Helios – Eingya

O ano passado, a francesa Colleen, com o seu belíssimo disco The Golden Morning Breaks, levava-nos aos céus, a uma realidade que poderemos de apelidar de paraíso. Talvez não o paraíso propagandeado pelas várias religiões e crenças que se espalham pelo mundo fora, mas sim um paraíso só nosso, inteiramente pessoal, um paraíso que cada um cria em si e que é sentido muito individualmente e de forma profunda.

Este ano, Keith Keniff, sob o pseudónimo Helios, encarrega-se duma tarefa semelhante, embora o faça de forma diferente.

Há discos que são mais difíceis de falar do que outros. Talvez pela relação que tenhamos com eles. Talvez porque nos dizem tanto e tocam-nos de tal forma que parece indescritível tudo aquilo que sentimos ao ouvi-los. Este Eingya é um desses casos.

Há uma beleza reconfortante que domina todo o disco. Talvez seja aquele disco que precisamos quando pensamos que nada à nossa volta faz sentido. Este é aquele disco que nos bate no coração e diz que ainda há um mundo lá fora que vale a pena ser descoberto, por muitas esperanças que tenhamos perdido. Este é aquele disco que nos faz querer aninhar no ombro amigo que todos precisamos, e assim ficar para sempre.

Os sintetizadores são etéreos, quase ambientais, a fazer lembrar por vezes um Brian Eno do tempos do Music for Airports 1. As guitarras são tocadas com uma extrema delicadeza, para não perturbar a fragilidade que aqui se sente. O piano é singelo, as suas notas caem como gotas de água pura. Tudo isto envolve o ouvinte como se ele se encontrasse num casulo e só ali sentisse que está seguro. Mas a bateria que por vezes se ouve fá-lo olhar mais além e encarar tudo à sua volta com outros olhos, encontrar beleza nos locais mais recônditos e inesperados.

Não se ouvem palavras, mas a melancolia está intrinsecamente presente em cada segundo. Sente-se um arrepio que quase nos congela, pensamentos nostálgicos afloram pela mente, mas nenhum desses pensamentos tem de ser necessariamente triste. São lembranças de momentos de alegria e prazer que se recordam, que se sabem que não poderão ser vividos outra vez, mas que, ainda assim, nos confortam por os termos vivido tão intensamente.

Há discos que, por muito que nos esforcemos, não nos permitem encontrar as palavras perfeitas para o retratar. Eingya não é para ser falado, é para ser ouvido e vivido cada segundo, sem excepção.

8/10 | João Moço

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~ por hiddentrack.net em 27, Agosto, 2006.

 
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