Moho + If Lucy Fell + Adrift no Barracudas Rock Bar, Madrid

:: 18 de Setembro de 2006

Quis a ironia do destino, e leia-se aqui destino como última paragem de uma viagem, que o meu primeiro concerto desta estadia em Madrid fosse de uma banda portuguesa. A pequena sala do bar Barracudas recebeu os If Lucy Fell no seu último concerto de uma digressão longa e dura. As mazelas eram visíveis em Makoto, vocalista excêntrico da banda, que tinha o pulso partido após uma violenta queda em Portimão.

Mas a noite não era só para rever conterrâneos, era também para iniciar a descoberta da cena underground espanhola que, por antecipação, seria muito rica e diversificada. Assim sendo, a acompanhar o quarteto português estiveram os Moho, banda que encerrou a noite, e os Adrift. Ambas madrilenas.

Estes últimos apresentaram-se em palco com um som potente que circundava o sludge com segmentos bastante lentos, mais próximos de um doom convencional. Durante cerca de 30 minutos entregaram-se em palco com vigor e determinação. Estavam a tocar em casa, rodeados de amigos, e sentia-se esse à vontade familiar em palco. Guitarras dissonantes e uma voz monocórdica que cuspia palavras imperceptíveis ao estilo de Kurt Ballou (Converge). Seria inglês? Castelhano? Não foi possível decifrar através das colunas do Barracudas qual o idioma escolhido pelos Adrift nem qual a sua mensagem. Mas o tom era negro, certamente. O ponto mais fraco dos Adrift poderá encontrar-se na secção rítmica que se tornava por vezes demasiado previsível e simplista. Mesmo que lentas, as composições pareciam pedir mais da bateria e os padrões escolhidos por Jaime não foram dos mais interessantes de se ouvir. No geral, um bom concerto e uma boa descoberta.

Em seguida subiam ao palco os Botch lusitanos, os If Lucy Fell. A comparação não tem apenas um intuito descritivo e serve também para os engrandecer. E eles foram grandes em Madrid. Foi um concerto que terminou uma estrada repleta de tantos outros e o público madrileno soube recebê-los. Não tiveram outra opção, os If Lucy Fell não deram tréguas em palco e Makoto foi o espelho de uma actuação nervosa, irrequieta e inquieta. Percorrendo quase todo o seu primeiro disco, You Make Me Nervous, não faltaram os temas mais conhecidos e contagiantes como “As Simple As Giving A Name To This Song”, “10×10 Minute Drive”, “Escapist” ou “What If She Fell?”. Desconhecidos de grande parte do público que compareceu no concerto, a música dos If Lucy Fell assemelhou-se a uma esfera espinhosa e perigosa caída do céu. E que o digam aqueles que, como eu, estavam na linha da frente perto de Makoto e que tiveram que se desviar e defender constantemente do tripé do microfone e do próprio corpo do lesionado vocalista. Se pensam que um pulso partido seria capaz de refrear o nipo-descendente, enganam-se. Makoto apresentou-se em palco com movimentos de “dança” dignos de um Travolta numa má experiência com ácidos.

Mas a actuação da banda portuguesa foi assombrada por algumas dificuldades técnicas. Apesar da sala possuir um bom sistema de amplificação e uma boa acústica, os If Lucy Fell não conseguiram aproveitar-se dela ao máximo. A guitarra de Rui esteve um pouco tímida e a voz principal um pouco baixa. Outro detalhe menos positivo foi o romper de peles do bombo perpetrado pelo furioso Hélio que resultou num interlúdio forçado e que quebrou ligeiramente o ritmo da actuação. No final, restava o regresso a casa para regenerar o corpo e o espírito com a certeza de transtorno cumprido.

O burburinho em torno da restante banda espanhola, os Moho, fazia antecipar um bom concerto. E estave certo. Este trio composto por Raul, Iñaki e Eduardo demonstrou como fazer uma besta musical com relativa simplicidade. Baixo distorcido, guitarra grave e uma bateria tensa que caía lentamente e assaltava os sentidos, foram os ingredientes utilizados pelos Moho. Um estilo sludge cheio de stoner rock e impressões doom que deixou rendidas as dezenas de pessoas que enchiam por completo o Barracudas. As composições dos Moho, apesar de se encontrarem predominantemente numa penumbra sufocante típica da sonoridade doom, conseguiam libertar-se em riffs com reminiscências de Back Sabbath e Kyuss que fizeram abanar a cabeça veementemente. A voz é esporádica, servindo apenas para ajudar a cavar uma sepultura sensorial. Foi uma mistura sonora quase perfeita. Algo discretos em palco, os três elementos concentravam-se em executar as suas músicas da melhor forma possível o que resultou numa actuação coesa, segura e polida. Quando tudo soa bem em palco é fácil para o público aderir às ondas sonoras.

Não é de estranhar, portanto, que os Moho tenham conseguido o melhor desempenho da noite. Para que não pareça contraditório, dadas as descrições feitas, é natural que tenham sido os If Lucy Fell a banda que mais energia teve em palco e que melhor se entrosou com o público, é típico do seu estilo musical. Os Moho, numa variante bem mais contemplativa, elevaram-se pela densidade sonora. E, curiosamente, apesar da distinta natureza musical das três bandas, a noite teve um sentimento de homogeneidade e de pertença. Foi suficientemente diversificada para não entediar ninguém e conseguiu manter um mesmo espírito independente e alternativo em fazer música violenta e desviante. Quanto baste.

Para terminar fica alguma informação adicional útil. Em Madrid é necessário ter-se uma boa conta bancária para se desfrutar da noite. A entrada do concerto foi de apenas 6 euros, mas um copo de cerveja ascendia aos 7 euros! É verdade… aqui a sobriedade é inversamente proporcional à dimensão carteira. Quanto mais pequena é a carteira, maior é a sobriedade. E a minha está bem pequena…

Texto e fotos: Gonçalo Sítima

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~ por hiddentrack.net em 18, Setembro, 2006.

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