Sigur Rós ao vivo no Pavilhão Atlântico

:: 16 de Julho de 2006

Lisboa, 16 de Julho de 2006, dia do último concerto da digressão dos Sigur Rós dedicada a Takk… (2005). Com o palco situado a meio do Pavilhão Atlântico, foi uma surpresa ver que nem assim o recinto esteve perto de encher. É ainda mais surpreendente se tivermos em conta que na última passagem dos Sigur Rós por Lisboa, em Novembro de 2005, os bilhetes esgotaram diversos meses antes da data agendada.

À semelhança do que aconteceu nos concertos de Novembro, a primeira parte ficou entregue às Amiina, que acrescentaram um “i” para não serem confundidas com outros artistas com a mesma denominação. As islandesas voltaram a demonstrar que a designação “quarteto de cordas” é um tanto ou quanto redutora. O set de quatro músicas foi idêntico ao do concerto de Novembro. Um dos temas fez, mais uma vez, furor entre a plateia: o do “serrote” (aquilo não é bem um serrote) e das campainhas. Mas em palco actuou-se com base também em copos de água, xilofone, laptop, sintetizadores e, claro, cordas. O ambiente de caixinha de música que se gerou foi, mais uma vez, uma forma muito interessante de “aquecimento”.

Os Sigur Rós entraram em palco pouco depois das 22 horas. Com um pano branco a separá-los do público, começaram da mesma forma que têm iniciado todos os concertos: com “Takk…”, a introdução, e a poderosa “Glósóli”. As sombras e as imagens projectadas no pano foram o complemento simpático a um dos melhores temas do último álbum dos Sigur Rós. É quase injusto que o concerto se inicie assim, com este pico emocional precoce. Mas, por outro lado, é a forma perfeita de limpar tudo o resto da cabeça.

Depois disso, veio um quinteto de sopro, vieram quase todas as músicas de Takk… (excepção feita a “Mílanó”, infelizmente) e veio aquela sensação fantástica que só um grande concerto consegue incutir. Houve até algum humor, aquando da entrada em cena dos responsáveis pelos instrumentos de sopro. Todos de casaco vermelho à la verdadeira brass band, um deles com uma saia… e uma voltinha ao palco durante a marcha de “Sé Lest”. Houve ainda direito a uma volta bem disposta e a uma pirueta em câmara lenta do senhor da tuba à saída.

Só é pena que tenham sido deixados de lado dois temas que em Novembro quase fizeram levitar o Coliseu. Tanto a versão mais recente de “Hafsól”, “a canção que o baixista toca com uma baqueta”, como a quarta faixa de ( ) (2002), conhecida como “Njósnavélin”, ficaram de fora de uma setlist que ignorou, mais uma vez, Von (1997).

“Viðrar Vel Til Loftárása” foi um dos momentos altos do concerto. Fundindo pós-rock com um certo requinte mais clássico, este tema de Ágætis Byrjun (2000) mantém-se de pedra e cal no grupo dos mais estimados pelos fãs do quarteto islandês. Se em álbum se percebe bastante bem porquê… imaginem a força deste tema ao vivo.

Já na fase final do concerto, depois de uma passagem marcante por “Hoppípolla”, chegou um dos momentos altos da noite. Não há palavras capazes de descrever adequadamente o que “Svo Hljótt” é ao vivo. Fez esquecer o calor, as pessoas barulhentas e mesmo os poucos que tentavam cantar os temas com o vocalista Jónsi Birgisson. Este tema é literalmente arrepiante. Perfeito.

A saída de palco foi acompanhada pelas palmas e pelos gritos da praxe que se mantiveram até ao regresso da banda. O encore teve um único tema que valeu por três ou quatro. Foi “Popplagið”, nome atribuído habitualmente à oitava faixa de ( ), que encerrou o concerto. Já tinha acontecido em Novembro, tanto em Lisboa como no Porto. E foi, mais uma vez, adrenalina pura. Entrou devagar e triste para se transformar, a pouco e pouco, numa peça nervosa, quase brutal. O crescendo em que os mais de dez minutos de música assentam apaga por momentos quaisquer noções de espaço e tempo adquiridas ao longo da vida. Aquele momento vale por si e parece durar apenas um segundo. O pano encerra, voltam as sombras e as luzes. A explosão acontece ali mesmo e tudo se solta até restar somente o ruído das guitarras. A expressão “pop etérea” desaparece definitivamente das mentes fechadas de uns quantos.

Abre-se o pano, já sem música em perspectiva, só como recordação. Agradecemos nós e agradecem eles projectando um “Takk…” no pano de fundo. Há vénia colectiva, saída de palco, reentrada e nova vénia colectiva. Jónsi agradece aos colaboradores pelo trabalho executado durante toda a digressão.

As duas mil pessoas presentes no recinto, o ar condicionado que se ouvia perfeitamente entre músicas e o calor, acompanhante destes dias… tudo recordações menores de um concerto do melhor que por cá podemos pedir. Começou a contagem decrescente para o sucessor de Takk… e, esperemos, para mais um concerto em Portugal de uma das bandas mais interessantes da cena musical internacional.

texto: Filipe Marques
fotografias: João Pedro Macedo

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~ por hiddentrack.net em 16, Julho, 2006.

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