Liars ao vivo no Club Lua

Se em vários momentos da discografia dos Liars a sua música atingia níveis de absorvência e de força enormes, ao vivo todo o universo da banda é extrapolado para uma dimensão muito maior do que a que imaginávamos.

:: 26 de Setembro de 2006


Por volta da meia-noite entram os três membros da banda em palco, Angus Andrew, Julian Gross e Aaron Hemphill, e entram a matar.

Julian Gross e Aaron Hemphill marcam o ritmo diabólico com umas percussões poderosíssimas. Ao vivo estas adquirem uma força e uma crueza inexplicáveis, espancam os espectadores sem dó nem piedade, enquanto que Angus Andrew revela logo desde o início a figura bem peculiar e teatral que é.

Este entra com um fatinho todo janota, mas por cima tem vestido um fato-macaco de mecânico branco. Ele grita, ele canta, dança hipnotizado, arranca uma corda da guitarra eléctrica e toca com ela pendurada ao pescoço. Ele sua por todos os lados, cospe por todos os lados, quase que come o microfone, não pára um segundo. Quem o vê fica absorvido com tanta energia e loucura que assiste em cima do palco.

Angus Andrew encarna na perfeição a música dos Liars. Todos os ambientes alucinantes que nos hipnotizam e nos atiram ao chão com violência, e no mesmo segundo nos transportam para as irrealidades mais dispersas entre si, tudo isto está focado em Angus Andrew, na berraria que produz, nas suas danças desconexas.

É impressionante ver e ouvir a brutalidade com que Julian Gross toca bateria. A crueza dos sons que daí extrai obriga qualquer um a mover a cabeça e todos os membros a uma velocidade tal que provoca que, ao final da noite, já ninguém sinta o pescoço ou os braços. Aaron Hemphill, com o sintetizador ou guitarra, dava ao concerto a sensação que todos estávamos a viver ali uma trip infernal. Quando se entregava às percussões o clima tribal tornava-se ainda mais assustador e fantástico.

Enquanto o concerto decorre a uma velocidade impossível de acompanhar, Angus Andrew vai despindo o fato-macaco, conta-nos que na noite anterior ao concerto em Lisboa, no Porto, houve fãs que lhe quiseram roubar os sapatos, faz passos de pseudo-magia em cima duma caixa.

A partir de “Broken Witches” (do segundo disco They Were Wrong, So We Drowned) até ao grande final, os momentos altos vão sucedendo-se a bom ritmo, a energia e entrega tanto em palco como no público é cada vez mais calorosa. Neste tema só temos vontade de gritar a altos berros com Angus Andrew “I, I, I am the boy, she, she, she is the girl, he, he, he is the bear, and we, we, we are the army you see through the red haze of BLOOD BLOOD BLOOD BLOOD BLOOD!!!”.

Ao vivo os Liars, além de estarem completamente enfeitiçados pela sua música, querem enfeitiçar todos à sua volta. E o melhor é que o conseguem fazer perfeitamente.

Mais para o final, que por pouco não deitou o Clube Lua abaixo, Angus Andrew aparece em palco com um vestido de senhora vermelho, mas nem por isso se mostra menos possuído do que já estava, apesar de mandar beijos para o público.

Acabam a estoirar por todos os cantos com uma cover dos Nirvana, “Territorial Pissing”, e a deixarem a sensação que um concerto deles ultrapassa todos os conceitos básicos que se tenham dum concerto. É uma experiência única de se viver. E não foi preciso tocarem a pérola “The Other Side of Mt. Heart Attack” (se a tocassem, iria estar completamente descontextualizada).

A primeira parte foi da responsabilidade dos Deerhunter e foi uma excelente surpresa. O vocalista parecia mais um esqueleto andante que outra coisa, e com a sua voz produzia efeitos sonoros bem interessantes, havendo certas alturas em que esta se fundia na música totalmente, era um instrumento tal como todos os outros. Baixo e bateria davam por vezes um ritmo punk-funk, as duas guitarras entrelaçavam-se uma na outra, sentia-se de tempos a tempos um ambiente mais noise, tudo com bastante força. Uma banda a descobrir melhor, sem dúvida.

Texto: João Moço

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~ por hiddentrack.net em 26, Setembro, 2006.

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