27 ao vivo no bar Lounge

:: 26 de Julho de 2006

Esqueçam a conversa das paisagens sónicas e das ambiências etéreas. Ainda que o rock lento e soturno dos 27 possa levar-nos por caminhos destes, a estranha tensão que as músicas carregam e a voz agridoce de Maria Christopher têm o bom efeito de nos manterem de pés bem colados ao chão e de boca calada. É assim nos trabalhos editados até agora pela banda. Foi assim no concerto que a banda deu no Lounge, em Lisboa.

O espectáculo estava marcado para as 23 horas mas começou, como seria de esperar, pouco depois da meia-noite. Bateria, duas guitarras e muitos pedais ajudavam a decorar um espaço que só não foi perfeito porque o som, lá, nunca é perfeito.

Com Neil Coulon sentado atrás da bateria e o guitarrista Ayal Naor sentado entre o amplificador e os pedais, a chegada de Maria Christopher ao local que o microfone apontava ser o seu marcou o início do concerto. Entretanto, um senhor gritava “toca” junto ao balcão. Mais tarde e antes de abandonar o bar, as palavras de ordem proferidas foram “anarquia” e “fala português”. Porque nem só de música vive o homem.

A banda abriu as hostes com uma “No Water” mais despida do que a sua versão assumidamente trip-hop de estúdio (presente em Animal Life), vencida na luta contra a convencional bateria e contra o número reduzido de elementos da banda.

Os 27 foram alternando o dedilhar triste e o ritmo de cadência semelhante com incursões mais pesadas e energéticas. “Bird Of Paradise” respirava pela boca de Maria, que cantava de forma limpa por cima do som das guitarras, enquanto acumulava tensão sob a capa da melancolia constante.

Assim, o enfoque dado neste concerto a Holding On For Brighter Days faz sentido duplamente. Por um lado, é o último álbum editado pela banda. Por outro, parece ajudar a fazer o relato da noite: como se cada uma das músicas fosse um último reduto de amargura onde se espera, a qualquer momento, a chegada dos primeiros raios de luz.

E, na verdade, chegaram alguns raios de luz durante “Every Day”, um dos temas menos deprimidos do alinhamento do concerto. Porque a música é mais luminosa, barulhenta e convencional do que as restantes e porque a vocalista lhe dá uma forma bastante próxima daquilo a que se pode chamar pop. Ar fresco.

A música continuou melancólica e, a partir daí, só terá fugido em “Cavalla”, o tema que encerrou o concerto pela uma da manhã. Com direito a uma espécie de ocarina aparentemente extraída da natureza, a colheres e a um slide na guitarra de Ayal Naor, “Cavalla” fugiu da amenidade para terrenos mais barulhentos, mesmo a tempo de terminar em registo diferente do apresentado durante a noite. É que um slide dá logo outro ar às coisas e o pós-rock mais vincado quase se transforma em subgénero psicadélico de ascendência country.

A ligação dos 27 a editoras como a HydraHead fica, ainda assim, por esclarecer. É muito estranho associar a música desta banda à faceta mais pesada que a referida editora ostenta. Por outro lado, também o é olhar para o guitarrista Ayal Naor e reparar na t-shirt de Slayer que traz vestida. Pequenos paradoxos.

O concerto dos 27 terá passado despercebido a grande parte do público-alvo da música destes norte-americanos que vivem “a quatro horas do sul do Canadá”. É pena porque as oportunidades nunca são muitas e este grupo vale bem o tempo investido. A prova foi esta íntima celebração rock da melancolia, vivida com “devagar” como velocidade de cruzeiro.

Texto: Filipe Marques
Fotos: Sílvia Dias

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~ por hiddentrack.net em 26, Julho, 2006.

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