Tool – 10,000 Days

tool-10000daysOs Tool regressam em 2006 com um novo álbum intitulado 10,000 Days, nome que, muitos poderão achar, parece descrever precisamente o tempo que separa cada lançamento da banda norte-americana. A antecipação era muita e os Tool, geralmente, correspondem convenientemente. Após algumas audições denota-se que em vez de progredirem exponencialmente nas suas composições, criando um disco que fosse um claro (e previsível) passo em frente, os Tool fizeram uma espécie de revolução nostálgica. Assim se explicam os vários momentos “déjà écouté” que vão surgindo nas diversas faixas e assim se explica a experimentação vocal de Maynard James Keenan, os novos adereços na guitarra de Adam Jones e na bateria de Danny Carey e na distinta progressão técnica de Justin Chancellor.

Antes de colocarmos o CD a rodar na aparelhagem, há que apreciar a luxuosa e original embalagem que os Tool nos oferecem. Em conjugação com Alex Grey, pintor e artista plástico que já tinha criado o artwork de Lateralus (2001), os Tool mergulham-nos na estereoscopia. Para quem desconhece, esta técnica consiste em criar uma imagem com efeito tridimensional através da junção óptica de duas imagens semelhantes. Para que seja mais fácil a sua implementação, os Tool incorporaram no embalagem de 10,000 Days duas lentes estereoscópicas que permitem visualizar correctamente o folheto. Esta é uma experiência fascinante e que potencia o prazer que se retira de 10,000 Days enquanto uma obra artística de corpo, alma e espírito.

O primeiro single retirado do álbum é, simultaneamente, a sua faixa introdutória. “Vicarious” é directa e contundente, possivelmente como nunca os Tool foram nos seus trabalhos anteriores. A letra é despida de artifícios, como que para impedir desvios de interpretação, e move-se pelo sentimento de “schadenfreude”, isto é, o relativo prazer sádico que se retira ao assistir ao sofrimento alheio. Mordaz e cáustico, Maynard critica a posição cómoda e perversa do telespectador actual e do seu constante interesse vampiresco por histórias dramáticas e trágicas. Instrumentalmente, “Vicarious” traz ainda os restos de Lateralus (2001) consigo. Na bateria começam a notar-se alguns dos novos elementos de 10,000 Days, através da utilização de tempos pouco convencionais e de inspiração polirítmica – resultado esperado após a confraternização dos Tool com os suecos Meshuggah e do interesse de Danny Carey por percussão oriental.

Seguindo o trilho rítmico imprevisível chegamos até “Jambi”, a composição onde esta qualidade mais se evidencia. Um breakdown musculado, um solo de guitarra filtrado por uma “talk box” e riffs de “piquetagem” deslizante são as suas características principais. Apesar de paradigmática da nova fase dos Tool, “Jambi” limita-se a ficar num limbo de tensão e antecipação por algo que nunca surge verdadeiramente.

“Wings for Marie (Pt 1)” e “10,000 Days (Wings Pt 2)” constituem uma composição só, de magnitude épica. A particularidade da divisão incide sobre a forma como Maynard canta. Em “Wings For Marie (Pt 1)” a sua voz soa tão grave como se de um monge budista se tratasse e antecipa o tom de elogio fúnebre e tributo que se segue. É aqui que o título do álbum é explicado: dez mil dias correspondem a cerca de 27 anos, o exacto preíodo de tempo que a falecida mãe de Maynard passou numa cadeira de rodas após sofrer um aneurisma. A letra é uma ode de despedida: “Ten thousand days in the fire is long enough, you’re going home.”
No processo de composição das suas músicas, os Tool fazem com que a parte instrumental anteceda sempre a parte lírica. As palavras e melodias construídas por Maynard são extensões e complementos do trabalho efectuado pelos restantes três elementos. Nesta música, esse processo é por demais evidente. Emocionalmente devastadora, “10,000 Days (Wings P.2)” circula entre tempestades (cedidas por Lustmord), ascensões angelicais e o pleno término do ciclo de vida. Mais do que tudo, esta é uma música sobre amor – tanto na sua dimensão umbilical, como religiosa. São raras as músicas capazes de penetrar desta forma no espírito humano.

