Kayo Dot – Dowsing Anemone With Copper Tongue

Dowsing Anemone With Copper Tongue. É um título estranho, de facto. Ainda que estranho, não deixa de ser sugestivo e cativante, mesmo que nos escape a tradução em todos os dicionários possíveis. E sem designação também fica muitas vezes a música que constrói este mesmo álbum de nome estranho. Deixam-se apenas as ondas sonoras movimentarem-se até nós e recriar todo um cenário nas traseiras do nosso intelecto. É o truque.

Três anos decorridos após a edição do belíssimo Choirs Of The Eye (2003), os Kayo Dot oferecem-nos com um trabalho em muito semelhante ao seu antecessor, sobretudo no que toca à beleza e singularidade dos temas que o compõem.

No entanto, ninguém diria que a primeira faixa de Dowsing Anemone With Copper Tongue havia de roçar por instantes o enervante. “Gemini Becoming The Tripod” inicia-se num caudal sinfónico que desagua num embate entre sons em despique para depois se desvanecer calmamente. É quando a presença vocal se faz notar que “Gemini Becoming The Tripod” sofre o seu abalo. Não foi o arrastamento vibrante das palavras que massacrou a faixa, foi a insistência com que tal foi feito. Lamentavelmente, não funcionou. Para salvação do tema, ao oitavo minuto, há um despertar e um crescendo de energia e electricidade instrumental que fazem de “Gemini Becoming The Tripod” uma boa abertura, apesar da falha.

“Imortelle And Paper Caravelle” não quebra o molde que os Kayo Dot haviam construído em Choirs Of The Eye. Esta é uma composição bonita, em tudo o que a palavra bonita comporta em si. Da combinação de elementos que no decorrer da faixa deixam a respiração presa, à melodia vocal meio ‘spoken-word’ que nos recordam “A Pitcher Of Summer”, “Imortelle And Paper Caravelle” proporciona os primeiros arrepios de Dowsing Anemone With Copper Tongue. Resultam na perfeição os ruídos interestelares e a proximidade vertiginosa daquilo que poderia ser uma canção de embalar e que abrem portas a um corrupio de cordas absolutamente fantástico.

O ponto médio (numericamente falando) do álbum é em tudo surpreendente. “Aura On An Asylum” traz os sopros em destaque, quando estes pareciam estar condenados às sombras. A quase agressividade pouco comum nos Kayo Dot conduz o tema a um final apocalíptico e desconcertante. Sem espaço para hesitação, a estrela de Dowsing Anemone With Copper Tongue é esta.

“__ On Limpid Form” é uma daquelas músicas que mostra o que a banda faz, é um reflexo do que se passou em Choirs Of The Eye e do que se vê neste trabalho. A duração exagerada do tema deixa em suspenso quem ouve, à espera de um desenrolar inesperado, mas à parte daquilo que soa aparentemente como alguns caixotes de lata num bailado meio psicótico, “__ On Limpid Form” (não obstante os seus 18 minutos) não revela pormenores exactamente especiais. Excepção seja feita aos primeiros minutos do tema, de uma melancolia e musicalidade tristes mas confortáveis, que deixavam no ar suspeitas de maior intensidade, mas desvanecem com o desencadear do tema.

O início tão irrepreensível quanto pouco apreensível de “Amaranth The Peddler” sugere um ranger de portas entre a melodia que se assume. Superando as cordas presentes, a voz é o que mais brilha nesta faixa. O modo como flutua e desliza enquanto está presente poder-se-ia dizer perfeita. Uma das melhores composições dos Kayo Dot, cabe-lhe com toda a justiça o privilégio de ser o último tema de Dowsing Anemone With Copper Tongue, uma espécie de brinde para os que não abandonaram a escuta a meio. Numa palavra, genial.

E termina indistintamente, ao longe, quando no vosso leitor se completar uma hora e dezasseis segundos.

8/10 | Susana Jaulino

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~ por hiddentrack.net em 15, Janeiro, 2006.

 
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