Samuel Jerónimo – Rima

As circunstâncias determinam fortemente as primeiras impressões. E se é certo que, por um lado, saber que um álbum se insere no espectro da música experimental (num sentido bastante restrito deste género) é meio caminho andado para 40 ou 50 minutos de sininhos e efeitos sonoros de computador, por outro, o facto de estarmos avisados pode preparar-nos para cenários bem piores do que os que acabamos por encontrar.

Não conhecia a música de Samuel Jerónimo e não sabia bem o que esperar. A biografia, as notas explicativas e as frases retiradas de publicações nacionais e internacionais que se podem encontrar no site do músico não dão muitas pistas. Destaco particularmente as explicações, autênticos manuais de instruções, que tentam dar suporte aos conceitos desenvolvidos na música de Jerónimo. No caso de Rima, o álbum mais recente, o músico discorre sobre o modernismo, referindo nomes como Stravinsky, Heidegger e Nietzsche. Samuel Jerónimo diz que o álbum se centra na justaposição dos resultados que advêm de três processos de mudança (contínuos, cíclicos e graduais), “nomeadamente nas continuidades (transparências) e nos rompimentos estéticos (perdas por assimilação), pretendendo desta forma estabelecer musicalmente uma linha temporal onde o Passado, o Presente e o Futuro se unam num único ponto.” Se conseguirmos, conceptualmente, dissociar conceito e música propriamente dita, e formos obcecados por delimitações de género…podemos enlouquecer a priori. Não vale a pena. Só mesmo ouvindo.

Rima é qualquer coisa progressiva, experimental. Não é um disco para ouvir com os amigos no carro nem para trautear a caminho do trabalho. Volto, portanto, a enfatizar as circunstâncias. Rima é música que, em condições meteorológicas mais ou menos específicas, ouvida de manhã cedo ou ao final da noite, de preferência com pouca luz, pode ser apreciada mais completamente. Por haver um conceito explícito e definido previamente, as atenções centram-se na música mais do que habitualmente. Tentar descortinar os momentos e a essência do conceito é trabalho interessante.

Mas vamos à música. O primeiro verso começa com disparos sónicos em câmara lenta, hipnotismo digital em jeito de banda sonora de filme de ficção científica. O ambiente é pesado e denso, um lago pantanoso cheio de lixo digital e de memórias futuras. O início é muito frio mas a música progride de uma forma que a leva a transformar-se em algo estranhamente grave, dramático e angustiante.

O primeiro passo dá-nos uma pista. Mas ao segundo verso, voltamos à estaca zero. A razão é um órgão brilhantemente tocado por Samuel Jerónimo. O ritmo nunca desaparece mas no primeiro tema estava muito disfarçado. Por isso, é mais surpreendente que apareça tão destacado neste tema. É música de génio perturbado como Hollywood gosta de o ver. O ritmo larga o lugar de destaque para o dar a uma tímida face emocional, primeiro, e a uma polissemia de estímulos, depois, que quase provoca cansaço físico.

À terceira faixa, encontramos alguma lógica estrutural neste álbum. A terceira rima com a primeira e, prevê-se, a quarta tem de rimar com a segunda. O próprio Samuel Jerónimo diz que assim tem de ser numa rima cruzada perfeita. Volta o voo espacial futurista do primeiro verso, desta vez ainda mais grave e um pouco esquizofrénico. Passamos de um estado submerso a um voo de longa distância até ao mais tempestuoso dos destinos. Há voz, computador e mais, ainda mais graves.

O quarto verso, que fecha a rima, é menos frio, porque a manhã avançou ou a noite está prestes a transformar-se em sono, mais próximo, mais nosso. Ao quarto verso, já não queremos saber se a música é experimental ou não, se é progressiva. A verdade é que a emoção varia entre a mais triste das dores e a mais entusiasmante corrida de carros num estalar de dedos. Não o nosso mas o de Samuel Jerónimo.

A executar, este músico português é, não hesito em dizê-lo mais uma vez, brilhante. As composições transformadas recitais de órgão são muito boas. Sim, de alguma forma, à luz da generalidade do álbum, o primeiro e o terceiro versos não são tão bons como os outros dois. Mas são tão diferentes que as comparações roçam o ridículo. E, mais uma vez, tudo isto depende das circunstâncias. Talvez tenha tido sorte. Estou certo de que haverá por aí muitos que não verão nada do que vi nesta música. Mas a música só por si não tem um significado que lhe possa ser colado, dizem os semiólogos. O conceito predefinido tenta dar uma ajuda, mas em última instância, de nada valem as instruções se a qualidade não for suficiente. Neste caso, é bastante mais do que isso.

8/10 | Filipe Marques

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~ por hiddentrack.net em 8, Outubro, 2006.

 
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