A música seguinte surge como que uma compressa emocional e faz regressar os Tool da época de Ænima (1996): sarcásticos, humorísticos e aludindo à utilização de drogas. “The Pot” tem um sabor a grunge revivalista, um baixo possante até ao limite e uma letra crítica e politicamente corrosiva. O início, no entanto, irá soar estranho aos seguidores do trabalho de Maynard. Apenas ligeiramente mais aguda, a sua voz aparece perfeitamente transfigurada e traz-nos à memória “Opiate”, comprovando que a génese da banda não se perdeu com o passar dos anos.

“Lipan Conjuring” é uma faixa de intervalo, um pequeno momento de contemplação. Seguindo as práticas da tribo nativo-americana Apache Lipan, é entoado um cântico de ponderação e perspectivação da vida. É o meio do álbum. Respiremos e prossigamos.

Albert Hofmann, inventor da droga alucinogénica L.S.D., celebrou em Janeiro deste ano o seu centésimo aniversário. Facto útil para compreender os próximos minutos de 10,000 Days.

A introdução é feita por “Lost Keys (Blame Hofmann)”, onde num diálogo clínico um médico procura estabelecer contacto com um paciente para o poder ajudar. Com uma melodia que não cativa completamente e algo extensa em duração, esta faixa consegue ser, contudo, eficaz no seu propósito: a preparação necessária antes de entrar em “Rosetta Stoned”. O título já é sugestivo de que algo estranho e enigmático se irá passar nos próximos minutos e o início da música é um autêntico murro no estômago. Maynard inicia o seu relato à velocidade de disparos de metralhadora, cuspindo palavras distorcidas em todos os sentidos de forma alucinada. Raptos alienígenas, revelações messiânicas e ataques de amnésia nada convenientes povoam “Rosetta Stoned”. A dada altura, as guitarras trazem-nos reminiscências de músicas passadsa, como “H.” ou “Third Eye”, mas o embalo não deixa dúvidas, estamos em 10,000 Days. Se esta faixa vos incomodar ou inquieatar, já sabem, a culpa é do Hofmann.

O final do álbum surge de forma mais descontraída. “Intension” plana serenamente enquanto a bateria de Danny se transfigura electronicamente e “Right In Two” encerra oficialmente as canções de 10,000 Days, já que “Viginti Três” não é mais que cinco minutos obscuros e ambientais de frequências ondulantes. “Right In Two” é uma música sólida e de melodias fortes, tanto a nível vocal como instrumental. Danny Carey é mais uma vez o elemento que mais se salienta, oferecendo-nos uma interpretação formidável de percussão. Alguns irão reconhecer as semelhanças deste trecho com a versão ao vivo de “Pushit”, presente em Salival (2000). Mais um dos momentos de nostalgia transfigurada.

Apesar da sua elevada qualidade, 10,000 Days não será um álbum consensual. O mais acérrimo dos seguidores dos Tool tanto poderá adorar as novas composições e os novos elementos que contém, como poderá achá-las redundantes, repetitivas ou demasiado incaracterísticas. Mas os Tool sempre fizeram música primeiramente para eles próprios, não para quem espera por eles. É na atitude do ouvinte que 10,000 Days conseguirá encontrar o seu devido lugar. Se permitirem, como eu o fiz, esse lugar poderá ficar reservado a este álbum durante milhares de dias.

9/10 | Gonçalo Sítima

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~ por hiddentrack.net em 2, Maio, 2006.

Uma resposta to “Tool – 10,000 Days”

  1. […] como eu o fiz, esse lugar poderá ficar reservado a este álbum durante milhares de dias. (ver crítica) • […]

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