Qualude – Qualude

Existem álbuns que nos chegam às mãos de forma imprevisível, num simples “toma lá que és capaz de gostar” ou “ouve estes tipos que vêm cá tocar para a semana.” E assim se sucedeu com o primeiro e único álbum, homónimo, dos espanhóis Qualude. Este quarteto formado por Miguel C. (baixo e voz), David A. (guitarra e trompete), Marcos M. (bateria e piano) e Trini T. (voz) era-me completamente desconhecido e, suponho, que também o seja para a maioria de vós.

O álbum vem resguardado por uma capa de cartão rugoso pintado a aguarelas cinzentas e os créditos, alinhamento e agradecimentos feitos em caligrafia descuidada e banal. O grafismo semelhante a outros trabalhos de editoras como a Constelation Records, fez-me antecipar a audição das cinco faixas do álbum, assim como me suscitou alguma expectativa de encontrar semelhanças com bandas da referida editora. Não me enganei.

O som dos Qualude pode ser catalogado como um pós-rock flutuante, semelhante ao dos Flint, Shipping News ou até Mogwai. Porém, após alguns minutos adentro de “Averno Y Olas”, a primeira faixa, depreendem-se alguns dos elementos que os demarcam dos outros: o trompete de David A. surge descontrolado e agitado, Trini barafusta indignada e a bateria entra num ritmo nervoso e repetitivo. A música dos Qualude consegue, assim, assumir uma dimensão verdadeiramente cinematográfica.

“La Fair Es El Air” devolve-nos o normalizado estado de espírito do pós-rock, composto por uma melodia de piano calma que se desenvolve até à entrada da bateria e das guitarras crescentes. Trini surge de novo nesta faixa, mas, infelizmente, fá-lo cantando. Apesar de distante, a sua voz é bastante irritante e débil, sendo quase desconfortável ouvi-la por cima da parte instrumental. O ponto mais negativo de todo o álbum e que quase o compromete por completo, mas não exageremos, a música dos Qualude é maioritariamente instrumental.

Este é um álbum capaz de provocar diferentes estados de espírito, de utilizar, em forma de aguarela, os diferentes elementos musicais que o compõem, sendo o jazz a cor mais forte e preponderante. Prosseguindo no alinhamento, “Red Swing Calote’s Song” tende para o rock de ritmo acelerado, como “La Belle Etoile” para o jazz leve de fazer estalar os dedos e abanar a cabeça.

O encerro, com “The Night Before”, porém, traz-nos um ambiente inquietante pela mão de um piano abafado e dramático que por vezes entra em devaneio. Vozes esporádicas e ambientes soturnos despedem-se com algum peso, alguma tristeza. É o fim, de facto.

Sem ser um grande álbum, a primeira obra dos Qualude não envergonha ninguém. Foi uma agradável surpresa conhecê-los, principalmente devido à escassez de bandas dentro do género que existe na Península Ibérica. Os elementos jazz e o cosmopolitismo (utilização do castelhano, inglês e francês) fazem acrescer o agrado com que se recebe os Qualude, tornando-os numa banda a ter em conta caso consiga cruzar-se no nosso caminho novamente.

7/10 | Gonçalo Sítima

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~ por hiddentrack.net em 10, Dezembro, 2005.

 
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