Estudo de Caso: A Ausência

Nesta minha segunda incursão pelo devaneio literário direccionado para a música, reservado aqui neste pequeno canto (e que fique registado que se mudarmos o design do site esta frase é capaz de deixar de fazer sentido), vou tentar abordar analiticamente a ausência. Não, não vou falar da ausência do Ruído de Fundo, pois isso envolveria trolls noruegueses, médicas espanholas com crises de identidade e, claro está, meia dúzia de ideias inúteis que achei por bem, e por respeito a vós leitores, guardar só para mim. Falo antes da ausência de determinadas bandas em editar novo material, seja ele em formato de longa duração, EP, colaborações ou colectâneas mágicas de solidariedade social.

Como as causas concretas que resultam na ausência, mais ou menos prolongada, de uma banda são de generalização improvável e de enumeração cansativa, vou pegar num exemplo concreto que me é familiar para que possa demonstrar alguns argumentos. Assim sendo, observemos uma das bandas que mais peca por tardar em editar álbuns: os Tool.

Antes de mais, devo confessar publicamente o minha longa e extensa simpatia por esta banda. Estes tipos são, mais que quaisquer outros, aqueles que conseguem produzir a amálgama de melodias e sons que mais me atingem e me fazem despertar sinapses. É precisamente daqui que advém a minha fermentada frustração por ter de esperar, em média, entre quatro a cinco anos para ouvir uma nova música de Tool.

Para aqueles que não acompanham a banda aqui fica a informação discográfica e biográfica: em 1992 é editado o EP Opiate e no ano seguinte o primeiro álbum, Undertow. Passados três anos e uma mudança de baixista, sai Ænima. Até aqui tudo normal, este é o percurso normal e esperado de lançamentos de qualquer banda que tenta singrar na indústria musical. Ænima foi considerado um dos melhores álbuns alguma vez concebidos e acolheu largos elogios em 1996 e nos anos seguintes (reparem como me baseio na crítica musical e não na minha opinião moldada emocionalmente). Entretanto a banda adquire uma dimensão colossal, efectuando digressões mundiais, e gera-se um verdadeiro culto à sua volta. Os anos passam, metem-se alguns problemas contratuais com a editora, o vocalista Maynard James Keenan cria um projecto lateral com um rapaz chamado Billy Howerdell e surgem os A Perfect Circle, e o sucessor de Ænima tarda em ver a luz do dia. Pairam as suspeitas que a banda irá terminar e a frustração começa a crescer gradualmente.

Fazendo o ponto da situação, podem já retirar-se dois problemas que poderão causar a interrupção excessiva na carreira de uma banda: problemas burocráticos e legais, na maior parte dos casos entre os artistas e as editoras; e a criação de projectos paralelos, pelos membros da banda, que conseguem ter propagação e adesão do público consumidor.

A primeira causa é bastante recorrente e de grave importância, pois na base desta problemática está, nas mais das vezes, certas cláusulas enevoadas no contrato assinado quando a banda não era mais que “uns quantos rapazes com instrumentos que queriam pôr qualquer coisa cá fora para o pessoal ouvir”. É do estado naíve em que muitas bandas e artistas se encontram no início de carreira que muitas das editoras conseguem retirar gordos lucros e injustos benefícios. Estas situações surgem através da existência de determinadas cláusulas contratuais que conseguem ir além do período de duração do contrato, pois incidem sobre o trabalho realizado durante esse período e que se perpétua infindavelmente.

A segunda, é relativamente mais difícil de se suceder, até porque são raros os projectos criados à margem de uma ou mais bandas matriciais e preponderantes que superam essas mesmas bandas. Se o projecto “pega”, como aconteceu com os A Perfect Circle, então as coisas complicam-se para ambos os lados. Após um álbum bem sucedido vem sempre uma digressão de alguns meses por todo o planeta e quando acaba essa digressão começa a falar-se do álbum seguinte, e assim por diante. Multipliquem isto por dois e perceberão a razão pela qual tenham sido cinco os anos a separar Ænima do terceiro álbum dos Tool.

Adicione-se, ainda, o tempo provável e lógico para criar oitenta minutos de música extremamente complexa e para desenvolver toda a concepção de um álbum cuja intenção não é, de todo, simplesmente satisfazer os fãs (aliás, se assim fosse, seria ineficaz). De referir que, perante a impaciência palpável do seu grupo de seguidores atentos, os Tool decidem lançar em 2000 Salival, uma caixa de edição limitada com um CD de músicas ao vivo e alguns inéditos e um DVD com todos os videclips da banda até então. O próprio nome do lançamento é sintomático do que se passava: já se salivava por algo novo dos Tool.

