Paredes de Coura ’06, IV

No último dia do festival, a chuva voltou em força aos concertos mas tanto os Cramps como os Bauhaus deram conta do recado. Ainda assim, este foi o dia mais fraco do festival, com os Maduros martirizados pelo vocalista, os Shout Out Louds pouco relevantes e os Cat People a fazerem mais do mesmo pós-punk esgotado para novas entradas. Os !!!, por seu lado, parecem ter vindo para ficar: mais um grande concerto que pôs todos a dançar.

:: 17 de Agosto de 2006

O início do último dia do festival começou sem chuva. O céu alternava entre o muito nublado e o pouco nublado. A tenda secou. Os concertos do Palco Ruby mantiveram-se programados para o Centro Cultural. Arrumei estrategicamente a mochila para desacampar aí às 5 da manhã. É que o expresso era às 6 e tinha de regressar cedo a Lisboa. E, mais uma vez, atrasei-me para o primeiro concerto da tarde.

Os espanhóis Cat People já estavam no Palco Heineken há algum tempo quando cheguei. E não, os Joy Division não estão de volta; e não, os Interpol, infelizmente, não vieram a Paredes de Coura este ano. A música dos Cat People estava tão colada à destas bandas que, se não fosse a má pronúncia inglesa, possivelmente teriam enganado alguns festivaleiros menos atentos (ou sóbrios). As duas músicas que ouvi (uma dos Stone Roses, já agora) foram isto e pouco mais. As anteriores tinha ouvido muito mal e a ecoar por todo o lado, como habitualmente.

O último dia do festival não me entusiasmava muito à partida. Parecia um tanto ou quanto desequilibrado e fora da mãe. Maduros… Bauhaus? Shout Out Louds… The Cramps? Está bem. Os Shout Out Louds trouxeram alegria e doçura ao dia mais estranho do Festival Heineken Paredes de Coura 2006. A Suécia tem esta tradição pop e parece disposta a mantê-la. Mais uma vez, apetece frisar a pronúncia inglesa terrível. Mas apetece também dizer que eles não tentaram ser artsy nem empurrar as fronteiras da música e tudo o resto. Com letras simples sobre guitarras e sintetizadores a tocar de forma simples melodias simples, a música dos Shout Out Louds só podia ser simples. Foi pouco menos de uma hora a abanar singelamente a cabeça de um lado para o outro, contendo alegres “lalalas”.

Seguiram-se os Maduros, a nova banda portuguesa constituída por alguns ilustres membros da nossa praça musical. O grupo deu ao público rock com ares de punk e parte do público retribuiu sentando-se. Primeiro, ninguém conhece os Maduros. Depois, Zé Pedro é – lamenta-se – um vocalista mesmo terrível. As letras são da mesma qualidade (não que as pessoas liguem muito a isto). Resumindo, a música nem é má. Aliás, Alexandre Soares deu um mega-espectáculo só por si. Jorge Coelho também não esteve longe desse patamar. Fred e Pedro Gonçalves na bateria e baixo, respectivamente, também estiveram competentes. Portanto, a música não era muito interessante e o principal membro da banda (pela voz, não pelo nome) era muito fraquinho. Quase se compreende que tenha havido tanta gente a sentar-se e a aplaudir quando Zé Pedro disse que iam tocar só mais uma música (“The Call Up”, dos Clash). Mas é pena.

Seguiram-se os muito esperados !!!. Funk, dança, punk, muita percussão e um vocalista absolutamente maluco fizeram deste um dos concertos mais fortes do festival. Eles já tinham estado em Paredes de Coura no ano anterior e regressaram com o mesmo álbum, com as mesmas músicas. Mas foi impossível ficar indiferente. Não interessavam letras nem melodias porque aquilo era dança e suor em todos os momentos. Eles gritavam e cantavam ocasionalmente. Quando entravam as duas baterias, enlouqueciam eles, enlouquecia o público. Os !!! – é lugar-comum fazer-se uns trocadilhos com o nome da banda e com a música… mas não é totalmente despropositado – conseguiram pôr toda a gente a dançar com eles. Ninguém terá conseguido imitar a dança supostamente sexy de Nic Offer mas isso pouco importa. Ainda teve tempo para trocar umas palavras sobre o número de vezes que viu os Cramps com uma rapariga pouco entusiasmada que estava junto à grade esperando ansiosamente pela mítica banda. Fica aqui o resultado final: com o concerto que se seguiu, 3-2 para Offer.

Comemoram em 2006 trinta anos de existência. São trinta anos de espirituosas referências a Satanás, a sado-masoquismo, a sangue a mortes horríveis. Lux Interior e Poison Ivy são os míticos fundadores dos Cramps, a banda rockabilly mais negra da história da música. A nível da música, o concerto dos Cramps não pode ser uma novidade: rockabilly perverso e doentio, mas rockabilly. De resto, as temáticas abordadas foram graciosas e a chuva que começou a cair com força provou que “Deus odeia os Cramps”, segundo Lux. Muito vinho foi cuspido daquela boca, muito dele ficou espalhado no palco. O tripé do microfone acabou partido e o microfone foi por diversas vezes parar dentro da boca do vocalista assim como as mãos deste foram parar dentro das suas calças. Tudo fez parte do espectáculo – e que espectáculo – e tudo foi aceite com gratidão pelo público. Poison Ivy continua ali com umas pernas de fazer inveja a muita moça nova mas foi em Lux Interior que as atenções se centraram. Subiu às colunas que davam som para o palco e cantou de lá de cima; cantou/berrou deitado no chão; lambeu os sapatos de Poison Ivy enquanto esta tocava guitarra; e por aí fora. Como foi dito, faz parte do espectáculo desde os anos 70. Porquê mudar agora?

O último dia do festival não tinha bandas a actuar no palco principal depois dos cabeças de cartaz e, por isso, os Bauhaus actuaram mais tarde do que Morrissey e Bloc Party. Quando entraram em palco, foram recebidos em êxtase por todos os presentes. Naquela noite, todos foram góticos por um bocado. A música negra e cerebral dos Bauhaus foi o ponto alto de uma noite marcada pelo regresso em força da chuva. Peter Murphy continua impecável no papel principal e a sua voz parece não dar sinais de fraqueza. O alinhamento do concerto foi constituído, como tem acontecido nos últimos anos, pelos maiores temas da banda maior do género. Só podia ter sido um grande concerto e o encore final ofereceu a explicação: relembraram os também míticos Joy Division com “Transmission” mas “Bela Lugosi’s Dead” foi a forma perfeita de terminar um concerto que a chuva não conseguiu importunar.

É pela música que o Festival Heineken Paredes de Coura 2006 será recordado. Mas por este andar, todas as edições deste festival minhoto serão obrigatórias para os viciados em melodia.

Texto: Filipe Marques
Fotos: Filipe Marques e Patrícia Gomes

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~ por hiddentrack.net em 17, Agosto, 2006.

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