Entrevista com David Fonseca

Não acredita que a Internet seja um modelo infalível de promoção: bandas como Arctic Monkeys e Clap Your Hands Say Yeah não têm o sucesso que têm por acaso. David Fonseca responde a algumas perguntas do hiddentrack.net pouco tempo depois de ter actuado no Festival Sudoeste. O último álbum, o próximo, pirataria e a cena musical portuguesa são alguns dos temas sobre os quais fala o músico português que se emancipou definitivamente dos Silence 4.

Recordo-me de ter lido no seu site que grande parte das músicas de Our Hearts Will Beat As One tinha sido gravada em live take. Porquê esta opção?
Talvez por oposição ao método do disco anterior, onde quase tudo foi gravado por mim e pelo Mário Barreiros. É sempre bom variar os processos e métodos de trabalho, faz com que o estúdio seja mais agradável e o desafio é diferente. De qualquer maneira, sempre quis saber como era gravar ao vivo um disco, agora já sei.

“Adeus, não afastes os teus olhos dos meus” distingue-se dos restantes temas do disco devido à língua. Deixando a discussão do costume de parte… daqui a alguns anos ainda vamos poder ouvir um álbum completamente em Português?
Não faço a mais pequena ideia, não planeio as coisas dessa forma. Quem sabe o que estarei a fazer amanhã?

Já passaram alguns meses desde o lançamento do Our Hearts Will Beat As One. O que mudaria hoje no álbum?
Muitas coisas, é natural que o tempo vá descobrindo as pequenas pontas soltas do disco. Acho que isso acontece em todos os discos, a necessidade de ouvir as coisas de forma diferente, de quebrar uma barreira que não se ultrapassou… Talvez seja o motivo pelo qual se faz outro disco, fazê-lo melhor. Mas não há nada de base que mudasse, continua a ser o meu disco preferido.

A digressão dura desde Novembro de 2005. Apesar da paragem de dois ou três meses durante a primavera, já há sinais de cansaço?
Ainda não, talvez porque este concerto tenha evoluído bastante desde o dia número um. Começámos por tocar em locais fechados, auditórios, onde o teor era mais intimista e onde explorei coisas que nos espectáculos ao ar livre dificilmente consigo fazer. Agora estamos a explorar uma faceta mais rock, mais expansiva, presente nos meus discos e que nem sempre tem a oportunidade certa nos singles que edito ou nos espectáculos fechados.

Com tantos meses de digressão nas costas, as músicas continuam na mesma ou tem havido evoluções na forma como a banda as interpreta ao vivo?
Há sempre mudanças, desde o dia em que o disco está pronto até ao último concerto da tour, tudo está em mutação. Isso é inevitável.

Quanto a covers, tem surpreendido os fãs nos últimos concertos?
Gosto muito de tocar canções dos outros, especialmente de as transfomar no meu universo. Tenho feito algumas, pequenos apontamentos aqui e ali ao longo do espectáculo, mas nunca as desvendo em entrevistas. Quem quiser ouvir, terá mesmo de presenciar o concerto.

Pela primeira vez, lança três vídeos de um álbum. Cada um deles parece ser mais complexo do que o anterior. Depois de um videoclip como o de “Our Hearts Will Beat As One”, torna-se complicado elevar a fasquia, não?
Não penso nas coisas assim, nunca penso que estou a fazer um vídeo melhor que o anterior. Gosto de fazer vídeos e tento não fazer as mesmas coisas que fiz no passado, daí a diferença entre eles e um sentido algo abstracto de “evolução”. O Pedro Cláudio, o realizador da maioria dos meus vídeos, está sempre á procura de alguma coisa nova, mas dificilmente utilizaria a palavra “melhor”, é uma palavra muito traiçoeira.

Quanto ao sucessor de Our Hearts Will Beat As One, já há ideias, novos materiais, intenções…? Quando é que espera editar o seu próximo álbum?
Há intenções, mas ainda sem grande fundo ou objectivo à vista. Acredito que um disco se começa a fazer quando o outro se acaba, consciente ou inconscientemente. Quando se escreve sobre o que nos rodeia, está-se sempre a ter ideias de como será a próxima canção, o próximo vídeo, o próximo espectáculo. No entanto, ainda não há nada de concreto, apenas ideias vagas.

Tanto Sing Me Something New como Our Hearts Will Beat As One primam pelo artwork bastante cuidado. É um pequeno passo para combater a pirataria? Acha que iniciativas como o lançamento de edições especiais com DVD ou CD de bónus e/ou com artwork mais cuidado poderiam ser importantes para levar as pessoas a comprar música?
Sim, acho que o artwork é MUITO importante para quem prefere ter o CD ao invés de o piratear. Embora, confesso, não saiba se é totalmente eficaz. Hoje em dia cada vez se tem menos apreço aos objectos, não sei se essas iniciativas serão assim tão objectivas. Acho que se deve continuar a produzir formas apelativas para quem consome discos e a criar novas ideias para que o disco não morra completamente.

Que opinião tem sobre o actual panorama musical português?
É um panorama que continua a debater-se com alguns problemas de base, como a falta de locais específicos para concertos, a difícil promoção radiofónica, a falta de interesse geral pela novidade musical, etc. Existem cada vez mais bandas, mas é cada vez mais difícil que cheguem a uma superfície mais visível.

Muita gente fala de bandas como os Arctic Monkeys, Clap Your Hands Say Yeah e até mesmo Arcade Fire e de estes deverem à Internet grande parte da atenção que a sua música tem recebido. Que opinião tem acerca deste fenómeno?
Não sei se pode ser considerado como um modelo infalível, visto que são milhares as bandas que existem na Internet com vontade e talento para mostrar. De certeza que a promoção e divulgação (e até o comércio) da música passe pela Internet, mas não me parece que seja o único factor que as traz à atenção pública.

Que música tem ouvido nas últimas semanas?
Na carrinha que nos transporta para a tour há 2 CDs que têm resistido a frequentes passagens: Chosen Lords, AFX, mais um pseudónimo para Richard D. James, mais conhecido pelo nome Aphex Twin; uma colectânea da Motown feita a partir de inúmeros discos que tenho em casa. Gostei muito do disco da Beth Orton, Comfort of Strangers, do último dos Gomez, How We Operate, e do dos Raconteurs, Broken Boy Soldier. No campo dos eternamente presentes, dei mais uma volta pelo Reveal dos REM e pelo Achtung Baby dos U2.

Filipe Marques
agosto.2006

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~ por hiddentrack.net em 11, Agosto, 2006.

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