Em 2001 vem então o novo álbum, Lateralus. O seu conteúdo não deixou ninguém indiferente e, mais uma vez, a crítica foi unânime em elegê-lo como um dos melhores lançamentos desse ano, culminando com a atribuição de um Grammy ao quarteto norte-americano. Nas letras de Lateralus era possível descortinar-se este clima de ansiedade que se gerou entre os dois álbuns. Maynard Keenan fala de possíveis separações e enfraquecimento de laços em “Schism” e, numa mensagem característica e mais que directa aos fãs e à indústria discográfica em geral, pergunta em “Ticks And Leeches”: “Is this what you wanted? Is this what you had in mind? Is this what you wanted? Because this is what you’re getting.”.

Saciada a sede, chegamos até ao presente momento: 6 de Dezembro de 2005 e ainda não saiu nada de novo dos Tool desde 2001. Claro que durante esse ano e durante 2002 a banda andou numa digressão constante, passando mesmo por Portugal, e que os seus membros, nos mais variados projectos, foram lançando alguns trabalhos: A Perfect Circle lançou o segundo álbum e esteve mais uns meses na estrada, Danny Carey juntou-se aos Pigmy Love Circus e editou o álbum The Power Of Beef e Justin Chancellor agrupou-se com a sua antiga banda, os agora denominados Suns Of Tundra (ex-Peach), e lançou o álbum de estreia no ano passado. Mais umas participações individuais aqui e ali, e nada de novo surge do colectivo composto pelos quatro músicos (junte-se Adam Jones que permanece “incontactável”). Sim, actualmente os Tool já se encontram a gravar o novo álbum, mas na melhor das hipóteses será editado no verão do próximo ano, fazendo com que a distância entre dois álbuns seja novamente de cinco anos!

Ora bem, como no rock (termo geral) uma banda é capaz de viver pouco mais de quinze anos, tirando algumas excepções conhecidas de todos, será que os Tool, ou qualquer outra banda, se podem dar ao luxo de deixar passar tanto tempo entre a edição de álbuns? Não serão dois álbuns em dez anos um perfeito desperdício de tempo útil para se lançarem mais músicas, para se criar um maior reportório, um maior legado?    Será que uma banda ao constituir um determinado número de admiradores fiéis e leais, pode afastar qualquer pressão sobre si própria de criação de novo material? Ou seja, poderão os Tool simplesmente refastelarem-se numa espreguiçadeira até se lembrarem de fazer um novo álbum? O mercado estará lá, à espera e sedento. Mas o mesmo não acontece com a maioria das bandas que vêem cada vez mais o mercado estreitar-se, as vendas decrescerem e a concorrência aumentar. Bem, pode-se sempre argumentar que se não têm lugar no mercado é porque não têm qualidade suficiente para existirem, mas este é um argumento facilmente refutado por vários exemplos de bandas boas e que simplesmente desaparecem nas prateleiras das lojas ou nos cestos de “dumping” das megastores de música.

Mas não confundam esta indagação com uma vontade pessoal de ter as bandas a “cagar” álbuns todos os anos só para satisfazer o mercado dos “altamente consumíveis” (ou serão combustíveis!?), falo apenas de um ritmo regular de novas criações, novas edições que permitam que os fãs não desesperem e que a banda não se sature. Este não é mais que um apelo ao bom senso das bandas.

Espero que esta dissertação não tenha sido demasiado centrada nos Tool e que consigam, de alguma forma, aplicar alguns destes argumentos à vossa frustração pessoal. A verdade é que o panorama musical está povoado por milhares de bandas capazes de nos agradar, de se esgueirarem sorrateiramente até ao ouvido e impelir-nos a comprar o álbum, mas só meia dúzia conseguem fazer despertar um genuíno interesse e uma incontrolável vontade de estar informado e actualizado.

Permitam-me que finalize sugerindo a audição da terceira faixa de Lateralus e que centrem especial atenção aos cinco minutos exactos: “be patient.” Eu serei… que remédio.

Gonçalo Sítima

 

Anúncios

~ por hiddentrack.net em 6, Dezembro, 2005.

 
%d bloggers like this: