Pearl Jam – Ten

Nascido e celebrado inicialmente na cena musical da cidade norte-americana de Seattle, onde reinavam durante a segunda metade dos anos 80 bandas como os Green River (anterior banda de Stone Gossard e Jeff Ament) e os Mudhoney, o grunge só se tornou um fenómeno mainstream à escala global em 1991. E o que é que aconteceu em 1991? Em Agosto, Ten. Em Setembro, Nevermind. A obra-prima dos Nirvana destrancou a porta. O álbum de estreia dos Pearl Jam abriu-a. Esta analogia pouco conseguida serve somente para dar a conhecer o que todos sabem já: Ten é um dos álbuns mais importantes do grunge como movimento cultural e um dos grande símbolos da música norte-americana dos anos 90.

A partir daqui é mais difícil. O som dos Pearl Jam é reconhecido a quilómetros de distância, seja pelas melodias cuidadosas disfarçadas pelo som agressivo das guitarras, seja pela voz bastante identificável de Eddie Vedder. Quem não conhece temas como “Even Flow”, “Alive” ou “Black” só pode vir parar aqui por mero acaso. Parte-se do princípio que não.

Associado comummente a estados depressivos, o grunge aqui é algo mais elaborado e complexo. As letras de Vedder dividem-se em duas classes: a dos apontamentos pessoais e a das pequenas histórias. A crítica social está sempre presente e é parcialmente graças a esta vertente da música dos Pearl Jam (e de outras bandas da época) que o movimento de contra-cultura que surgiu na primeira metade da década de 90 ganhou tanta importância. Para além da insubordinação, há um significado profundo, um protesto. “Porch” é um exemplo paradigmático. Começa assim: “What the fuck is this world running to?”

À medida que os anos passam, este tende cada vez mais a ser um álbum difícil de separar de todo o movimento a que está associado. O seu valor musical é, no entanto, incontestável. A música é cerebral, ainda que a voz de Eddie Vedder nos leve a pensar que não. Em vez de se limitar à repetição de riffs, os temas são preenchidos por pequenos (e grandes) solos de guitarra que dão a cada momento uma marca única. Para além disso, o som das guitarras tem sempre uma textura muito rugosa e imperfeita. Típico, pois. Mas muito rico. Ouça-se “Why Go”, por exemplo.

Pode dizer-se rudemente que há temas mais agressivos e outros mais calmos. Estou certo de que esta característica já deve ter sido apontada uns milhares de vezes. Por um lado, “Once”, “Even Flow” e “Porch”, por exemplo, atacam forte nas guitarras distorcidas e na bateria enraivecida. Por outro, temas como a genial “Black”, “Jeremy” ou “Release” apresentam-se mais cuidadosos, por entre dedilhares e dormências. Faces diferentes de uma mesma moeda. Não tão diferentes quanto possa parecer; mas complementares, sem dúvida.

Lugar-comum: Ten é um álbum seminal. Muito mais importante do que a obra completa de milhares de bandas no geral, este é um documento inevitável no estudo do grunge como género musical e movimento de contra-cultura. Mais do que simplesmente música, é símbolo da ideologia de toda uma geração.

9/10 | Filipe Marques

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~ por hiddentrack.net em 3, Maio, 2006.

 
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