Entrevista com Blood Safari

À mesa do bar que fica em frente à Zé dos Bois, debaixo de um ambiente sonoro nada contextual, leia-se, música brasileira, a conversa com Victor Torpedo começa com a diferenciação entre os Blood Safari e os infames e defuntos Parkinsons. Segundo o próprio Victor “os Parkinsons eram algo directo, agressivo e frontal, uma verdadeira hate machine; por sua vez, os Blood Safari são mais subtis, mais trabalhados e pensados.” O músico emigrante fala ainda de como neste novo projecto utiliza preferencialmente o sentido metafórico das letras e da própria estética que acompanha a banda para retratar temas habituais do punk e do rock: “Por exemplo, se disser que aquele presidente é um filho da puta, isto é fácil e evidente, todos o conseguem ver; mas se o representar como um monstro acabado de sair da cova a mensagem mantém-se de uma forma mais refinada. É essa a intenção dos Blood Safari, distinguirem-se de outras bandas que optam por uma abordagem mais directa e simplista.”

“Inicialmente os Blood Safari eram um projecto paralelo aos Parkinsons, uma forma de desenvolver aquilo que criava na guitarra em velocidade torpedo (por alguma razão tenho esse nome), riffs que não achava adequados para os Parkinsons. Mas não foi possível conjugar as duas bandas, porque o baterista de Parkinsons estava envolvido com outras bandas e as coisas estagnaram. Chegámos a um ponto onde não éramos suficientemente grandes para termos muito sucesso, nem suficientemente pequenos para poder tocar em locais como a ZdB, o nosso management não o permitia. Ficou fora das nossas mãos e isso contribuiu para que os Parkinsons terminassem e partíssemos para outra. O fim dos Parkinsons coincide inteiramente com o início dos Blood Safari, não houve qualquer interrupção.”

Victor Torpedo considera que os Blood Safari são uma banda inglesa, apesar dos seus membros se dividirem em igual parte no que diz respeito à origem geográfica. Foi em Inglaterra que a banda nasceu. O vocalista Charlie Fink, resgatado da reforma após a dissolução dos Penthouse, foi uma das principais causas do aparecimento dos Blood Safari, segundo nos elucidou Victor: “Se não conseguisse encontrar uma voz verdadeiramente boa, os Blood Safari não existiriam, e o Charlie encaixou perfeitamente. O gajo já não queria cantar mais. Tinha rejeitado convites de outras bandas mas como já o conheço há alguns anos, consegui convencê-lo. E depois do primeiro ensaio, já não queria outra coisa.”

Experimentação e liberdade criativa foram alguns dos termos que surgiram durante a conversa à medida que Victor Torpedo nos tentava introduzir a essência dos Blood Safari, que não era mais que o seu desejo de se renovar e reinventar enquanto músico. “Blood Safari é diferente. Há maior abertura. Tanto posso fazer uma balada, como um instrumental. E como não tenho a minha voz como limite mas sim a do Charlie, que tem maior amplitude, podem fazer-se mais coisas.” Mas nem sempre tudo correu como planeado e exemplo disso foi a intenção inicial de ter dois bateristas: “No princípio a começámos a ensaiar com duas baterias, o Glenn e o baterista de Parkinsons, para criar aquela cena mais tribal. Mas não foi possível, os dois tocavam demasiado e não se conseguiu conjugar a dupla presença nas músicas.”

O primeiro lançamento da banda foi um vinil com três músicas através da Rastilho, um formato escolhido naturalmente pela banda: “Vinil por nenhuma razão em especial. É um formato comum em Londres. Passo música em bares e clubes e tudo o que passo é em vinil. Lá encontra-se tudo à venda em vinil. E como foi assim que gravámos a maqueta, ficou assim.” E porquê a Rastilho? “Estamos com a Rastilho porque são pessoas honestas, directas, apostam no do it yourself. É uma dinâmica diferente, mais produtiva. O Pedro tem sido excelente. Ele lembrou-se de fazer umas t-shirts, fê-las e depois ligou-me a perguntar se não havia problema, estás a ver? Ele faz as cenas em vez de adiar, como é típico dos portugueses. Apesar de ser uma editora pequena nós não ligámos muito a isso. Podíamos assinar com uma Valentim de Carvalho, mas para quê? Vendíamos o mesmo, tínhamos o mesmo sucesso. Ter uma mordomia ou outra a mais é completamente dispensável.”

