Lisboa Soundz 2006

Is This it? Desta vez foi mesmo. Portugal recebeu The Strokes pela primeira vez, e os milhares de fãs em Santos comprovaram que valeu a pena esperar. A banda nova-iorquina deu um concerto sem falhas, guiada por um Julian Casablancas que esqueceu a timidez.

:: 22 de Julho de 2006

THE STROKES

À meia-noite e um quarto chegou o momento pelo qual os irredutíveis esperaram todo o dia junto às grades. O Terrapleno de Santos transformou-se numa sauna apertada com direito a mosh e crowd surfing, com milhares de pessoas a lotar um espaço que esteve pouco preenchido durante a tarde. Ao palco escuro subiam The Strokes, disparando a pesada e instantânea “Juicebox”. Era o início da festa. Hora e meia depois, os americanos tinham passado pelos três álbuns, entre a promoção do mais recente First Impressions of Earth, o regresso ao clássico Is This It e a tímida visita a Room on Fire, o disco que a banda, assim como a crítica, parece ter posto na gaveta. Apenas “The End Has No End”, a insistentemente pedida “Reptilia” e “12:51” mereceram resgate. De resto, houve um duelo entre o primeiro e o último álbum, ganho pelo mais antigo. As clássicas “Someday”, “Hard to Explain” e “Last Nite” causaram histeria entre a multidão de t-shirt, jeans e All Stars.

Num palco iluminado por colunas rectangulares brancas, azuis, amarelas e rosas, Julian Casablancas foi um mestre-de-cerimónias divertido e comunicativo que até dançou durante o solo de “Ize of the World”. Sendo conhecido o pouco à-vontade em público do líder da banda, surpreenderam as demonstrações de afecto quando o vocalista subiu às grades e abraçou alguns portugueses. Enquanto o guitarrista Albert Hammond e o baterista Fabrizio Moretti bebiam Coronas de uma assentada, Julian divertia-se com o nome da roulotte dos cachorros quentes – “Psichological HotDogs, ahaha, what a great brand name”. O momento mais intimista aconteceu durante “Ask Me Anything”, com Valensi e Casablancas em lamento minimalista, para depois este declarar-se “farto de merdas intelectuais” e disparar para a abrasiva “Vision of Division”. “New York City Cops” entoada em coro e “Take it or Leave It” como banda sonora para o vôo desastroso de uma adolescente encerraram o concerto maior do Lisboa Soundz.

Foi uma actuação convincente, sem acidentes – pelo menos em palco – mas também sem surpresas nem aventuras. O esperado no final de uma longa digressão pela Europa. Um Julian deslumbrado com os veleiros do Tejo despedia-se com a promessa de um regresso. Caiu a ideia de um hype exagerado em torno dos Strokes. Em 2001, muitos torciam o nariz perante os cinco rapazes de boas famílias que apareceram influenciados por Television e Velvet Underground. Cinco anos depois, a profecia cumpre-se e os fãs de um “novo rock” que regressa ao passado continuam reunidos em torno de uma banda sólida, dotada e profissional, movida a Corona e algo mais.

Pedro Guerreiro

YOU SHOULD GO AHEAD

Os You Should Go Ahead abriram o Lisboa Soundz numa altura em que o sol ainda estava alto. Assim, apesar dos apelos do vocalista Pedro Lourenço, as poucas pessoas presentes no recinto preferiam ficar sentadas no chão a aproveitar a escassa sombra dos pavilhões do que ir para a frente do palco. Isto segundo as minhas fontes, porque eu fui das muitas pessoas que foram chegando ao longo da tarde. Felizmente ainda a tempo de ver Howe Gelb & The Gospel Choir.

HOWE GELB & THE GOSPEL CHOIR

O líder dos norte-americanos Giant Sand regressou a Lisboa acompanhado por um coro de gospel, as Voices Of Praise, para encantar com o seu último álbum, Sno Angel Like You. Num festival em que a maior parte das pessoas pagou trinta e tal euros para ver os The Strokes, o segundo concerto da tarde foi uma surpresa muito agradável. Durante quase uma hora, a mistura de rock e folk de Howe Gelb, mais colorida e energética com a ajuda do coro gospel, cativou grande parte do público presente. Que continuava a não ser muito. Simpático e bem disposto, Gelb deu um concerto refrescante numa altura em que ainda estava muito calor.

ISOBEL CAMPBELL

Já o concerto de Isobel Campbell foi um balde de água fria. A ex-Belle & Sebastian, que há dias viu Ballad of the Broken Seas, álbum que resultou da sua colaboração com Mark Lanegan, ser nomeado para o Nationwide Mercury Prize, parecia quase embaraçada por estar ali. Os outros, sobretudo Eugene Kelly, que fez as vezes de Lanegan, pareciam apenas aborrecidos. Os “thank you” que a cantora murmurava no fim de cada canção eram quase constrangedores. Mas mais constrangedora foi a forma como foram apressados para fora do palco, com Campbell a recolher as suas coisas para dentro de um saco com florzinhas verdes com a mesma pressa das vendedoras ambulantes a fugir da polícia.

LOS HERMANOS

Los Hermanos, a banda rock brasileira que andou recentemente em digressão pelo país com os Toranja (as afinidades são muitas), tocaram por volta da hora do jantar. Ou pelo menos houve muita gente que aproveitou para jantar nesta altura. Mas o grupo já tem alguns fiéis em Portugal, alguns dos quais até nem são brasileiros. O look PREC de Marcelo Camelo (guitarra e voz) baralhou-me um pouco, mas o pior foi mesmo o som demasiado alto, que fazia com que a voz de Rodrigo Amarante (também guitarra e voz) assustasse um bocado. E não, não cantaram “Anna Júlia”. Aliás, a maior parte do concerto é bem mais rock do que isso.

SHE WANTS REVENGE

Quando os She Wants Revenge começaram a tocar a noite já tinha caído e a luz e o ambiente eram bem mais adequados a um concerto rock e à sonoridade sombria da banda. Não há ali nada de original ou muito inventivo mas o regresso ao final dos anos 70, princípio dos anos 80 foi bem recebido por grande parte do público. Embora seja difícil distinguir as canções umas das outras, o álbum resulta muito melhor ao vivo e o espectáculo não foi nada aborrecido. Justin Warfield mexia as ancas ao melhor estilo glam e o concerto acabou por ser muito dançado e muito mais intenso do que o seguinte.

DIRTY PRETTY THINGS

Os Dirty Pretty Things entraram a matar com as duas primeiras canções de Waterloo To Anywhere. Aliás, entram a matar em todas as músicas com o seu rock acelerado. Mas apesar do público não estar para aí virado, e já a preparar-se para o grande concerto da noite, Carl Barât e companhia não desanimaram. Entre longos goles de cerveja e vinho debitaram quase todas as canções do álbum de estreia. Pareciam estar a divertir-se e perto do fim, com “Bang Bang You’re Dead”, conseguiram contagiar toda a gente minimamente atenta. Ainda sobrou tempo para tocar três canções dos Libertines, com “France” e “I Get Along” a fechar o concerto em jeito de encore.

Patrícia Gomes

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~ por hiddentrack.net em 22, Julho, 2006.

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