Entrevista com Final Fantasy

A poucas semanas do regresso de Owen Pallett aos palcos portugueses, o hiddentrack.net teve oportunidade de falar com o músico sobre o último álbum, a cena musical canadiana, os seus planos para o futuro e o seu fascínio pela cultura “nerd”.

Porque é que escolheu o título He Poos Clouds para o último álbum?
O título foi escrito antes de começar a escrever o álbum. Achei que ele descrevia exactamente os conteúdos do álbum. Sarcástico mas amoroso.

Com treze anos fez a sua primeira composição musical para um jogo de vídeo. O último álbum baseia-se no jogo “Dungeons and Dragons”. Como é que os videojogos inspiram a sua música?
Eles não inspiram mais ou menos do que livros, filmes, bebidas ou conversas hilariantes com os amigos. Mas a sua influência é sentida. Estou mais interessado em compor canções sobre a cultura “nerd” do que os próprios videojogos. A canção “He Poos Clouds” é especificamente sobre Link, da série “The Legend of Zelda”, mas no futuro não vai haver nenhuma canção sobre Simon Belmont ou Mario ou outro qualquer, acho eu.

O álbum afasta-se da concepção básica da música pop. Ele explora uma atmosfera mais erudita e operática, mais complexa do que o primeiro álbum. Escolheu este caminho especificamente ou surgiu naturalmente?
Acho que não existe nenhuma diferença entre música clássica e pop, excepto nisto: bateria. Tiras a bateria de uma música qualquer dos Blur e terás Benjamin Britten. Tiras a bateria de uma canção dos Royal Trux e terás uma cópia hippie de Stockhausen. Tiras a bateria duma canção dos Cardigans e o resultado será surpreendentemente próximo de Scott Joplin.

He Poos Clouds foi composto para um quarteto de cordas, ao contrário de Has A Good Home, onde era apenas você e o violino. Porquê esta diferença no álbum?
Apenas não quero fazer o mesmo álbum duas vezes. O próximo será composto num estilo musical concreto, com diferentes gravações sobrepostas. Será como o Horizontal Hold dos This Heat, mas transformado num álbum pop. Com muita influência ragtime.

Na canção “I’m Afraid of Japan” fala sobre Mishima. Escolheu o suicídio dele para falar de algo que tenha vivido?
Não. Aliás, eu gozo um pouco com o Mishima na música. “If I do it with an ice-pick, will I come back as a jock?” é uma parte da canção. Esta parte goza especificamente com a morte do Mishima, sugerindo que ele o fez esperando a reencarnação – ele sempre defendeu que não acreditava no Budismo – e também por uma certa vaidade – em vez de ter sido por um objectivo honroso. Acho que ele foi uma pessoa ridícula e melodramática, e a sua morte foi um precedente para os artistas gays serem suicido-obcecados desde há 36 anos (quando Mishima se suicidou). No entanto, os livros dele são espectaculares.

Colaborar com os Arcade Fire em Funeral fê-lo sentir alguma pressão ao compor os seus dois álbuns como Final Fantasy?
Sim! Não estava para ter alguma atenção sobre a minha música. Eu queria ficar a trabalhar calmamente por Toronto, muito feliz por permanecer anónimo do resto do mundo. Ao início foi stressante ver críticas na Pitchfork e Uncut e essas porcarias todas, mas agora encaro tudo isso com muita frieza. Agora estou morto por dentro.

Nestes últimos anos têm aparecido várias boas bandas do Canadá, como os Broken Social Scene, Arcade Fire, Wolf Parade, entre outros. Como é que vê esta cena musical do Canadá? É assim tão estimulante quanto parece?
Aqui na Europa apenas estás a receber os aperitivos. Já ouviste falar dos Black Mountain? Destroyer? Frog Eyes? Hank Williams? The Barcelona Pavilion? Ninja High School? Malajube? Cadence Weapon? Fucked Up? Sunset Rubdown? Deep Dark United? Provavelmente não. Não consegues ter uma ideia real do que se passa no Canadá a não ser que vivas lá. Nós temos a melhor cena musical no mundo. Eu sei! Eu já estive por todo o lado. Convido todos a virem e visitarem, eu cozinho para vocês.

Este mês vai estar pela terceira vez em Portugal. Como é que se sentiu em tocar em Portugal? Houve cá alguma coisa que tenha realmente gostado?
Homens velhos com óculos de massa e dentes de ouro. Muito sexy. Eles podiam ter saído de um livro de bolso.

Recentemente ganhou o Polaris Music Prize. Como é que se sentiu quando o recebeu? Acha que é importante ser reconhecido no próprio país?
Os canadianos têm a tendência de se virarem para si próprios…Toronto é apelidada da “cidade dos punhais” por uma boa razão. Não creio que dure muito tempo.
Quando o segundo álbum dos Broken Social Scene saiu as pessoas diziam: “Adoro estes gajos! Nós dormimos nos chãos das casas deles, nós tocámos com eles! Eles fizeram um excelente disco! Hurra!”. Agora a comunidade musical ODEIA-OS. Completamente, e por nenhuma razão.
O meu ponto de vista é este: os músicos fazem álbuns e dão concertos. É tudo. Podes não gostar do álbum ou do concerto, mas o músico fica na mesma. Eles não podem controlar a sua imagem pública ou a sua publicidade. Eu tenho sido, em todos os aspectos, tão franco quanto possível a lidar com os críticos e o público, mas tenho a certeza que se vai virar contra mim e morder-me no rabo.

Tem alguns planos para o futuro de Final Fantasy?
Sim. Estou a trabalhar nalguns discos. O álbum de ragtime que mencionei ali atrás é um deles; outro será um épico, um romance de fantasia sobre um jovem fanático religioso romântico cuja fé é questionada. O quarto será um disco de pop sombria que eu gravarei em casa. Estou ainda a tentar gravar alguns hits de soft-rock. Entrar na onda dos Hot Chip, estás a ver? (N. de T.: “Jump on the Hot Chip bandwagon, you know?”)

João Moço

outubro.2006

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~ por hiddentrack.net em 11, Outubro, 2006.

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