Spank Rock – YoYoYoYoYo

spankrock-yoyoPorque é que há uma tendência para encarar a música muitas vezes como uma coisa seríssima, como se sempre que ouvíssemos música tivéssemos que elaborar pesados ensaios pseudo-intelectuais para reforçarmos a validade da qualidade dos nossos gostos? Dentro deste quadro nunca pode entrar música simples, eficaz (grande parte das vezes mais inovadora do que obras extremamente cuidadas ao pormenor), que nos faça dançar só pelo prazer de dançar. Como amante de música quero desfrutá-la ao máximo e de todas as maneiras possíveis, estou-me literalmente a lixar se nela estão implícitas elaboradas temáticas sobre o ser humano e a sua existência, e tretas assim.

Claro que a componente lírica das canções é importantíssima, quando é bem desenvolvida e nos faz realmente pensar, aí vale a pena, mas, mesmo assim, a música não sobrevive sozinha com um lirismo de qualidade. É preciso mais.

Isto tudo para falar da estreia dos Spank Rock, YoYoYoYoYo, um trio de americanos originário das festas underground de Baltimore, ambientes não aconselháveis a meninos da mamã cujo rodar de braços mais se aproxima dum robot sem vida e fútil do que dum ser humano com o sangue a ferver nas veias. Nestas festas, banda e público confundem-se, só interessa mesmo é a música e o prazer de a ouvir. A promiscuidade é rainha nas danças, que se prolongam até não haver dia, o suor escorre pelos corpos e pela sala ao ritmo frenético das batidas criadas por Armani xxxchange (o produtor dos Spank Rock). Há provocação nas danças de ambos os sexos, há uma sensualidade carnal que os aproxima instintivamente ao som daquela música crua que os rodeia.

YoYoYoYoYo recria de certa forma este ambiente. A música criada por Armani xxxchange, Spank Rock MC e Chris Rockswell não serve para sonhos cor-de-rosa lamechas; é dura, real, com uma excitação ardente a povoar os beats sujos de pecado e as palavras debitadas por Spank Rock MC.

Apesar de americanos, assinaram pela Big Dada (filial da conhecida editora britânica Ninja Tune dos Coldcut) e podemos ouvir na sua música claras aproximações à agressividade do grime das ruas de Londres. Spank Rock MC fala de sexo sem pudores, e tal como a convidada Amanda Blank diz na aliciante “Bump”, os Spank Rock são bem mais nasty que os betinhos dos Black Eyed Peas, que com todo o seu espectáculo de aparente sensualidade, são uns meninos de coro ao aproximarem-se dos Spank Rock. A linguagem é dura, e ainda bem que o assim é.

No entanto, os Spank Rock também têm algo a dizer, além de incitarem a contactos físicos libidinosos, como podemos ouvir na faixa “Rick Rubin” (clara alusão ao conhecido produtor e antigo patrão da Def Jam) – “Slain tracks and left them hanging like a runaway slave/For young eyes to gaze/A permanent image to raise them/In my footsteps/Revolutionaries to hood rats”.

Musicalmente, quando não vão ao grime, vão ao funk chunga (não é depreciativo) de Diplo (o conhecido produtor da M.I.A.), ou metem no meio do seu hip hop uns sons electrónicos encomendados a uma loja dos trezentos bafienta e ainda uns trompetes festivos. Várias sonoridades enrolam-se umas nas outras até criar esta música apelativa e refrescante que se ouve em YoYoYoYoYo.

Agora todos: “let’s dance, let’s fuck, let’s Spank Rock!”

8/10 | João Moço

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~ por hiddentrack.net em 11, Julho, 2006.

 
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