Mogwai ao vivo em Madrid

Meses após o lançamento de Mr. Beast, os Mogwai regressam à capital espanhola para um concerto sonicamente esmagador. Encabeçando uma vaga crescente de bandas de pós-rock, o quinteto escocês certifica-se que demonstra em concerto qual o resultado de mais de uma década de experimentação, modelação de ruído e melodias quase apaziguadoras.


:: 1 de Outubro de 2006

Uma noite por entre ruídos

O concerto desta noite levou-me até ao Rio Manzanares cuja ribeira alberga uma das melhoras salas de concertos de Madrid, La Riviera. O seu nome adequa-se à sua posição geográfica. Mas o Verão e as obras na cidade não foram gentis para com o principal rio que atravessa a capital espanhola e perto da Puente de Segovia, onde se situa a sala, apenas se podiam avistar umas pequenas poças entre os montes de areia e cimento e as armações metálicas.

Em dia de derby futebolístico madrileno, as ruas tinham uma diferente agitação e aos poucos aglomeraram-se à porta da La Riviera dezenas de pessoas com um estilo transversal (talvez universal também) e indicativo que iria acontecer neste local um concerto de rock, ou melhor, de rock alternativo. À semelhança do ritual futebolístico, também aqui foram plantadas pequenas bancas ambulantes, alimentadas por geradores, onde senhores de bigodes farfalhudos e camisas abertas vendiam bebidas e carnes grelhadas. Uma festa.

Já dentro da sala, o primeiro a saudar as centenas de madrilenos foi o ex-membro dos Vaselines, Eugene Kelly. Volvidos os últimos anos da década de 80 onde a sua banda conseguiu germinar algum do rock que se fez nos anos 90, Eugene Kelly assume-se agora como um cantautor que não esconde a sua herança cultural escocesa. Acompanhado somente com uma simples guitarra, um foco branco e um microfone, a sua música não estava destinada a ser apresentada numa sala com as dimensões de La Riviera. Nela não foi possível criar a intimidade necessária para se poderem absorver as baladas cheias de acordes e as letras autobiográficas do escocês. Estava tudo demasiado alto, demasiado gigantesco, aguardando a chegado dos Senhores Besta. Dizer que Eugene Kelly esteve mal seria errado e até rude. A experiência de palco e os anos de viagens dão-lhe a solidez para ter uma presença segura e descontraída, podendo apresentar as suas composições sem pretensiosismo. Do imaginário dos montes escoceses, às experiências com drogas psicadélicas e passando por alguns temas dos Vaselines onde se incluíram “Molly’s Lips”, “Sun Of A Gun” e “The Day I Was A Horse”, Eugene Kelly abriu a noite educadamente, mas sem deslumbrar.

À devida hora assinalada surgem em palco os cinco elementos escoceses por quem todos esperavam. Em palco podia ver-se toda a parafernália amplificadora e de distorção, um cachecol verde e branco, cores do Celtic de Glasgow, e uma pequena cabeça de uma boneca de brincar. Amuletos que asseguram que a descarga de ruído e de melodia siga o seu fluxo natural de constante intercâmbio e sequência.

Em jeito de introdução, “Ithica 27-9” oferece ao público a primeira vaga sónica. Com quase dez anos de existência, esta pequena composição tem uma especial energia ao vivo e serviu para afastar qualquer dormência instalada pela abertura de Eugene Kelly. A incidência sobre o último disco da banda, Mr. Beast (2006), era previsível. Poder-se-á mesmo dizer que os Mogwai estão longe de serem uma banda do tipo reminiscente. Com dezenas de músicas no seu reportório, a noite madrilena incidiu especialmente sobre os dois últimos discos da banda, o referido Mr. Beast e Happy Songs For Happy People (2003).

Podemos dividir o alinhamento dos Mogwai para esta noite em duas porções de músicas distintas. A primeira parte do concerto, movida pelo material mais recente da banda, teve um carácter mais embalante, melódico e de suaves texturas. “Friend Of The Night” foi grande, logo ao início, onde o piano sob as mãos de Barry Burns fazia-nos crer que seria possível levantar voo. Bastava querer (crer?). A sequência de músicas composta por “Travel Is Dangerous”, “I Know You Are But What Am I?”, “Acid Food” e “Killing All The Flies” moldou o espaço envolvente numa forma irregular e simbiótica de pós-rock e electrónica. A voz sintetizada de Burns esteve em destaque. Se em álbum soa demasiado polida, ao vivo consegue ficar suficientemente suja para se misturar com as guitarras, para se tornar numa camada sonora adicional capaz de hipnotizar por completo. Em “Killing All The Flies” e “Hunted By A Freak” foi evidente. As restantes músicas de Happy Songs For Happy People conseguiram uma maior vivacidade igualmente. Perde-se a placidez da produção de estúdio, ganha-se um corpo orgânico e incontrolável.

O segundo segmento do concerto foi bastante mais cru e violento. As três guitarras tiveram um maior destaque e os Mogwai tocaram algumas das músicas mais sonantes da sua carreira. “Ratts Of The Capital” começou por marcar o ritmo ruidoso. De seguida, a monstruosa “Mogwai Fear Satan”, que bem se poderia apelidar de “Mogwai Might Be Satan”, foi pautada por ritmo nervoso constante e pelas cordas das guitarras que quase não descansaram durante mais de 16 minutos. Os decibéis expelidos eram como agulhas. Possuíam um carácter tão doloroso quanto terapêutico. Após alguns minutos de exposição, a mente dispersou pela sala e só com o decrescendo gradual da música foi possível viver de novo sob a lei da gravidade. “Glasgow Mega-Snake” é uma das músicas de Mr. Beast que se sabia que iria resultar bem em formato concerto. Não desapontou. Directa e energética, soltou uma ovação geral na sala.

O cair do pano foi feito com “Helicon 1” e com a lenta, lentíssima, e bastante volumosa “We’re No Here”. Os cinco elementos saiem do palco enquanto os seus instrumentos se misturam entre feedbacks e ruídos de fundo. No retorno, em encore, a quase desconhecida “Black Spider” (que será editada na banda-sonora composta pela banda para o filme biográfico de Zinédine Zidane) e a fenomenal “2 Rights Make One Wrong”. Uma despedida de deixar o espírito cheio e a mente satisfeita.

Foi um concerto com uma grande e merecida assistência, mas com muito espaço entre cada uma das pessoas. Um concerto compartilhado por centenas, mas que se viveu numa esfera intra-pessoal e privada. Puramente egoísta. E puramente bom.

Alinhamento completo: “Ithica 27-9”, “Friend Of The Night”, “Travel Is Dangerous”, “I Know You Are But What Am I ?”, “Acid Food”, “Killing All The Flies”, “Hunted By A Freak”, “Ratts Of The Capital”, “Mogwai Fear Satan”, “Glasgow Mega-Snake”, “Helicon 1”, “We’re No Here”, “Black Spider (a.k.a. ‘Big E’)”, “Two Rights Make One Wrong”

Texto: Gonçalo Sítima

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~ por hiddentrack.net em 1, Outubro, 2006.

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