Plan B – Who Needs Actions When You Got Words

A primeira vez que ouvi o Plan B foi no primeiro volume da excelente compilação dedicada ao grime, Run the Road, compilada pelo jornalista Martin Clark. Nessa compilação presenteava-nos com o tema “Cap Back”, em conjunto com Wonder, mas este tema estava muito longe do que Plan B é hoje.

Depois nunca mais ouvi falar dele até ao início deste ano, quando começaram a circular algumas músicas dele, entre as quais “Dead & Buried”. Aí podíamos ouvir um rapper branco, tipicamente british, a rappar enquanto tocava uma guitarra acústica. Pareceu estranho mas gostei. Mais tarde chegou-me aos ouvidos o disco Who Needs Actions When You Got Words, que muito injustamente tem passado despercebido.

Há quem diga que isto é grime, na minha visão acho que é uma catalogação bastante errada. A única semelhança que poderá ter com o grime é na agressividade das estórias que conta. De resto, instrumentalmente afasta-se por completo deste movimento urbano.

A estreia de Plan B é sempre pautada num registo acústico, seja pela guitarra acústica, pelos pianos, pelos conjuntos de cordas que subtilmente, ou de forma mais aparatosa, vão dando sinal de vida, ou pela bateria.

Mas passemos à frente, o que interessa realmente no disco são as muitas estórias que Plan B conta com mestria. Neste ponto, percebe-se as sucessivas comparações a Mike Skinner (mentor do projecto The Streets), mas enquanto este se dedica a retratar fiel e brilhantemente o quotidiano que o cerca, Plan B é um contador de pequenas estórias, que se situam sempre no limbo entre a ficção e a realidade. São quase como mini-contos que se focam sempre no sofrimento, na depressão e na revolta das suas personagens.

Assim, percebe-se também as várias referências que Plan B faz no disco ao rapper Nas. Ambos fazem um relato das vivências quase claustrofóbicas no meio urbano em que se inserem, mas claro que Plan B ainda tem que comer muita papinha para chegar à genialidade lírica de Nas, além de que está muito longe do flow imparável no norte-americano.

O disco abre com o single “Kidz”, onde Plan B condena a futilidade e ignorância de muita da juventude de hoje em dia (“Pick up an AK and spray, that’s the mentality of kids today, fuck a girl and get her pregnant underage, that’s the mentality of kids today”). Plan B não se revê nessa juventude, onde miúdos de catorze anos (“I’m a control freak and I’m only 14 years old”) não têm quaisquer projectos e estão dominados pela violência (“I’ll leave him in an alleyway screaming and bleeding to death, run away laughing my head off as I leave him for dead…killing ain’t a crime it’s a fucking blood sport”).

Mais à frente ouve-se “Dead & Buried”, que relata três estórias numa só canção, que aparentemente estão desligadas entre si, mas têm muito em comum. Na primeira, a personagem chama-se Jack e é um infectado pela SIDA, que agora se arrepende da sua inconsciência (“All this pain I’ve inflicted on myself always thought casual sex was doing me good never bad for my health, what a foolish thing to think if I had an ounce of heart left”). Na segunda é Alex a figura central, um viciado em droga, cuja esperança já há muito se foi (“I’ve become a slave to this addiction…I’m too far gone now to ever be saved I’m dead and buried”). A última estória é sobre um anónimo que vai parar à prisão porque agrediu violentamente o namorado da sua irmã, quando o apanhou a violá-la e a agredi-la, ficando preso num mundo de violência e drogas. É duro ouvir muitas das estórias que Plan B encarna, mas ele fá-lo como ninguém.

“Mama (loves a crackhead)” é uma canção de angústia dum filho que vê a sua mãe a ser usada e abusada por alguém que é viciado em crack e só essa droga preenche o seu pensamento (“I know the truth hurts mama, but this shit has got to be said, he doesn’t love you, he never has and that’s a fact, cause the only thing he really loves in this world is crack”).

Em “Charmaine” ouve-se Plan B a contar como se apaixonou como nunca por uma rapariga que encontrou no metro, mas no final fica a saber que ela apenas tem 14 anos. Mais à frente começa-se a ouvir um piano singelo. Não é propriamente isto que se espera num disco de hip hop. Depois Plan B canta calmamente, enquanto um violino depressivo dá ares da sua graça, e volta depois a rappar. “Everyday” é um misto de depressão, de desesperança em tudo (“Darkness surrounds me drowning me in sorrow, coz I know today will be no different from tomorrow”). Ouve-se um dedilhar duma guitarra acústica repetitivo que, juntamante com um subtil coro aumenta a tensão do tema. Uma das mais bonitas canções depressivas do ano. E logo de seguida ouve-se a estória mas aterradora e agressiva de todo o disco, em “Tough Love”. Aqui é relatada a vida de Sonita, uma muçulmana que não se revia no fundamentalismo religioso da sua família e que um dia revolta-se e decide fazer o que todas as outras raparigas faziam. Quando tal acontece é agredida até à morte pelos seus pais, que não mostraram qualquer remorso no que fizeram (“This day they show no remorse, their idea of parental guidance will always be to use force”). E o pior é que esta canção é baseada num acontecimento verídico.

Se Mike Skinner precisasse de sucessor, Plan B era o ideal. Uma das grandes estreias do ano. Dêem-lhe mais atenção que o talento de Plan B merece.

8/10 | João Moço

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~ por hiddentrack.net em 24, Agosto, 2006.

 
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