The Streets – The Hardest Way to Make an Easy Living

thestreets-agranddontcomeforfreeA fama é aliciante. Não há quem o negue. Mas para a alcançar tem que se pagar muitas vezes um preço muito elevado. É disso mesmo que fala a nova obra de Mike Skinner como The Streets.

Quem esperaria que um puto rebelde como Mike Skinner, atento como um leão à sua presa a tudo o que se passa à sua volta, lançaria em 2002 um disco que é já um marco na história – Original Pirate Material – e quem não o reconhecer só pode ser cego, surdo e mudo. Musicalmente nascido do UK garage e grime, foi das coisas mais originais que apareceram, e ser original nos tempos de hoje é cada vez mais raro. Cortou e colou estilos, fundiu-os, tornou-os todos num só, com uma nova vida, como se tivesse acabado de nos chegar aos ouvidos. Mas a história não ficaria por aqui. Mike Skinner é bom demais para se ficar por um disco e em 2004 lançou o conceptual e ainda mais genial A Grand Don’t Come for Free.

Neste contexto é natural que se espere este e o outro mundo do projecto de Skinner. Com o segundo álbum de originais o músico saiu das ruelas do underground e atingiu o mainstream. Agora, como já muito se disse por aí, está a viver a ressaca dessa fama.

Em The Hardest Way To Make Na Easy Living Mike Skinner retrata com o seu estilo peculiar que nos obriga a fazer-lhe uma vénia tudo o que o sucesso arrasta consigo. Excessos de droga, tendências suicidas, casos de violência, problemas fiscais, etc, são muitos dos assuntos que Mike Skinner traz à baila neste terceiro disco de originais.

Nos anteriores registos Skinner relatava nas suas canções com a perspicácia e frontalidade já conhecidas a realidade que o cercava, o quotidiano urbano cada vez mais frustrante, os amores e desamores dum jovem londrino que passa a vida nos pubs e a comer hambúrgueres. E ninguém como ele retratou tão bem a realidade.

Agora o mundo que o cerca é diferente, é o mundo da fama, das máscaras, dos excessos e, mais uma vez, Mike Skinner não desilude. O humor refinado de Skinner é constante e é mais uma das suas características que nos fazem apreciar tanto o seu trabalho, como quando no fabuloso single de estreia “When You Wasn’t Famous” diz: “How the hell am I supposed to be able to do a line in front of complete strangers/ When I know they’ve all got cameras?”.

Além do mundo dos famosos, ainda tem tempo para fazer uma canção dedicada ao pai falecido após a edição de A Grand Don’t Come For Free – “Never Went to Church” – ou de dar umas valentes porradas aos EUA e a toda a sua presunção em “Two Nations”.

Musicalmente Mike Skinner vai seguindo as mesmas pegadas do passado, repleto de sintetizadores sujos, ambientes densos ou descontraídos, fusões entre hip hop, drum’n’bass, electrónicas, aproximações ao dancehall (em “War of the Sexes”), conjuntos de sopros muito funky, ou de cordas que podem ser épicas ou nem tanto, pianos em tom de balada, e tudo o mais.

The Hardest Way to Make An Easy Living, apesar de não ser genial como os seus antecessores (é muito, muito raro – se não mesmo impossível – alguém que consiga fazer três obras-primas, quanto mais de seguida), vem provar que Mike Skinner com o seu projecto The Streets é já um dos maiores escritores de canções com berço em terras de Sua Majestade.

8/10 | João Moço

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~ por hiddentrack.net em 14, Abril, 2006.

 
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