Sufjan Stevens – Greetings From Michigan: The Great Lakes State

sufjanstevens-michiganIndie pop conceptual – talvez seja este o termo que melhor assenta sobre o terceiro álbum de Sufjan Stevens. Impõe-se então a questão: qual a conceptualização por detrás de Greetings From Michigan: The Great Lakes State? Muito simples, deixar que cada estado dos Estados Unidos da América sirva de inspiração e partitura para a música. E porquê começar em Michigan? Nascido em Detroit, Sufjan é um descendente directo deste estado e das suas características. Assim se explica, igualmente, o conteúdo intimista, emotivo e autobiográfico de muitas das letras que compõem Greetings From Michigan: The Great Lakes State.

Localização determinada, deixemos a viagem começar. Cada faixa leva-nos até uma cidade diferente de Michigan e cada cidade demonstra-nos uma situação social ou emocional distintas. Cada paragem, uma vida. O arranque em “Flint (For The Unemployed And Underpaid)” instala-nos numa melancolia acompanhada ao piano. As dificuldades económicas e o esforço da família de Sufjan para sobreviver são o mote desta pequena introdução e a cidade de Flint, industrialmente drenada, o seu catalizador. Mas como que a impedir um completo desânimo, a próxima faixa, “All Good Naysayers, Speak Up! Or Forever Hold Your Peace!” introduz alguma luz e instiga à tomada de acção num compasso ritmado, como que dizendo: “saiam à rua e levantem a voz tão alta como os punhos!”. Se a vida operária é, por um lado, enegrecida pela penúria e pela alienação, não esquecer que a intervenção política e a manifestação solidária são os elementos consequentes e que lhe dão cor.

Oscilando entre as melodias contemplativas ou derrotadas, como “Holland” ou “Oh God, Where Are You Now? (In Pickeral Lake? Pigeon? Marquette? Mackinaw?)”, e as modulações mais animadas e quase festivas, como “Say Yes! To Michigan!” ou a genial “Detroit, Lift Up Your Weary Head! (Rebuild! Restore! Reconsider!)”, o ouvinte quase que pode criar, dentro do próprio álbum, um alinhamento personalizado e ajustável ao momento da audição.

Para além da maturação das letras e da pertinência geográfica que possuem, este disco destaca-se ainda pelas várias camadas sonoras e pelos diversos instrumentos que as compõem. O banjo, um dos instrumentos que Sufjan Stevens domina e que consegue transmitir uma sonoridade tipicamente americana, assume um especial destaque e marca presença em quase todas as faixas. Idiossincráticas e orgânicas, as composições de Greetings From Michigan: The Great Lakes State parecem conter em si, em igual proporção, as melodias impregnantes e os pormenores técnicos ornamentais e enriquecedores. Se ao menos toda a pop tivesse a mesma exigência… se ao menos todo o campo indie tivesse a mesma humildade…

A voz de Sufjan Stevens consegue acompanhar facilmente o andamento das diferentes músicas, embora por vezes pareçam repetir-se alguns pequenos momentos, alguns pequenos segmentos. Não consegue chegar ao ponto de saturação, mas a sua evidência não pode ser negligenciada. No entanto, a diversidade instrumental, e até vocal como na bela “Vito’s Ordination Song”, fazem com que, no seu todo, Greetings From Michigan: The Great Lakes State possa ser ouvido repetitivamente, sem cansaço ou adormecimento na estrada.

Se Sufjan Stevens conseguiu captar a essência de Michigan ou não, apenas os seus conterrâneos o poderão confirmar. Para nós, os estrangeiros, fica-nos uma imagem apaixonada e lúcida, descritiva e profunda da natureza humana que se desenvolveu sobre a natureza terrestre. Aguarda-se o próximo destino.

8/10 | Gonçalo Sítima

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~ por hiddentrack.net em 18, Junho, 2006.

 
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