“Ainda não existem planos para um álbum, mas existem planos para entrarmos em gravação. Vamos ver como é, dependendo do que conseguirmos facturar nesta digressão. Temos já várias músicas, as suficientes para fazer um álbum à vontade.” A primeira actuação da banda remonta a Maio de 2005; a banda estreou-se em palcos portugueses no passado mês de Fevereiro. Uma estreia entre conhecidos pela qual a banda ansiava há já alguns meses. A organização dos concertos em Portugal foi feita pelo próprio Victor Torpedo que explica que “nesta digressão eu é que tratei de tudo e trouxe a banda inglesa (Monkey Island) porque quis mostrá-los ao pessoal. Mas sou eu que lhes estou a pagar e vou tentar cobrir essas despesas com o que facturarmos na digressão. Mas fui eu que escolhi fazê-lo. Fui eu que telefonei para os sítios todos e marquei as datas. Podia fazer isto com outros tipos e dar-lhes, o quê, 50 por cento? Mas para quê? Assim temos mais controlo, levamos a nossa música ao público e mostramos bandas inglesas de que gostamos.”

A viagem de Victor Torpedo para terras de Sua Majestade deveu-se em muito ao explosivo êxito que conseguiu com os Parkinsons: “Não estava nada a espera do sucesso e da exposição que os Parkinsons tiveram. Demos um concerto com seis músicas mal ensaiadas e o pessoal curtiu completamente e depois foram concertos atrás de concertos. Foi de tal forma, que nem tínhamos tempo para ensaiar. Os concertos eram os nossos ensaios. Demos um concerto em Inglaterra e foi uma explosão completa, assinámos logo pelo management dos Suede – completamente inesperado. Sei que não vou ter o sucesso que tive com os Parkinsons com qualquer outra banda que crie no futuro. Impossível mesmo.”

Impôs-se, portanto, a pertinência de saber, afinal, em que difere Portugal de Inglaterra e qual o resultado do sucesso dos Parkinsons: “Em Londres existe muita concorrência. É como se fossem duas guerras: Portugal é o Iraque e Londres é o Vietname. Numa quarta-feira à noite existem milhares de concertos, aqui no ZdB devem aparecer num dia destes o quê? Dez pessoas? Quando consegues destacar-te em Londres é fenomenal, porque é mesmo muito difícil. Toda a gente tem uma banda. E nisso os Parkinsons foram surpreendentes. Nós colocámos Portugal no mapa. Fomos bastante importantes em destruir aquela imagem do português emigrante e rude com a mercearia. O pessoal lá teve um contacto com a cultura juvenil portuguesa e viu que as coisas não eram assim. Nós chegámos a um ponto onde entrávamos de borla nos concertos, pagavam-nos coisas, etc. E existem muitas bandas de lá a quererem vir tocar a Portugal, e muito disso deve-se a nós e à mudança que levámos para lá. Lembro-me de um concerto que demos no Porto-Rio, no dia do Porto-Chelsea em que estavam montes de ingleses no concerto e eles já tinham a referência dos Parkinsons trazida de Inglaterra. E nem eram fãs de rock nem nada.”

Depois de anos dedicados ao rock, à intervenção e à contestação irreverente através de guitarras e outros instrumentos, ainda será necessário fazer-se punk? Poderá alguma vez haver outros Clash? Outros Sex Pistols? “Vão sempre existir motivos para se fazer punk. Problemas sociais, desemprego, corrupção… O punk, para mim, não se restringe a tocar uma ou duas notas, ou a ter uma atitude agressiva, tem mais a ver com liberdade musical, liberdade de expressão. Mas não voltará a existir nenhuma banda que consiga seguir o exemplo dos Clash e dos Sex Pistols e que tenham o sucesso que estes tiveram. Eles são o resultado de uma época que já passou, um contexto social único.”

Olhando para o nosso umbigo armilar e para o nosso rol de bandas de rock com sucesso comercial, foi inevitável falar-se dos Xutos e Pontapés. “Os Xutos ao início tinham aquela cena de seguir os Clash, aquela onda militarista com roupas com balas e não sei quê, mas depois, após o Circo de Feras mais ou menos, atingiram o topo e pare se manterem lá fizeram música de merda, claro. Foi a escolha deles, há que respeitar. Os Ramones, por exemplo, nos últimos dez anos não se falavam nem nada. Era tocar por tocar, por profissionalismo.” Conseguiria Victor fazer algo semelhante? A história responde-nos: “Sempre fiz bandas com os meus amigos. Aliás, que me lembre em toda a minha vida estive numa banda, nunca estive parado. E talvez seja por isso que alguns dos projectos não tenham resultado. Por exemplo, nos Tédio Boys, uma banda que tenho mesmo no coração, que foi muito importante para mim, éramos todos amigos e exigíamos muito uns dos outros. E chegou a um ponto onde não deu mais.” Expectativas relativamente ao futuro da banda? “Estou muito relaxado. Há muita segurança.” Cá estaremos para ver, então.

Filipe Marques e Gonçalo Sítima

fevereiro.2006

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~ por hiddentrack.net em 15, Fevereiro, 2006.

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