12º Super Bock Super Rock XL, Act I

:: 25 de Maio de 2006

PRIMITIVE REASON

Coube aos portugueses Primitive Reason iniciar o segundo dia do Act I do Super Bock Super Rock XL. Habituados a marcar presença em festivais de Verão, os Primitive Reason não podiam sentir-se mais à vontade que nas condições que lhes eram oferecidas. Se no ano passado ocuparam o palco secundário da Quinta dos Portugueses, este ano foi-lhes reservado lugar no palco principal. E eles aproveitaram-no bem.

O seu alinhamento apostou no ambiente deste segundo dia de concertos e privilegiaram as suas composições mais energéticas e ruidosas, sem esquecer, claro está, temas como “Hipócrita” que causam verdadeiros tumultos entre o público. Apesar das condições de som não serem as ideais (os restantes concertos revelaram-se com uma profusão sonora bem mais sólida e estável), foi possível aos Primitive Reason entregarem uma electrizante actuação que passou por temas como “White Tree”, “Shadow Man” ou “The Day Will Come”.

Os habituais elementos tribais estiveram presentes, assim como a amálgama de géneros que se estenderam do metal, punk até ao ska e reggae. Um bom início de dia e a comprovação que os Primitive Reason continuam a ser das bandas mais interessantes do panorama alternativo nacional.

Alinhamento: “White Tree”, “Pictures In The Wall”, “The Day Will Come”, “Shadow Man”, “Kindian”, “The Mind”, “Wanea”, “Dinero”, “Devil in June”, “Sold Out”, “Hipócrita”, “Eat My Bush”. (incompleto).

Gonçalo Sítima

ALICE IN CHAINS

Depois de tanto tempo e quando se esperava que nunca mais se pudesse ouvir de novo uma das bandas “old school” do eterno grunge, nesta edição do Super Bock Super Rock eles regressam em grande. Foi um dos melhores concertos do 2º dia do I Acto. O guitarrista Jerry Cantrell, o baixista Mike Inez e o baterista Sean Kinney tiveram como vocalista William Duvall, guitarrista e vocalista de Comes With The Fall. É certo que nunca será o mesmo que um concerto com Layne Staley, não se podem sequer tecer comparações. Os fiéis seguidores da carreira dos Alice In Chains sabem-no mas a verdade é que este William Duvall portou-se surpreendentemente bem conseguindo cativar o público mais desconfiado e até mais desatento.

Quando se começa a ouvir o início da “Man In The Box” julgo que todos os presentes ou a grande maioria julgava que William iria dar a vez e o microfone a Maynard James Keenan dos Tool (que iriam actuar como cabeças de cartaz mais à frente no mesmo dia) uma vez que já aconteceu anteriormente. Especulou-se muito, inlcusive, à volta da escolha de quem seria o vocalista de ontem chegando mesmo a apontar-se para Maynard e outros nomes que como Wes Scantlin dos Puddle Of Mudd, ambos já tinham partilhado o palco com os membros sobreviventes dos Alice In Chains mas Keenan estava fora do campo de possibilidades dado que iria actuar com a sua banda mais tarde.

Contudo, para muitos de nós que lá pudemos estar a assistir a esperança de que ele saísse para cantar a “Man In The Box” e a “Them Bones” manteve-se. “Again” foi magnífica. O público entoou a letra com uma força incrível. De qualquer modo, é de congratular a prestação de William Duvall que se mostrou estar claramente à altura tanto nessas duas músicas mais ‘sujas’ dentro da herança que os Alice In Chains têm, como também nas mais emotivas e calmas como foi o caso de “Down In A Hole”.

À medida que as músicas foram acontecendo o público entrou em sintonia chegando mesmo a acompanhar William nas letras. Foi de algum modo um prestar de homenagem a Layne e foi também indubitavelmente um concerto memorável e tão depressa não sairá da cabeça de muitos dos que estiveram presentes no recinto. Desde que Layne faleceu, os Alice In Chains só reuniram em palco uma vez e foi em Fevereiro de 2005 em Seattle aquando dos concertos de ajuda às vítimas do tsunami. Vai ser muito difícil de esquecer este concerto até mesmo para aqueles que sofrem de falhas de memória. E, meus amigos, é caso para dizer, o grunge não está morto. Não está.

