Inkisição – 1988-1995

Maniqueisticamente, há duas formas antagónicas de encarar este disco: por um lado, como legado de uma banda muito importante do punk/hardcore português do final dos anos 80 e início dos anos 90; por outro, como um conjunto de temas que, musicalmente, é de qualidade duvidosa, e que tem como único ponto forte o facto de ser composto por canções de pequena duração. É claro que é possível fundir ambas as vertentes e deixar sair palavras de cortesia… mas isso não seria propriamente maniqueísta.

Os Inkisição foram uma banda realmente importante da cena underground nacional. Com uma atitude assumida e inevitavelmente punk, esta banda terminou em 1995 devido à morte de dois dos seus membros. Deixaram por editar muito material gravado em diversos sítios do mundo (entre músicas gravadas ao vivo e mais umas quantas em sessões de estúdio) mas a Rastilho mexeu-se e conseguiu convencer o baterista Rui Maia e os vocalistas Miguel e Lena a envolverem-se neste projecto. O resto é um conjunto de trinta canções (com algumas de outras bandas – Arrghh! e Mentes Podres, que têm na sua formação membros dos Inkisição – da cena de Aveiro lá mais para o fim do disco) barulhentas e energéticas.

Esta compilação será certamente importante para os que seguiram atentamente o trabalho da banda. Para os que, como eu, não o fizeram, há duas hipóteses: ou consomem música punk, ou não.

Se vivem numa casa okupada ou se os Sex Pistols são mais importantes do que as vossas mães, então este é um álbum imperdível. É punk português com todos os defeitos e virtudes que isso possa carregar. Grita-se contra a burocracia – que é “monopólio da falta de imaginação” – e chama-se a atenção para o seguinte facto: “os meus vizinhos odeiam-me”. É rápido e agressivo e repetitivo. E novidades, tem? No que diz respeito à música propriamente dita, não. Quem se importa?

Os que, como eu, não são propriamente consumidores afoitos de música punk não vão adorar este trabalho. Nem gostar. Nem nada. De forma muito cínica, pode dizer-se que, quando o vocalista Miguel tenta cantar em inglês, é inevitável sorrir perante tão má dicção. Mas isto não é propriamente novidade em Portugal. De resto – e continuando com a perspectiva cínica – a crítica social alterna entre um rudimentar manhoso e a abordagem de temas mais ou menos interessantes. E depois temos músicas como “Foge Que Te Fôdo” e “The Fascist Inside Me”… que, pelos títulos, já deviam dar direito a Grammy.

Ironias à parte, apesar de falta de diversidade e todas as outras coisas, há algumas melodias relativamente interessantes – ainda que o mais importante não seja, em muitos casos, a música – e isso revela algum tacto.

1988-1995 é um bom apontamento histórico e tem a grande vantagem de conter muitos temas inéditos e várias versões ao vivo. Será certamente interessante para os que recordam com saudosismo o trabalho dos Inkisição. Quem não conhece a banda nem se interessa pelo fenómeno punk pode muito bem ignorar este álbum e seguir a sua vidinha. Por fim, para os que não conhecem a banda mas que se interessam pelo fenómeno, 1988-1995 tem alguns momentos interessantes. Vale a pena espreitar. No entanto, não vale a pena ir para além disso.

4/10 | Filipe Marques

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~ por hiddentrack.net em 10, Maio, 2006.

 
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