Fiona Apple – Extraordinary Machine

Em Julho de 1996, aquando do lançamento de Tidal, o seu álbum de estreia, Fiona Apple tinha apenas 18 anos. Digamos que este, apesar de não ser uma obra-prima da música moderna, estava longe de ser um álbum mau. “Criminal”, um dos singles retirados desse álbum, valeu um Grammy a Fiona Apple em 1997 e não parece ter sido injusto. A surpresa, no entanto, mantinha-se: era apenas uma miúda e tinha mesmo jeito para aquilo. Em 1999, When the Pawn Hits the Conflicts He Thinks Like a King What He Knows Throws the Blows When He Goes to the Fight and He’ll Win the Whole Thing ‘Fore He Enters the Ring There’s No Body to Batter When Your Mind Is Your Might So When You Go Solo, You Hold Your Own Hand and Remember That Depth Is the Greatest of Heights and if You Know Where You Stand, Then You Know Where to Land and if You Fall It Won’t Matter, ‘Cuz You’ll Know That You’re Right – caraças! – veio confirmar um talento inestimável que conseguiu entrar na liga de cantautoras como Joni Mitchell e Tori Amos.

E a partir de 2002 estala a polémica relativamente ao terceiro – este – álbum de Fiona Apple. Segundo consta, a artista não estava contente com o trabalho feito conjuntamente com o produtor Jon Brion e o álbum ficou por acabar. As músicas acabaram por ir parar à Internet, o que só ajudou ao crescimento do culto em torno da nova-iorquina.

Os apelos para um lançamento do álbum resultaram num esforço por parte de Fiona Apple para terminar o álbum. Aproveitou algum do material que já estava disponível na Internet e compôs mais alguns temas, apoiando-se na produção de Mike Elizondo e em 2005 – seis anos depois – chegou Extraordinary Machine.

Valeu a pena esperar? Claro. E basta ouvir o tema de abertura, que empresta o título ao álbum, para perceber porquê. Extraordinary Machine é um daqueles álbuns que se entranha nos ouvidos à primeira audição. O vício pode durar semanas, meses ou umas sete vidas.

Todos sabem que a música de Fiona Apple é sofisticada e feita com um bom gosto inatacável. E a voz dela, grave durante a maior parte do tempo, é apaixonante. Filho do incongruente género denominado de pop alternativa, este álbum distingue-se do resto pela sua eloquência e relativa megalomania. Sopros, cordas – com o auge em “Waltz (Better Than Fine)”, tema que encerra o álbum –, tudo em grande.

E a maturidade que surpreendeu aquando de Tidal é agora a mais natural das características de Fiona Apple. Continua a cantar o amor e as desavenças e continua a fazê-lo da mais sublime das formas: com letras mais complexas e interessantes do que grande parte das dos que a imitam e, acima de tudo, com muito flair (ando obcecado por esta palavra). “Tymps (The Sick in the Head Song)” e “Window” são bons exemplos do que seis anos entre álbuns podem fazer a alguém.

O estilo jazzy com laivos de blues da instrumentalização só ajuda a fazer de Extraordinary Machine um álbum ainda mais intenso. Senão veja-se o single “O’ Sailor” ou “Better Version of Me”.

E depois há momentos mais crus: “Parting Gift”, que recorre apenas ao piano e à voz de Fiona Apple para brilhar, e “Red Red Red”, dolorosa, crescente e extremamente bela.

É realmente complicado apontar defeitos a Extraordinary Machine. No fim, só apetece ouvir de novo. Do mais complexo dos arranjos até aos versos mais simples – “My peace and quiet was stolen from me / When I was looking with calm affection, You were searching out my imperfections / What wasted unconditional love / On somebody who doesn’t believe in the stuff” – este é um dos álbuns mais belos que já ouvi.

Oh well.

9/10 | Filipe Marques

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~ por hiddentrack.net em 19, Fevereiro, 2006.

 
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