Alinhamento: “Rain When I Die”, “Dam That River”, “We Die Young”, “Them Bones”, “It Ain’t Like That”, “Again”, “Junkhead”, “Down In A Hole”, “Rooster”, “Would?”, “Angry Chair”, “Man In The Box”.

Maria Rocha

DEFTONES

Os Deftones não são nenhuns estranhos para o público português e pode-se mesmo dizer que já existe uma certa cumplicidade entre a banda de Chino Moreno e as gentes de Portugal. De festivais a coliseus, vários foram os locais onde os Deftones puderam demonstrar a sua música no decorrer dos últimos anos.

Prestes a lançar um novo trabalho, os Deftones apresentaram-se no palco principal do Super Bock Super Rock XL com bastante energia e um alinhamento capaz de agradar a qualquer fã da banda, principalmente pelo apanhado bem conseguido das músicas mais populares e da inclusão de algumas faixas novas e outras inesperadas.

“Korea”, “My Own Summer (Shove It), “Bloody Cape” e algumas faixas do álbum de estreia Adrenaline (1995) marcaram os momentos mais ruidosos e violentos do concerto, tendo o público correspondido convenientemente com um mosh generalizado.

“Beware Of The Water” um dos momentos de repouso, foi uma das novas faixas apresentadas, mas pouco poderá indicar sobre a natureza do sucessor do álbum homónimo de 2004. A banda tem referido em entrevistas que o novo trabalho será mais pesado, elemento que não esteve de qualquer forma presente na brandura de “Beware Of The Water”. Continuando na toada serena, o cover de Sade, “No Ordinary Love”, foi uma simpática surpresa e uma lufada de ar fresco naquele princípio de noite quente.

Ao partilharem o cartaz com Maynard James Keenan, dos Tool, esperava-se que a banda conseguisse interpretar “Passenger” na sua forma original em White Pony (2000), mas este desejo não se concretizou e coube a Chino Moreno o lugar solitário de vocalista nesta faixa. Foi uma pena, pois o próprio Moreno não esteve particularmente funcional, a sua voz atraiçoou-o por variadíssimas vezes no decorrer do concerto, e em “Passenger” isso foi por demais evidente.

Os Deftones são uma boa banda ao vivo, capaz de interagir muito bem com o público e de instigar que se salte e empurre e cante durante mais de uma hora. Mas em palco nem tudo correu na perfeição o que fez diminuir o proveito da actuação da banda. Ainda assim, o saldo foi positivo.

Alinhamento: “Korea”, “Feiticeira”, “Beware Of The Water”, “My Own Summer (Shove It)”, “Be Quiet And Drive”, “Passenger”, “Change”, “When Girls Telephone Boys”, “Hexagram”, “Bloody Cape”, “Engine nº9”, “Birthmark”, “Nosebleed”, “No Ordinary Love”, “Can’t Even Breathe”, “7 Words “, “Root”.

Gonçalo Sítima

PLACEBO

Os Placebo foram a terceira banda a actuar no palco principal, depois da actuação dos X-Wife no palco Quinta dos Portugueses. Precedidos pelos Deftones, cabia aos Placebo aquecerem o lugar para a actuação mais que aguardada dos Tool. Entre o público também eram muitos os que já guardavam lugar para o último concerto da noite.

O trio inaugurou o concerto com o tema “Infra-red”, do último álbum Meds. Seguiram-se “Meds” e “Drag”. Parecia que os Palcebo estavam mais interessados em debitar os melhores temas do seu último trabalho sem dar espaço a grandes conversas, excepção para os agradecimentos de sempre (e até esses pareciam tirados a ferros). Brian Molko pareceu sempre demasiado controlado, apagado e pouco extravagante. A última falha foi colmatada pelo baixista Stefan Olsdal, mais presente e mais interactivo, sobressaiu mais do que Molko. Uma marca da maturidade, da sobriedade, talvez.

A sequência de “Come home”, “Post blue” e “Black eyed” foi provavelmente a que mais despertou o público meio adormecido e foi também o (único) momento em que houve de facto um intercâmbio de energias entre a banda e o público. “Twenty years” acabou por se tornar na maior quebra de dinâmica durante o concerto, dado que a banda optou por um extenso final instrumental, que (a avaliar pelas expressões em volta) roçou o entediante.

Já em descontos, os Placebo encerraram o seu regresso a Lisboa com a excelente escolha do par “Taste in men” e “Nancy boy”. Ficou a sensação de que com alinhamento mediano que a banda apresentou ainda havia fôlego para mais.

