Gaiteiros de Lisboa – Sátiro

O ano de 2005 foi, em termos de edições nacionais, o que já se sabe: um ano de vacas magras. Esperava-se então que em 2006 a colheita de discos nacionais fosse rica, como tinha sido há dois anos atrás. Infelizmente, até ao momento, isso não está a acontecer. Claro que há sempre excepções e surpresas. O quarto registo dos Gaiteiros de Lisboa é uma dessas excepções. E são precisas mais excepções destas. Além da crise das vendas, vive-se actualmente uma crise de boas produções.

À primeira vista pode catalogar-se a música dos Gaiteiros de Lisboa somente como tradicional. Mas tal catalogação é tão redutora quanto dizer que os Radiohead são apenas uma banda pop/rock e nada mais.

Pelos Gaiteiros de Lisboa, a música tradicional portuguesa, venha ela de qualquer ponta do país, é esquartejada e baralhada com mil e uma músicas de muitos outros mundos. Vamos à Galiza, às Arábias, à Ásia, e sabe-se lá mais aonde, percorre-se o mundo em festa e em permanente alegria ao som dos Gaiteiros.

As treze faixas que compõem Sátiro preenchem-nos de forma absoluta, contagiam qualquer um com toda a sua diversidade melódica e o seu humor refinado. Em qualquer uma das músicas dos Gaiteiros existe uma diversidade e riqueza musical que nos espantam e fazem com que a admiração por eles seja cada vez maior.

Percussões tribais, hipnóticas mesmo (“Pracá-dos-Montes” ou “Haja Pão”), xilofones, flautas, clarinetes, violinos, instrumentos criados pelos próprios músicos (como os “tubarões” ou “cabeçadecompressorofone”) e tantos tantos outros instrumentos, tocados cada um com mestria, prazer e ganas em fazer algo maior que o conservadíssimo e apático meio musical nacional, fazem dos Gaiteiros de Lisboa um dos colectivos obrigatórios a qualquer um que se preze como amante de boa música.

A carreira destes sete músicos já chega aos quinze anos, mas a música, o espírito e a garra inerentes a ela, continuam a ser bem mais joviais e estimulantes que muita música nova que se faz por aí por jovens de 20 e poucos anos, que na criatividade mais se assemelham a velhos do Restelo.

Há em Sátiro uma grande riqueza melódica, onde tantos instrumentos dançam contentes numa salganhada nada confusa. Eles brincam entre si, pregam-nos partidas, aliam-se na perfeição a jogos de vozes que Brian Wilson não desdenharia ter sido criador e tudo numa mistela saborosa que obriga o ouvinte a pular e dançar em perfeita harmonia com tudo à sua volta e a cantar sobre velhas, sopas com picantes ou freiras.

Agora é preciso seguir este exemplo de espírito aventureiro para o resto da música nacional.

8/10 | João Moço

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~ por hiddentrack.net em 20, Agosto, 2006.

 
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