Paredes de Coura ’06, III

A estreia dos Bloc Party em Portugal correu às mil maravilhas. A chuva caiu durante todo o dia mas parou à noite. Os Gang of Four mostraram que ainda estão vivos e os Yeah Yeah Yeahs que têm uma vocalista fantástica. Por outro lado, os We Are Scientists foram um fim tristíssimo para uma noite tão boa.

:: 16 de Agosto de 2006

A chuva que tinha começado a cair no dia anterior, um pouco antes do concerto de Morrissey, manteve-se de manhã e à tarde com muito poucas interrupções. A tenda era velhinha, chovia lá dentro. De calções e t-shirt, aventurei-me numa viagem até à vila para comprar impermeáveis e sacos e/ou manga de plástico. Grande espera com final relativamente feliz: fui, após alguma procura por parte da senhora da loja, um dos últimos contemplados com capas, a par de outro senhor. Fui comprar pão e voltei para remendar a tenda. A tenda ficou visível mas equivocadamente remendada. A tarde serviu para dormir mais um pouco, que com chuva não há muito para fazer na rua. E não se pode dizer que a vontade de ir até ao Centro Cultural de Paredes de Coura – que é à entrada da vila – ver o concerto previsto para o Palco Ruby fosse muita. Não era.

Devido à sesta e a um banho tardio, não vi o concerto dos Vicious Five. Como já os tinha visto antes – mais especificamente no Super Bock Super Rock – não me preocupei muito. O vocalista lá cantava com a sua voz extremamente aguda por cima de música extremamente rápida e forte. Deu para perceber que terminaram o concerto com um tema relativamente habitual nos alinhamentos da banda: o clássico “(You Gotta) Fight For Your Right (To Party)” dos Beastie Boys. Entretanto tinha parado de chover a tempo inteiro. E, durante os concertos da noite, sobreviveriam apenas umas pinguinhas ocasionais.

Cheguei ao espaço do Palco Heineken um pouco antes do concerto dos Eagles of Death Metal. E eles chegaram sem o Josh Homme mas com o grande Jesse Hughes lá na frente. O set pareceu-me mais longo do que o habitual para aquelas horas mas não faz mal. Hughes aproveitava os intervalos das músicas para dizer coisas como “we’re an amazing band” e “let’s hear it for the ladies” e falar de como estava maravilhado com Portugal e com o público do festival. E após um ou outro “are you ready to rock ‘n’ roll?” lá começavam as músicas. O poderoso single “I Want You So Hard (Boys Bad News)” e “Cherry Cola” foram alguns dos temas de Death By Sexy (2006) que se destacaram no set, assim como “So Easy”, do álbum de estreia da banda, e “Brown Sugar”, uma cover dos Rolling Stones. Os Eagles of Death Metal vivem em grande parte da figura convencida e caricata do seu frontman. O bigode de Hughes fazia furor entre os mais desprevenidos mas a música terá também conquistado mais alguns adeptos. É certo, no entanto, que sem os intervalos humorísticos o concerto teria sido bastante mais aborrecido.

Pelas 8 e tal da noite, entrou o guitarrista dos Gang of Four. Aquela figura empertigada tocava duas notas na guitarra repetidamente como que a anunciar o início do concerto. O resto da banda entrou e começou o espectáculo. O som era cru, sempre dominado pelo baixo de Dave Allen. Jon King vagueava pelo palco em danças estranhas. O guitarrista e ocasional vocalista Andy Gill continuava empertigado. O baterista deu bastante menos nas vistas. Mas de regresso à música… com passagem obrigatória pelos seus principais temas, os Gang of Four apresentaram um espectáculo que, por não ter toda aquela vertente pop com que se conota hoje em dia o pós-punk (o revivalismo ainda mais), não parece ter entusiasmado muito a grande maioria da assistência. Mas não era por isso que eles lá estavam: o espectáculo era estranho, algo decadente e negro, a música seca recebia choques da voz (a espaços) desesperada de King. Em “He’d Send in The Army”, tema de Solid Gold (1981), conseguiram mesmo reunir a atenção de todos os presentes com o ritual de sacrifício de um micro-ondas em palco. O vocalista, um taco de baseball metálico e um micro-ondas em perfeita sintonia musical. O micro-ondas foi sendo amolgado e partido em detrimento da causa maior da reverberação metálica e todos ganharam com este momento. É quase injusto que esta seja a grande recordação do concerto… mas é certo que o resto não ficará totalmente esquecido.

