Kanye West ao vivo no Cool Jazz Fest

:: 17 de Julho de 2006

Portugal não costumava receber concertos no tempo certo, no preciso momento em que os artistas estavam a “explodir” por todo o lado.

No entanto, nos últimos tempos a situação tem-se invertido. Os Arcade Fire foram ao Festival Paredes de Coura o ano passado, os Arctic Monkeys já passaram por Portugal em Maio e este mês tivemos o prazer de receber Kanye West.

Kanye West é já actualmente a maior figura do hip hop actual, com apenas dois discos a solo, mas já um currículo invejável de produções para outros. Inserido no festival Cool Jazz Fest, Kanye West visitou-nos no Jardim do Marquês do Pombal, espaço que, como já se disse, é perfeito na sua aristocracia para receber uma figura com a importância e de tão alto gabarito como é Kanye.

Os seus trabalhos fizeram com que as expectativas para esta estreia em solo lusitano fossem altíssimas, quase impossíveis de superar. Mas Kanye West, como sempre, não defraudou. E mais uma vez demonstrou como o hip hop é um género alargadíssimo, um livro em aberto sempre pronto a novas escrituras.

Por trás de si tinha uma banda formada por quatro violonistas, duas violoncelistas, uma harpista (todas com uma pintura vermelha nos olhos), e ainda duas vozes de suporte (uma masculina e outra feminina), a dar aquele toque soul tão apreciável da música de Kanye, e ainda um grande DJ chamado A-Trak. Já tinha ouvido maravilhas deste DJ, mas ainda assim, surpreendeu bastante.

“Diamonds from Sierra Leone” deu o mote ao concerto e não havia melhor forma de começar. Em palco Kanye disparou logo com uma energia imbatível e o público desde o primeiro segundo estava rendido.

“Heard’em Say” continuou, embora de forma mais calma, a marcar pontos, e em “The New Workout Plan” a energia em palco e cá em baixo quase estoirou. Belo tema de cadência r’n’b luminoso, com o septeto de cordas num dos seus momentos mais altos. As orquestrações acompanharam paralelamente os beats de A-Trak e não se intrometeram negativamente. No final deste tema, Kanye West presenteou-nos com a primeira das várias surpresas da noite: “Sweet Dreams” dos Eurythmics.

Por entre temas de College Dropout e de Late Registration, Kanye West foi revelando uma capacidade de rappar ao vivo que ainda se punha em dúvida.

Depois de “Drive Slow”, Kanye West abandona o palco e começa-se a ouvir a célebre “Eleanor Rigby” dos Beatles, tocada pelo septeto de cordas, logo seguida uma das maiores canções do ano, “Crazy” dos Gnarls Barkley, e ainda a “Bitter Sweet Symphony” dos Verve, ao mesmo tempo que Kanye West debitava rimas por cima.

Só o facto de se ouvir Eurythmics, Beatles e Verve num concerto de hip hop, mostra como Kanye continua a derrubar fronteiras musicais, tanto em disco, como em palco.

Por isso, depois desta espécie de medley, Kanye West apresentou alguns temas que foram produzidos por si para outros artistas, como Jay-Z, Common, Talib Kweli e Alicia Keys. Kanye West já tinha dado provas de ser um produtor de incontáveis quilates mas, como ele disse em palco, queria mais. Queria ser uma estrela de hip hop ou, melhor ainda, uma estrela pop, e, mesmo não tendo a postura gangster e mesmo sendo um nerd aficionado por música, conseguiu-o.

“All Falls Down”, “Gold Digger” e “Slow Jamz” formaram um trio que foi dos momentos mais altos do concerto. Kanye West além de exímio produtor, bom rapper, é um artista de palco, com grande presença, e demonstra-o na interacção com o público. Sabe dar um excelente espectáculo que agrada a um público muito heterogéneo. Raças, posses, tudo se esbateu ali para ouvir Kanye West, mais uma prova de como a sua música conquista pessoas completamente diferentes entre si.

Depois daquele trio de canções, Kanye West revelou alguma das suas influências. Todos viram como estava contente ao dançar ao som de Curtis Mayfield, Michael Jackson e, espante-se, A-Ha (o belo single pop “Take On Me”). Só Kanye West para conseguir isto: pôr um público inteiro a dançar os A-Ha num concerto de hip hop. Antes do encore, Kanye West finalizou com o clássico “Through the Wire”.

Depois do tema que compôs após ter sido vítima dum acidente de automóvel que quase o matou (sendo que quando a música foi gravada, Kanye West ainda tinha a boca feita num oito), Kanye West ausentou-se uma vez mais do palco, para depois iniciar o primeiro e último encore.

No encore, “Jesus Walks” levou todos à euforia. Enquanto Kanye não aparecia, já um grupo de fãs cantava a música, esperando ver o seu desejo de a ouvir ali ao vivo realizado. Ainda havia lá outro grupo de fãs que tinha um cartaz que dizia “Kanye West -> Jesus Christ”, que revela uma base de fãs bastante conhecedora do seu trabalho e ao qual têm uma enorme devoção, algo que desconhecia nestas proporções.

“Jesus Walks” foi outro dos picos do concerto, sendo uma das melhores canções que o norte-americano tem, ao vivo todo aquele sentido de urgência é transportado na perfeição. O gospel fundido com um Kanye West a debitar rimas em êxtase, faz deste tema, tanto em disco, como em espectáculo, algo único.

Também é preciso louvar a interpretação de “Hey Mama”, uma das melhores composições de Late Registration, onde Kanye West homenageia a sua mãe com sentimento, e ao vivo com o público a cantar “mama, mama, mama” com Kanye, torna-se quase memorável.

Para finalizar ouviu-se “Touch the Sky”. Se Kanye West tinha o desejo de tocar o céu, neste momento da sua carreira já o conseguiu. A meio do tema, Kanye West diz que se enganou e que tinha de começar tudo de novo. Ainda se começa a ouvir o início de “Diamonds from Sierra Leone”, mas Kanye diz que está demasiado cansado para voltar a fazer tudo de novo. Assim, volta a “Touch the Sky”, um dos temas mais épicos de Kanye, produzido por Just Blaze, que neste concerto não contou com o jovem prodígio Lupe Fiasco, a provar que Kanye não é só um mestre dos estúdios, nas produções, mas é também um entertainer de fazer inveja a meio mundo.

Um concerto memorável, que Portugal recebeu na hora exacta. Ou muito me engano, ou isto vai ficar para a história.

Na curtíssima primeira parte estiveram os Kalibrados, grupo angolano de hip hop, que apareceu com postura à lá 50 Cent, mas que em palco tinham bastante força. Apresentaram dois temas com pitadas r’n’b. Infelizmente foi pouco tempo mas para aquecer para o que se seguia estiveram bem.

Texto: João Moço
Fotografia: Francisco Nogueira / bodyspace.net

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~ por hiddentrack.net em 17, Julho, 2006.

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