com a afluência dos dias 22, 23 e 24 – há uma certa necessidade de captar a atenção dos que, enquanto estão parados a ver a “árvore”, quando sentem um pingo na cabeça, correm para os automóveis e pensam: “tenho de correr para o centro comercial mais próximo!”

E o que é que acontece quando as pessoas entram no centro comercial? Do nada, surge um canto estranho e hipnótico que as leva até à grande loja de CDs e DVDs do respectivo centro comercial. O marketing agressivo destas cadeias aposta em música adequada à quadra, aumentando violentamente o volume em canções interpretadas por Céline Dion, Barbra Streisand e Mariah Carey. As pessoas ficam, assim, imbuídas de um espírito natalício-consumista que lhes faz levitar o cartão de crédito da carteira. Como é óbvio, ninguém compra nada. Ainda! Isto é, quem é que, no seu perfeito juízo, faz as compras de Natal mais de três semanas antes da meia-noite fatídica? Pois, mas a verdade é que a sessão de hipnotismo resulta mesmo, sobretudo se a exposição for superior a 17 minutos. Por outro lado, a aposta em vozes conceituadas faz com que as pessoas, numa fase inicial, fujam aterrorizadas mas também com que voltem mais tarde para mostrar aos filhos os efeitos malignos do consumo de estupefacientes.

Só não resulta na totalidade porque há, por vezes, campanhas de solidariedade associadas. Como no ano passado, por exemplo, quando aquela gente toda do Reino Unido refez a épica “Do They Know It’s Christmas?”… Ainda que em Portugal não tenha resultado – quem é que compra um CD single? – vendeu muito bem no resto da Europa, aparentemente. Resulta melhor se tiver o selo da TVI ou da SIC Esperança. E o Noddy, para que os miúdos consigam finalmente dominar o mundo.

Mas de qualquer forma, estes fenómenos são todos pedaços minúsculos de uma vida desinteressante quando comparados com a maravilhosa “árvore” de Natal que ilumina o meu, o nosso coração. Pelo menos até Janeiro, Lisboa é a capital internacional do freak show. Venham as mulheres barbudas!

Filipe Marques

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~ por hiddentrack.net em 2, Dezembro, 2005.

 
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