Paredes de Coura ’06, II

Os Broken Social Scene encheram o palco de vida e de música mas a estrela da noite foi Morrissey, que acabou por sair repentinamente do palco durante a última música. Madrugada e Gomez demonstraram que ainda são dos projectos mais interessantes da cena alternativa internacional e os White Rose Movement mostraram exactamente o oposto.
:: 15 de Agosto de 2006

O dia começou com um dos momentos do festival: soundcheck dos Broken Social Scene às 6 da manhã. A versão romantizada diz que Kevin Drew, com tanto frio como todos os outros seres humanos que por ali andavam ou dormiam, pegou na guitarra e subiu ao Palco Heineken àquela hora para oferecer a todos uma versão mais íntima de “Superconnected”. A música, o frio e a sirene dos bombeiros que tocava ao fundo criaram algo realmente mágico.

Com o avançar da manhã e o levantar do sol, o frio foi-se transformando lentamente em calor insuportável. O espaço destinado aos campistas ficou, pelo início da tarde, bastante mais composto. O Tabuão e a relva junto ao Palco Ruby continuaram a merecer a preferência dos festivaleiros.

O primeiro concerto agendado para o Palco Heineken era o dos White Rose Movement e foi pouco depois das 6 da tarde que a banda começou a fazer barulho. Da área reservada ao campismo ouvia-se alguma coisa mas pouco se percebia realmente. Cheguei ao anfiteatro natural onde o Palco Heineken foi montado a tempo de ouvir umas três ou quatro músicas desta banda, entre as quais o hit “Alsatian”. A fusão entre pop, rock, electrónica e pós-punk feita pela banda tem tido resultados agradáveis para a banda no Reino Unido mas só a uns poucos a música dos White Rose Movement não terá passado despercebida. Menos ainda do que os poucos que lá estavam dispostos a ouvi-los. É que os resultados têm sido bons a música não segue o mesmo caminho. É chata, gratuitamente ruidosa e sem grande fio condutor. Que fique registado: para todos os efeitos, os concertos só começaram às 19 horas.

O tempo entre dois concertos tinha de ter utilidade para além da comida, do café e da satisfação de necessidades fisiológicas. A reflexão sobre as bandas que iriam actuar neste dia era quase obrigatória, nem que fosse para que uma gargalhada de satisfação fosse libertada.

Os Gomez regressaram a Paredes de Coura sete anos depois de terem vindo apresentar o aclamado Bring It On (1998) ao público português. Os tempos mudaram e How We Operate, o álbum mais recente da banda, apresenta um perfil diferente, bastante mais calmo do que aquele e alguns dos álbuns mais conhecidos da banda britânica. Os Gomez adequaram o seu set às características do concerto e deram ao público cerca de uma hora de rock de grande qualidade. No entanto, e apesar de lhes apontarem sempre muita dificuldade em superar a qualidade do primeiro álbum, “How We Operate” foi dos temas mais bem conseguidos da banda naquele final de tarde. A dinâmica da banda – três vocalistas que vão alternando o papel principal – ajuda-nos a compreender a sua música. Há uma constante experimentação e adaptação do rock a várias realidades e vários géneros que tornam (e tornaram) um concerto dos Gomez numa experiência musical riquíssima.

Os noruegueses Madrugada mostraram-se em grande forma. Temas como “On Your Side”, e “The Kids Are On High Street” ganham dimensões épicas ao vivo. A voz de Sivert Høyem é grande e o resto da banda, bastante mais discreta que o vocalista, sabe disso. A banda é já a maior no seu país natal e este concerto justificou perfeitamente alguns dos motivos dessa ascensão. O rock ‘n’ roll de travo indie dos Madrugada é uma arma muito poderosa. Seja nos temas mais rápidos, como o fantástico “Hard To Come Back”, no soturno “Black Mambo II” ou na bela “Majesty”, a influência americana faz-se sentir em peso. E se em álbum, o peso acaba por ser demasiado, ao vivo é simplesmente delicioso.

Seguiu-se o melhor concerto de todo o festival. Não são equivalentes aos Arcade Fire na edição do ano anterior. Com esta banda, os Broken Social Scene partilham apenas duas coisas: enorme qualidade e o país de origem. Do Canadá, vieram nove dos mais de 15 membros deste super-grupo (em todos os sentidos). Por cá, sentiu-se a falta de Feist, por ser o nome mais conhecido do grupo. Mas não foi bem sentir a falta. É que, ao ouvir a música, a reacção relativamente a esta ausência não poderia ser mais do que um displicente “olha, ela não está cá”. Os Broken Social Scene são muito grandes. Não há palavras que descrevam a força de temas como “Superconnected” ou de “Ibi Dreams of Pavement (A Better Day)”. Dividido sobretudo entre os dois últimos álbuns da banda, o alinhamento do concerto não poderia ter sido mau. Foi uma hora e pouco de música megalómana e esquizofrénica. Os que lá estiveram podem agradecer porque viram actuar uma das melhores bandas da actualidade. Estão prestes a entrar num hiato por tempo indefinido. É capaz de passar algum tempo até que eles voltem cá. Esperemos que não.

Por melhor música que os Broken Social Scene façam, o nome mais importante da noite era Morrissey. O mítico ex-vocalista dos Smiths tinha estado em Portugal em 1999, altura em que a sua carreira perdia fulgor há já alguns anos. Com You Are The Quarry (2004) e Ringleader of Tormentors (2006), o “rei” (segundo palavras de Kevin Drew, vocalista dos Broken Social Scene) regressou a um patamar elevado a todos os níveis. E é por isto que Paredes de Coura o recebeu em boa altura: porque ele está em grande forma. Foi debaixo de muita chuva e em grande que Morrissey se apresentou ao público português pelas 23 horas: “How Soon Is Now”, dos Smiths, abriu o livro. Cada uma das músicas foi dançada e entoada em coro pelas mais de 20 mil pessoas que assistiam rendidas ao concerto. “You Have Killed Me” e “Irish Blood, English Heart” foram alguns dos temas mais fortes da noite. Moz ia trocando de camisa e brincando com o público (não faltou conversa sobre o Mundial de Futebol com provocações à mistura) entre músicas. A banda que o acompanhava era boa, o som estava bom e o ambiente estava fantástico. As temáticas abordadas dão uma dimensão algo surreal àquela alegria toda: namorada em coma, primeiro do grupo a morrer… tudo na maior das festas. “Panic” ia encerrar o concerto e foi o que aconteceu… mas um tanto ou quanto mais cedo. O músico abandonou o palco a meio da música e a banda terminou-a discretamente. Morrissey não voltou ao palco. Fala-se de problemas de voz e de microfone… mas que interessa? Foi um anti-clímax, é verdade… mas ele pode fazê-lo impunemente porque “é assim” e porque, diga-se, deu um grande espectáculo. As pessoas queriam uma despedida conveniente. Não tiveram direito. Paciência.

A chuva não parou e eu desisti de esperar pelos Fischerspooner. Ouvi-os da mesma forma que tinha ouvido o início do concerto dos White Rose Movement: muito mal e a ecoar por todo o lado.

Texto: Filipe Marques
Fotos: Filipe Marques e Patrícia Gomes

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~ por hiddentrack.net em 15, Agosto, 2006.

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