Jantar, Yeah Yeah Yeahs. Entram com impermeáveis e roupas bastante coloridas por baixo. O trio transformado em quarteto era bastante esperado pelo público, pelo menos a julgar pela adesão massificada ao espectáculo. Pessoalmente, não esperava muito. Os Yeah Yeah Yeahs nunca me entusiasmaram por aí além. Mas se a música vive sobretudo da voz de Karen O, o mesmo se pode dizer do concerto. Ela é uma diva moderna, mesmo quando mete o microfone todo na boca ou cospe água pelo bem do espectáculo. Vestida de amarelo e mais algumas cores, com a cara pintada, Karen O deu a Paredes de Coura o que podia dar. Muita energia, sensualidade e irreverência. Quanto à música, “Gold Lion” distinguiu-se das restantes canções por ser mais catchy e um pouco menos nervosa. Um pouco de música e dança e muito carisma. Resumindo, uma surpresa muito agradável.

O concerto da noite era o da estreia dos Bloc Party em Portugal. Eles são a prova viva de que o som associado às imagens dos concertos que se vêem na televisão são muito enganadoras. No documentário que vem com uma edição especial de Silent Alarm, tive oportunidade de ver vários temas tocados em concerto e parecia que aquilo não enchia o palco. Eu gosto mesmo muito da música… mas não esperava um grande concerto. E estava claramente enganado. O primeiro tema foi um inédito e provocou alguma incredulidade: só Kele Okereke à guitarra e um falsete manhoso não “é” Bloc Party. Pois não, por isso transformou-se pouco depois em tema de banda completa, aparentemente menos apressado que o que é comum na banda. A ter em atenção daqui a, esperemos, alguns meses, quando o álbum sair. Pois bem, não obrigatoriamente por esta ordem, foram sendo disparados “Positive Tension”, “Banquet”, “She’s Hearing Voices” e “Helicopter”, alguns dos temas mais conhecidos da banda. A música enchia o palco e estavam todos rendidos. Até a gasta “Banquet” me pareceu bem. Foram, na voz de Okereke, muito simpáticos, o que ajudou à rendição. Ainda tocaram mais um tema novo, desta feita mais perto do que a banda nos deu a conhecer, e foi o último porque a estreia dos Bloc Party em Portugal não podia deixar de parte “This Modern Love”, “Price of Gas”, “Little Thoughts” e a fantástica “Two More Years”. Eu cá tirava “Blue Light” pela mais soturna “Plans” ou por “Compliments”, dois dos temas mais calmos e escuros de Silent Alarm. Mas a escolha compreende-se. Coesão e tal. “So Here We Are” fechou um grande concerto, um dos melhores de todo o festival.

E se há dúvidas relativamente a colocar bandas a tocar no palco principal a seguir aos cabeças de cartaz, os We Are Scientists esclarecem-nas. Por terem vindo a seguir aos Bloc Party, por não serem mais do que uns sortudos premiados com o hype fomentado por alguns meios de comunicação internacionais especializados, porque são meros chicos-espertos à americana. Pois bem, temos pena mas não são linhas como “My body is your body / I won’t tell anybody / If you want to use my body / Go for it” (“Nobody Move, Nobody Get Hurt”, esse desprezível single) que fazem com que uma banda seja boa. E porque os We Are Scientists não são sequer bonzinhos, a música deles foi um merecido suplício para aqueles que, como eu, se mantiveram firmes junto ao palco. O vocalista e o baixista faziam conversa estúpida entre músicas e, do nada, interrompiam-se com o início de novo tema. Foram horríveis, como seria de esperar. Só é pena não ter começado a chover torrencialmente logo ali.

Texto: Filipe Marques
Fotos: Filipe Marques e Patrícia Gomes

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~ por hiddentrack.net em 16, Agosto, 2006.

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