Alinhamento: “Infra-red”, “Meds”, “Drag”, “Space Monkey”, “Come Home”, “Post Blue”, “Black Eyed”, “Song To Say Goodbye”, “Every You Every Me”, “One Of A Kind”, “Special K”, “The Bitter End”, “Twenty Years”, “Taste In Men”, “Nancy Boy”.

Susana Jaulino

TOOL

Era a segunda vez que os Tool pisavam o solo português e, pela segunda vez, mostraram-se ao seu público sob o formato festival e ao ar livre. Embora seja de agradecer o facto dos promotores de espectáculos portugueses terem descoberto os Tool em 2002, a verdade é que o quarteto norte-americano perde alguma da sua essência num palco a céu aberto. A intimidade é diminuída e os pequenos pormenores contemplativos e ambientais parecem perder-se na ânsia de decibéis elevados.

Com 10,000 Days na bagagem, os Tool souberam entregar um espectáculo coeso, diversificado e que fez com que as milhares de pessoas que se juntaram no Parque Tejo presenciassem um concerto intenso e multidimensional. Acompanhada por imagens e efeitos visuais que alternavam entre o perturbante e o alucinante, a música dos Tool consegue transfigurar-se num verdadeiro ser orgânico complexo e provocador. Ninguém ficou indiferente.

O alinhamento do concerto manteve-se coerente ao dos concertos anteriores nos Estados Unidos da América e conseguiu percorrer toda a discografia da banda com maior proeminência, como é natural, para 10,000 Days. A abertura com “Stinkfist” fez apertar os espaços e aumentar a tensão. “The Pot” foi recebida com entusiasmo e acompanhada pelas vozes uníssonas do público. “Jambi”, por seu lado, revelou-se como uma possante música ao vivo com vários momentos electrizantes e mostrou-nos Adam Jones com a sua talk box. De seguida surge “Schism”, o primeiro single retirado de Lateralus (2001), com uma adição inesperada a meio, onde a banda acelerou inesperadamente num momento quase thrash. A meio do concerto surgiu “Right In Two” e com ela vieram as ondas sónicas galopantes e que conseguiram criar um dos momentos mais avassaladores da noite. O encore foi iniciado por “Vicarious”, que apesar de ter resultado bem com o público, pareceu não ter a força necessária para suceder a “Lateralus”, uma das melhores interpretações da noite e cujos efeitos visuais, através de movimentos em espiral, pareceram sacudir o público um pouco mais acima da existência real.

De mencionar, ainda, que o concerto começou um pouco mais tarde que o habitual, devido a alguns problemas com os computadores responsáveis pelos efeitos visuais, o que poderá ter feito com que a banda tenha cortado do alinhamento “Lost Keys (Blame Hofmann)” e “Rosetta Stoned”, duas faixas habituais nesta nova vaga de concertos dos Tool.

Toda a banda esteve exímia e descontraída, com uma atitude discreta mas nada fria. Maynard James Keenan, na sua personagem de cowboy descoordenado, abriu o concerto com o sonoro “Boa noite Lisboa” e transformou-o numa espécie de festa de aniversário de Sean Kinney, baterista dos Alice In Chains que fazia 40 anos nesse começar de dia 27. Adam Jones percorreu os riffs de guitarra no seu estilo habitual, soturno e inexpressivo (quase incomodativo por vezes). O baixista Justin Chancellor pareceu ser o elemento mais activo e que melhor interagia com o público, balançando incessantemente e trocando sorrisos com os que o observavam. Terminando o quarteto, Danny Carey foi soberbo por detrás da sua extensa e monstruosa bateria. Quer nos momentos calmos, como na tabla de “Right In Two”, quer nos picos de intensidade de “Forty Six & 2”, “Schism” e na introdução a “Sober”, foi um verdadeiro deleite sonoro e visual a forma como Carey demonstrou a sua arte e mestria.

No final, após a apoteose de “Ænema” e em forma de abraço de grupo, ficou a marca de um concerto memorável e a promessa de regresso no Outono. E parabéns Sean Kinney.

Alinhamento: “Stinkfist”, “The Pot”, “Forty Six & 2”, “Jambi”, “Schism”, “Right In Two”, “Sober”, “Lateralus”, “Vicarious”, “Ænema”.

Texto: Gonçalo Sítima
Fotografias: Ricardo Loureiro

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~ por hiddentrack.net em 25, Maio, 2006.

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