The Life And Times no Cabaret Maxime

:: 26 de Junho de 2006

Uma chegada ligeiramente depois das 23 horas fazia prever que pudéssemos ter perdido qualquer coisa, ou que chegáramos demasiado em cima da hora. Engano, não havia pressa.

O primeiro impacto com o local onde actuaram os catalães Nueva Vulcano e os norte-americanos The Life And Times foi inevitavelmente curioso. No hall, um indivíduo vestido de preto e chapéu que nos recebeu amistosamente. Seguidamente, a sala propriamente dita – o cabaret. A atmosfera não deixava de ser sinistra, os alabastros e os néons davam um aspecto quase duvidoso ao espaço. O Maxime parecia desajustado para receber um concerto. Qualquer concerto.

A deslocação para as mesas mais próximas do palco aconteceu quando surgiram as primeiras movimentações no palco. Falso alarme. Foi necessário esperar até que passassem 35 minutos da meia-noite para que (qual espectáculo de variedades) o mesmo indivíduo que nos recebera à entrada anunciasse com entusiasmo os primeiros intervenientes da noite. No momento em que os Nueva Vulcano subiram ao palco, a cortina de tom vermelho escuro que servia de pano de fundo deu lugar a uma outra, prateada, brilhante, lantejoula – imagem que havia de acompanhar os dois concertos.

Dos Nueva Vulcano não há demasiadas considerações a fazer. Os catalães têm já dois álbuns editados – Principal Primera (2004) e Juego Entropico (2005), intercalados por dois EPs intitulados Sobremesa e Sagrada Familia (ambos de 2004). O split com The Life And Times (editado este ano) serviu de mote à visita da banda a Lisboa. O trio apresentou um rock de melodia e composição bastante simples, não obstante afirmarem que eram uma banda de punk-rock camuflada especialmente para a actuação de ontem. No entanto, do trabalho conjunto com a banda norte-americana não se ouviu nenhuma faixa.

Dos temas apresentados pelos Nueva Vulcano, destaca-se “Esto no es Paris”, que embora dentro do pacote invariável apresentado pelos catalães foi motivo para um esboço de sorriso, sobretudo pela forma leve e desinibida com que o trio entoou o tema. “El día de mañana” e “Sagrada Familia” foram outros das propostas da banda, com nota positiva (mas sem exagero) para esta última.

Os Nueva Vulcano não são chatos, pelo menos até à quinta música. Depois, tornam-se repetitivos e ficam exigir-se lufadas de ar fresco. Pecam pelo modo como fazem uso da única guitarra (que roça por momentos breves os britânicos Placebo) e a voz de Artur Estrada soa demasiado abafada, como que sufocada num saco de papel. No final de 45 minutos e um desfile de nove temas, o saldo não é negativo, mas pede-se mais, e melhor, por favor.

Não foi de quinze minutos o intervalo que se seguiu à actuação dos Nueva Vulcano, mas apenas o tempo suficiente para trocar o material das bandas. Os The Life And Times sugeriam à partida uma abordagem mais intensa ou pelo menos bem mais diferente e inovadora, tendo em conta a disposição de material mais variado junto da posição que iria ser ocupada pelo vocalista e guitarrista Allen Epley. Era apenas uma questão de tempo.

As dez datas em Espanha com uma passagem por Lisboa sucederam no percurso do trio norte-americano depois de uma digressão conjunta com os também norte-americanos Pelican e os japoneses Mono. Tal evento suscitava uma curiosidade crescente para ver actuar a banda. Passavam cerca de 24 minutos da uma da manhã.

Os The Life And Times estão um patamar acima dos Nueva Vulcano, deslocando-se numa linha pós-rock, com características mais intensas, mais pesadas, e que criam um elo mais coeso entre o que se passa em palco e o que se passa no público durante a sua actuação. Soam sem pretensão para uma densidade soturna e que se torne demasiado opaca, fazendo uso sobretudo do trunfo que é a voz de Epley. Este tem, de resto, um modo muito peculiar de projectar a sua voz: por vezes, uma espécie de sussurro que se torna pouco límpido; noutras, um discurso mais claro, sempre amplamente sereno. Um delay electrónico ajudou ainda a que a voz de Epley se propagasse pelo cabaret e desdobrasse sobre si mesma.

A actuação dos The Life And Times incidiu sobretudo no álbum Suburban Hymns, editado em 2005. Do EP The Flat End Of The Earth (de 2003, o ano de formação da banda) ouviu-se “Houdini” e do split com Nueva Vulcano ficou o tema “Mighty Joe Moon”, uma versão do original de Grant Lee Buffalo, que se tornou num momento absolutamente sensual, culpa da interpretação descomprometida de Allen Epley.

Ao longo da actuação do trio, que durou também cerca de 45 minutos, ficam-nos presas sobretudo “Skateland” e “Shift your gaze”, todas do álbum Suburban Hymns. No entanto, foi a sequência final de “Mea Culpa” e da nova “The sound of the ground” (que fechou o concerto) a mais arrebatadora de todas, com um desempenho bastante interessante do baterista Chris Metcalf e uma descarga final de alta voltagem contida ao longo dos 45 minutos de concerto da banda.

Uma paragem discreta em Lisboa, que só os mais atentos tiveram oportunidade de espreitar, num local extremamente sui-generis para o efeito. Passaram absolutamente despercebidos, num misto de anonimato e efeito surpresa e proporcionaram um concerto agradável e surpreendente.

Susana Jaulino

Anúncios

~ por hiddentrack.net em 26, Junho, 2006.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

 
%d bloggers like this: